Uma das minhas maiores divergências com o dito pensamento libertário (nada contra, inclusive tenho amigos que são) é a certeza que eles têm de que cada país deve ficar quieto no seu canto, sem intervir em nenhum outro – exceto, claro, em caso de prévia e injusta agressão sofrida. É inclusive por isso que libertários são contra a chamada Guerra ao Terror: eles não acham correto que indivíduos devam ser forçados a financiar uma expedição militar do outro lado do mundo.
Antes de prosseguir, um esclarecimento: é evidente que não quero – nem posso – sintetizar no parágrafo acima toda a filosofia libertária. A ideia nem é essa. O que pretendo é apenas ilustrar uma das principais divergências que eu, pessoalmente, tenho diante dela. E, a partir disso, explicar por que entendo que uma das funções dessa ficção social denominada Estado deve ser, sim, garantir a vigência dos valores sobre os quais se erigiu o Ocidente. Mas já me desviei demais. Retomo.
Certa feita me acusaram de ser favorável ao imperialismo. Perguntei: “Você fala do ponto de vista prático, ou estritamente acadêmico?” Diante da falta de reação do interlocutor, falei algo que repito desde então, sempre que a questão me é reproposta: sou tão contra o imperialismo, que no meu mundo ideal, nem Grandes Navegações teriam existido. A Europa continuaria sendo “apenas” Europa, a riquíssima cultura oriental seria cultivada pelos orientais e os nossos índios estariam até hoje batendo os pés no chão para trazer os mortos de volta à vida… Mas o mundo não é como eu o idealizo. Ele é como é e devemos lidar com os problemas que estão postos após milênios de história.
Mas qual o ponto disso? Simples: é evidente que, dependesse apenas da minha vontade utópica, as mazelas decorrentes da colonização jamais teriam existido. Por outro lado, sendo imutável o fato de que ocorreram, me é impossível deixar de notar que era preferível a França oprimindo a Algéria com Descartes, que a barbárie instituída depois da saída dos europeus…
Da mesma forma, é evidente que no meu mundo ideal nós ficaríamos quietos no nosso canto, pagando poucos impostos e vivendo nossas vidas. Mas não acho possível que o Ocidente assista impassível enquanto o Irã enforca homossexuais em praça pública, ou enquanto Saddan extermina uma inteira etnia. Acho, sim, que é necessário intervir! Acredito que se nós, indivíduos livres, aceitamos democraticamente limitar nossas liberdades em nome dessa coisa chamada Estado é, inclusive, para defender a prevalência do nosso alicerce moral.
Eu não pretendo defender toda e qualquer guerra declarada pelos Estados Unidos em nome da liberdade. Longe disso! Quero dizer que não concordo com a lógica do “isso não me diz respeito”, pois uma violação às liberdades individuais em um lugar é uma violação às liberdades individuais em todo lugar.

O Ocidente não precisa impedir que mulheres sejam apedrejadas até a morte em alguma teocracia islâmica porque isso é o melhor para elas. Não! O Ocidente precisa impedir porque isso é o melhor para nós. Porque a partir do momento que algo assim deixar de ser motivo para intervir, significa que as pedras fundamentais sobre as quais foi erguido o nosso sistema de liberdades democráticas começaram a ruir.
Não vejo como seja possível ficar indiferente diante do recrutamento de crianças para funcionarem como homens-bomba, no mercado de carne humana mantido pelo fascismo islâmico. O imperativo moral não é intervir apenas para impedir que um menino palestino se torne mercadoria a serviço do Hamas, mas para que possamos continuar olhando nos olhos nossos próprios filhos sabendo que somos sinceros quando passamos a eles os valores de liberdade e justiça.
“Nossa, mas esse texto parece muito filo-ocidental.” Como assim, parece?! Este texto é filo-ocidental! Eu não pretendo esconder minhas convicções e uma das coisas que aprendi a admitir sem medo do consenso politicamente correto é que o Ocidente, com todas as suas mazelas e seus defeitos, ainda é, sim, superior às alternativas. Aqui é possível pegar um megafone e ir na frente da Casa Branca esculhambar o Obama. Experimente fazer isso na Coreia do Norte. Aqui travamos calorosos debates para que mulheres de origem islâmica possam andar em nossas ruas trajando suas vestes típicas. Agora me digam que mulher ocidental pode andar em Teerã usando minissaia e decote? Aqui, fazemos passeatas pedindo paz quando um míssil atinge, por engano, um alvo civil deles. Lá, eles saem às ruas para comemorar quando dois aviões atingem de propósito um alvo civil nosso.
Sou mesmo um conservador… Não acho que os estupros coletivos, usados como arma de guerra pelo exército oficial do Congo, devam ser ignorados e tratados como “particularidade cultural” daquele lugar. Eles não me afetam direta e imediatamente, mas virar as costas para isso é condescender com a presença da barbárie mais primitiva e atroz no mundo. E esse tipo de concessão acabará irremediavelmente por dilapidar os nossos valores. É em nome deles que a liberdade e a busca da felicidade devem ser protegidas e garantidas não apenas aqui, no meu universo particular. Mas em qualquer parte do mundo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário