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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

O que seria do mundo sem os Estados Unidos da América? (RC)


Finalmente vi o documentário “America: Imagine the World without Her”, de Dinesh D’Souza, que alguns amigos tinham recomendado com bastante determinação. Faço o mesmo aqui: é simplesmente imperdível! Todos aqueles que apreciam o que a ideia por trás da criação dos Estados Unidos da América representa devem ver o filme, para saber o que está em jogo e que tipo de inimigo enfrentamos.
Dinesh, que é imigrante indiano naturalizado americano, é autor também de uma ótima biografia de Ronald Reagan, em cujo governo trabalhou, e de um outro documentário recente que virou um grande sucesso, contra Obama. Sua postura calma de acadêmico focado nos argumentos, de quem escuta realmente o outro lado para só depois contra-argumentar, desconcerta seus oponentes.
Ele começa apresentando as principais acusações feitas contra a América: 1) tomou a terra dos nativos e os exterminou; 2) roubou metade do México; 3) criou uma subclasse de negros; 4) explorou a riqueza do resto do mundo; 5) o seu regime capitalista representa igualmente a exploração dos pobres. Uma a uma, ele apresenta tais acusações com base em seus expoentes famosos, dando espaço para que construam seus casos contra os Estados Unidos.
Em seguida, com tranquilidade, aborda os fatos e usa argumentos lógicos e racionais para refutar cada uma das acusações. Segundo Dinesh, a narrativa inventada por algumas pessoas que odeiam o que a América representa, como Noam Chomsky, Michael Moore ou o historiador Howard Zinn, coloca os Estados Unidos como o grande vilão do mundo, tentando incutir culpa em seu povo.
A visão marxista de luta de classes é transportada para todos os casos, pintando os americanos como os opressores. Mas como Dinesh demonstra, é justamente o contrário: os Estados Unidos têm sido o farol da liberdade no mundo, representam uma ideia diferenciada, de igualdade de todos perante as leis, de meritocracia, de responsabilidade individual, de liberdade. A “lei da conquista” sempre foi a vigente no mundo; o que a América trouxe de diferente foi a lei da troca voluntária, do livre comércio, da escolha individual.
Figuras como George Washington, Abraham Lincoln e Reagan são usadas para resgatar o que a América tem de mais valioso. As análises de fora, de um aristocrata francês, também são expostas para deixar evidente o contraste entre Estados Unidos e Europa do século XIX. Tocqueville ficou impressionado com as associações voluntárias do povo americano, de como dependiam menos do governo, de como demonstravam maior iniciativa própria, empreendedorismo e também caridade, fruto em boa parte da religião.
Falar em “imperialismo estadunidense” é uma piada de mau gosto, quando lembramos que os americanos compraram territórios como Alaska e Louisiana, e devolveram para os alemães e japoneses seus países com democracias estabelecidas, após derrotá-los em uma guerra que só entraram para se defender. No Iraque, gastaram bilhões de dólares, e depois da vitória deixaram seu petróleo ser explorado pelos próprios iraquianos.
A guerra de independência, segundo Dinesh, foi uma guerra para criar a América. A guerra civil foi uma guerra para preservar a América unida. A Segunda Guerra foi uma guerra para proteger a América. Agora, diz ele, é hora de os americanos lutarem para restaurar a América, pois ela se encontra ameaçada por inimigos internos, por “intelectuais” que desprezam seus valores e tudo aquilo que a tornou excepcional.
O que seria do mundo sem os Estados Unidos da América? Um lugar pior, sem dúvida, com menos prosperidade e menos liberdade. God bless America!

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

As origens da judeofobia (RC)

Why the Jews
morte suspeita do promotor argentino Alberto Nisman reacende o debate sobre o antissemitismo, ou a judeofobia, termo preferido por alguns. Afinal, o caso que ele denunciava envolvia o Irã e o maior atentado terrorista já realizado na América Latina, em 1994, tendo como alvo os judeus. Por que o povo judeu é perseguido há tantos séculos? Por que de tempos em tempos os judeus são atacados com tanto furor?
Na tentativa de responder essas questões, Dennis Prager e Joseph Telushkin escreveram um excelente livro que recomendo a todos. Trata-se de Why the Jews?, em que os autores procuram explicar a razão do antissemitismo milenar. Para tanto, refutam tentativas modernas de explicar o fenômeno, que negam o fator intrínseco ao judaísmo e partem para motivos exógenos, alegando causas sem ligação com a própria religião.
Para eles, as teses de bodes expiatórios não se sustentam, pois o ódio aos judeus é singular. Outros grupos já foram alvos desse ódio, mas nenhum foi tão permanente, universal e profundo como o antissemitismo. Pensamos no Holocausto mais recente, e também a mais nefasta expressão desse ódio, mas ele está longe de ser um caso isolado. Ao menos em três ocasiões nos últimos 350 anos surgiram campanhas de aniquilação dos judeus: os massacres no Leste Europeu em 1648-49, o próprio nazismo e as tentativas de destruir o estado de Israel por seus inimigos árabes.
Os acadêmicos buscam respostas nos fatores econômicos, na necessidade de bodes expiatórios, no ódio étnico, na xenofobia, no ressentimento gerado pela afluência e sucesso profissional dos judeus, etc. O único fator que não usam para explicar o fenômeno é o próprio judaísmo e o que ele representa. Causas econômicas, como na Alemanha, podem explicar o fermento do ódio, mas não as câmaras de gás. A inveja do sucesso de muitos judeus pode jogar lenha na fogueira, mas não explica o ódio a todos os judeus, inclusive aos pobres, perseguidos em várias épocas e locais.
Para os autores do livro, essas tentativas de retirar o judaísmo da judeofobia são um equívoco. O ódio aos judeus, segundo eles, existe por que são judeus e pelo que isso representa. Quando judeus se tornavam cristãos, obrigados ou não, deixavam de ser atacados. À exceção do nazismo, que tentou eliminar todos os judeus com base na origem genética, os demais casos perseguiam os judeus enquanto permaneciam judeus, mas não se importavam com convertidos.
Os judeus afirmam que existe apenas um Deus para toda a humanidade, o que implica ilegitimidade para todas as demais crenças; acreditam que são o “povo escolhido”, o que costuma despertar ressentimento; e defendem o monoteísmo ético, ou seja, fazem demandas morais que historicamente sempre foram motivo para tensões com outros povos. Para os autores, não é possível negar tais fatores na origem da judeofobia.
Além disso, os judeus foram sempre bem educados, pois sua religião sempre foi disseminada pela palavra, e enquanto o clero católico gozava de privilégios e os crentes eram, em boa parte, analfabetos, os judeus apresentavam as maiores taxas de alfabetização. Suas famílias, até por suas crenças, mostraram-se historicamente mais estáveis. A solidariedade entre eles sempre foi maior do que a média. Tudo isso ajudou a produzir uma qualidade de vida melhor entre os judeus, mas provocou hostilidade e inveja em muitos povos.
Ou seja, os autores vão buscar na origem do judaísmo e no que ele representava as causas da judeofobia. Ao representar uma ameaça aos valores principais e às crenças alheias, os judeus despertaram um ódio universal e profundo. Os quatro componentes básicos do judaísmo – Deus, Torah, Israel e o povo escolhido – desafiaram os deuses, as leis e as culturas de povos não-judeus.
Um fator básico da judeofobia seria, portanto, a rebelião contra esse monoteísmo ético, aqueles mandamentos que proíbem vários atos e impõem uma autoridade moral suprema. Em sociedades e culturas mais relativistas e permissivas, essa sombra moral pode ser insuportável. Ao obedecer aos mandamentos supremos, os judeus também poderiam entrar em conflito com certas leis estatais consideradas injustas. Os romanos, por exemplo, não admitiam que um padrão externo ao seu governo fosse adotado como métrica para a conduta.
Qualquer grupo agindo de forma diferente da maioria já pode ser alvo de hostilidade. O fato de que os judeus raramente eram “fracassos sociais”, e sim o contrário, ou seja, sua singularidade costumava resultar em mais estabilidade e progresso, fez com que tal hostilidade apenas aumentasse. Suas práticas provocaram antipatia nos demais. Em geral, os judeus apresentam taxas menores de alcoolismo ou uso de drogas e agressão às esposas, níveis mais altos de educação, sucesso profissional, solidariedade comunitária forte (tzedaka, caridade em hebraico, significa também justiça e é uma obrigação, um dever de todo judeu) e menos crimes violentos.
Todo crente se julga um “escolhido”, e esse fator do judaísmo não precisaria despertar tanto rancor nos demais, não fosse esse sucesso relativo dessa minoria diferente. É análogo ao que ocorre com os americanos no mundo moderno. Sua visão de “farol da liberdade” e líder dos países democráticos desenvolvidos gera revolta em muitos, especialmente por que os Estados Unidos são mesmo isso. Graças a eles a Europa foi salva do fascismo, do nazismo e do comunismo, por exemplo. Os americanos são diferenciados como nação, e isso produziu resultados melhores, o que costuma ser insuportável para muitos.
Não é por acaso que o antissemitismo, muitas vezes disfarçado de anti-sionismo, costuma ser pregado pelos mesmos que adoram atacar os Estados Unidos. Não tem nada a ver com se julgar um povo ou uma nação superior, como os arianos nazistas, e sim abraçar uma crença, um código moral e um comportamento vistos como moralmente superiores, e ter o respaldo dos fatos depois. Não é algo inato, genético, pois qualquer um pode endossar as mesmas leis morais. E não se trata de um privilégio arrogante, e sim de um fardo imposto. Muito mais fácil é repetir, com os relativistas, que todos são iguais independentemente dos seus atos e que não existe nada melhor ou pior no mundo, uma defesa lamentável do que há de pior por aí.
Em resumo, ao se diferenciar como povo e adotar uma postura de “escolhido” que segue um mandamento moral superior de seu Deus, o único existente, os judeus já estariam sujeitos à hostilidade dos demais. Quando essa singularidade se traduz em maior sucesso social, parece natural que a inveja, presente nos seres humanos de forma atávica, floresça e leve até mesmo ao ódio. Não é apenas o sucesso em si, pois, preservando a analogia com o antiamericanismo, outros países são ricos também, mas poucos estão dispostos a lutar com tanto afinco por seus valores diferenciados e defendê-los com clareza moral. É essa postura que tanto incomoda. Não a do fanático intransigente que, no fundo, é um inseguro e precisa destruir os outros; mas sim aquela de quem sabe lutar pelo que é certo.
O livro segue relatando os diferentes tipos de antissemitismo e todas as evidências históricas. Foca no antissemitismo cristão, especialmente no passado, até porque foi insuportável que uma seita religiosa nascida dos judeus não tivesse deles aprovação, pois o judeu Jesus não fora aceito pelo povo judeu como Deus em pessoa. Fala do antissemitismo islâmico, do secular no Iluminismo, do esquerdista, do nazista e do moderno, disfarçado de anti-sionismo, como se os judeus não fossem o alvo, mas somente sua nação Israel. Termina com algumas sugestões do que pode ser feito para mitigar tal antissemitismo no mundo.
Como a resenha já se alongou demais, vou parar por aqui. Mas insisto na recomendação da leitura para quem se interessa pelo assunto. E todos deveriam se interessar, pois o antissemitismo nunca fica limitado aos judeus. Começa com eles, pelos motivos listados acima, mas justamente por representar um ataque a esse monoteísmo ético por parte de relativistas e invejosos, costuma terminar com um ódio mais generalizado a tudo que a civilização representa, contra tudo o que significa um desafio moral mais elevado.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O PT e a versão bananeira do Pacto de Varsóvia (*) Percival Puggina



Descobri, há bom tempo, que o Partido dos Trabalhadores tem conceitos próprios sobre democracia e Estado de Direito. Para o PT, democracia é algo que só acontecerá quando ele, partido, exercer a hegemonia e controlar todos os instrumentos do poder. Enquanto isso não se concretiza plenamente, o PT vai manipulando os meios que o regime vigente propicia ao curso de seu projeto.

Graças a isso, o partido conseguiu não ser apenas o PT. Ele é o PT e mais um vasto conjunto de corpos sociais que gravitam ao seu redor. São sindicatos e centrais sindicais; instituições culturais e de ensino; movimentos sociais e grupos minoritários que ele transforma em grupos de pressão a seu favor; grêmios estudantis, diretórios, centros acadêmicos e uniões de estudantes; partidos políticos sem anticorpos contra o uso de recursos públicos; organizações não governamentais; entidades relacionadas às políticas de gênero, ligas pró-aborto e defensoras da liberação das drogas; igrejas e órgãos de peso como a CNBB e a OAB que, convertidos ao rebanho, se entregam à alcateia. Ah, e os conselhos capturados pelo PT! Eles se revelam tão úteis que o partido, agora, pretende “empoderá-los” (coisas da novilíngua petista…) em todo o aparelho estatal federal. A isso e a outro tanto que resultaria exaustivo relacionar, juntam-se, sempre que necessário, organismos e instituições internacionais de isenção mais do que duvidosa.
Para o PT, democrática é toda manifestação desse grupo aí acima. Democrático é o que faz cada tentáculo seu. Ouvi-los, para o PT, é ouvir o povo. E quem o nega passa a ser tratado como cordeiro intrometido no riacho do lobo, acusado das piores ações e intenções.
Tão estranho quanto a democracia petista é o “Estado de Direito” petista. Nele, Direito é o que o partido quer. Por bem ou por mal. Perguntem ao companheiro João Pedro Stédile que, nesses assuntos, fala pelo partido. E Estado de Direito é algo que vai até onde o PT quer. Por bem ou por mal. Sobre essa parte conversem com o companheiro Gilberto Carvalho. O Estado de Direito petista é moldável e elástico segundo suas necessidades. Procurem um pouco e não será difícil encontrar por aí traços comuns aos três totalitarismos do século passado.
Mas no jogo que o PT joga, o Brasil é apenas uma peça do tabuleiro. O jogo tem pretensões maiores. Começou em 1990 com o Foro de São Paulo, promovendo uma convergência multifacetária da esquerda na América Latina e desaguou na União das Nações Sul-Americanas, criada em 2006. Em mais recente estágio, no dia 5 de dezembro, em Quito, com a presença de Dilma, esse organismo, que congrega os países do continente, decidiu criar um programa de formação de quadros militares.
Trata-se da Escola de Defesa, que tem dois objetivos explícitos: produzir uma unidade interna que elimine possíveis conflitos intrarregionais e fortalecer a América do Sul contra o inimigo externo, vale dizer, contra o inimigo ianque. Procure no Google por Unasul e por “Escola de Defesa” (em espanhol e em português), e encontrará informação suficiente. Esse estrupício foi instituído pelo bloco para que o conjunto das Forças Armadas de todos os países componham algo que outra coisa não é senão uma versão bananeira do Pacto de Varsóvia.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

O antiamericanismo cultural(João Cesar de Melo)


Creio que, enfim, entendi o motivo do antiamericanismo da maioria dos intelectuais. Os Estados Unidos representam a vitória do Povão! Povão brega e fanfarrão, mas independente. Povão que manda no Estado. Povão que ignora a masturbação filosófica europeia. Povão que, em vez de tentar ser inteligentinho, prefere se divertir. Povão cujos indivíduos têm liberdade, dinheiro e provavelmente uma arma dentro de casa.
As acusações de que os Estados Unidos impõem um “imperialismo” comercial e político ao mundo não passam de uma cortina para esconder um dos sentimentos mais pobres do ser humano: o recalque. Recalque doloridíssimo diante do sucesso de uma sociedade feita de imigrantes e que em pouco mais de um século não apenas enriqueceu, mas também se tornou a principal referência cultural do mundo.
Os inteligentinhos daqui e de todas as partes do mundo não se conformam em ver a cultura americana influenciando a cultura de todos os outros países. Todas as vezes que um intelectualzinho brasileiro escuta, aqui, uma música americana na rádio, no bar, na televisão ou na rua, ele se lembra de que o povão americano só escuta músicas em sua própria língua. Hollywood trabalha para os americanos, não para nós. O povão do mundo consome o que o povão americano produz.
A verdade: os Estados Unidos representam o maior dos sonhos e o pior dos pesadelos de um intelectual. Sonho por terem desenvolvido uma cultura tão forte e diversa que sua sociedade não se interessa por quase nada de fora. Pesadelo por terem feito tudo isso de forma independente, sem pedir licença à intelligentsia.
O Blues e o Jazz vieram das igrejas cristãs. Andy Warhol ergueu-se emoldurando como arte aquilo que ainda hoje, em pleno século XXI, causa calafrios nos inteligentinhos socialistas. Michael Jackson queria ser branco e o atual presidente é negro, de origem pobre mas que estudou em Harvard. Rappers não apenas ficam ricos milionários, como também fazem questão de exibir carrões, joias e negras de cabelos alisados. Hollywood sustenta-se expondo tanto a inocência quanto a violência do povão. Artistas criticam o governo. Toda a indústria cultural dos Estados Unidos é sustentada pelo mercado, pelo dinheiro privado. Nenhum cineasta, músico, ator ou pseudo-jornalista vive à custa do governo.
A produção cultural americana se sobrepõe a da maioria dos outros países por uma única razão: por ser mais atraente. Eles produzem melhor. Eles divulgam melhor. Eles sabem, como ninguém, o que o povão quer de ver. Isso faz com que os inteligentinhos culpem o “imperialismo americano” pela mediocridade da produção cultural em seus respectivos países. Cineastas culpam as produções americanas pela pífia bilheteria de seus filmes. Músicos culpam as produções americanas pela falta de espaço no mercado.
Inteligentinhos culpam os “enlatados” americanos pela idiotização da sociedade. Recalque! Recalque! Recalque tão grande que ignoram até o que a história nos conta: culturas são organismos em constante transformação, influenciando umas as outras desigualmente, com algumas abrindo caminho dentro das outras na proporção do interesse que despertam no público. Ou seja: a influência americana é um fenômeno natural – se não fossem eles, estaríamos sob a influência de outro país. O Egito influenciou a Grécia, que influenciou Roma, que influenciou a Europa ocidental… Cá estamos, com nossa cultura sendo moldada pelo resultado da fusão de todas as culturas.
Em contra-ataque, os recalcados cobram que o Estado crie barreiras contra a influência da cultura americana sob a justificativa de… “proteger a cultura nacional!”. Lembro-me de uma palestra do Ariano Suassuna em Recife, quando ele passou longos minutos defendendo que o brasileiro deveria usar chapéu de couro em vez de boné. Aff!
Contudo, não é o sucesso em si que alimenta o recalque dos intelectuais daqui e de todo o mundo. É o dinheiro que eles – americanos − ganham com a cultura popular. Dinheiro! Intelectual nenhum assume que trabalha para ganhar dinheiro, porém, todos estão sempre tentando arrancar (arrancar!) do Estado as verbas necessárias não apenas para viabilizar seus projetos, mas principalmente para bancar seus confortos, perversões e, claro, suas viagens a Paris.
Intelectual diz que não gosta de dinheiro, mas exige que a sociedade pague todas as suas contas. Sim… eles se acham evoluidíssimos espiritual e filosoficamente, tanto que enxergam-se imprescindíveis para a sociedade. Todo o resto da sociedade é ralé e o entretenimento de massa é a desgraça humana! Por isso, o povão deveria adorá-los, aplaudi-los e financiá-los. Mas então surgem os artistas “comercias”, que tomam a atenção e o dinheiro do povo; e esses artistas comerciais são influenciados pela cultura capitalista e opressora americana. O recalque os enlouquece…
A certeza: Cada artista ou intelectual que grita contra o imperialismo cultural dos Estados Unidos consome-se de inveja do sucesso americano. Invejam sua força e independência. Invejam a forma como reverenciam sua história e seus ídolos. A breguice e a fanfarronice da cultura pop americana não lhes incomoda apenas por sua extravagância estética, mas também pelo dinheiro e pelos aplausos que seus agentes recebem.

terça-feira, 25 de março de 2014

A História proibida (OLAVO DE CARVALHO)

Bittman afirmou que a KGB tinha na sua folha de pagamentos, em 1964, quase uma centena de jornalistas brasileiros. Alguém se interessou em investigar quem eram eles?

Carl Schmitt definia a política como aquele campo da atividade humana no qual, não sendo possível nenhuma arbitragem racional dos conflitos, só resta juntar os amigos e partir para o pau com os inimigos. Invertendo a célebre fórmula de Clausewitz, a política tornava-se assim uma continuação da guerra por outros meios. Nessa perspectiva, o que quer que se dissesse a respeito deveria ser julgado não por sua veracidade ou falsidade, mas pela dose de reforço que desse aos “amigos” e pelo mal que infligisse aos “inimigos”.
A quase totalidade da bibliografia nacional sobre o golpe de Estado de 1964 segue rigorosamente essa receita. A hipótese de discutir racionalmente os argumentos dos golpistas é afastada in limine como “extremismo de direita” ou como adesão retroativa ao movimento que, com forte apoio popular, derrubou João Goulart e inaugurou a era dos presidentes militares. A única função que resta para o historiador é, portanto, reforçar o elemento macabro na lista dos crimes de um dos lados e enaltecer os do outro lado como boas ações incompreendidas.
A universidade brasileira tem nisso uma das suas principais missões educacionais. Não espanta que para cumpri-la tenha tido de reduzir mais de cinqüenta por cento dos seus estudantes ao estado de analfabetismo funcional,[1] tornando-se assim uma organização criminosa empenhada na prática da fraude em grande escala.    
A ciência política começou quando Sócrates, Platão e Aristóteles inauguraram a distinção entre o discurso do agente político e o do observador científico. Essa distinção não poderia ser mais clara nem mais incontornável: o primeiro destina-se a fazer com que determinadas coisas aconteçam, o segundo a compreender o que acontece. O próprio agente político, quando fala entre amigos, tem de ser um pouco cientista para dar a eles uma visão realista do estado de coisas antes de lhes dizer o que devem fazer. Levada às suas últimas conseqüências, a regra schmittiana resulta em suprimir toda possibilidade de um conhecimento objetivo do estado de coisas e em meter os amigos numa enrascada dos diabos. Ninguém praticou isso com mais dedicação do que os comunistas, que por isso mesmo acabaram matando mais comunistas do que todas as ditaduras de direita reunidas e somadas. Até hoje ninguém contestou satisfatoriamente a minha assertiva de que nos anos 30-40 do século passado um marxista de estrita observância teria maior probabilidade estatística de sobreviver na Espanha de Franco ou no Portugal de Salazar do que em Moscou.
Quase toda a bibliografia nacional sobre o golpe de 1964 e sobre o regime militar que se lhe sucedeu só tem, portanto, o valor de um documento bruto sobre a visão que uma das facções em luta tinha (e tem) dos acontecimentos. Como estudo científico-objetivo, não vale nada. Que alguns poucos livros se oponham a essa uniformidade consensual não melhora em nada a situação, pois expressam antes a reação enfática de uma minoria indignada do que um sério desejo de compreender o que se passou. E a desproporção entre ataque e defesa se torna ainda mais significativa porque – notem – os governos militares, com todos os recursos que tinham à mão, não espalharam um volume de propaganda anti-Goulart – ou anticomunista -- que chegasse a um milésimo do que se escreveu e publicou contra eles depois que foram alijados do poder. Mesmo em plena ditadura, a produção de livros e jornais contrários ao regime, muitos abertamente pró-comunistas, já ultrapassava de longe o volume modesto da propaganda oficial, sem contar o fato de que esta se limitava a patriotadas genéricas e inócuas sem nenhum teor de ataque ou denúncia. O governo, enfim, cedeu à esquerda o monopólio do uso da linguagem, e o fez precisamente nos anos em que os setores mais hábeis do movimento comunista, em vez de se suicidar nas guerrilhas, liam Antonio Gramsci e se empenhavam em ocupar espaços na mídia e nas universidade para aí empreender a grande guerra cultural contra um adversário que a ignorava por completo.
É inteiramente normal que no dia seguinte à queda de um regime ele seja demonizado, mas é ainda mais normal que a passagem do tempo favoreça abordagens mais realistas e equilibradas. Este ano o golpe de 1964 completa meio século de história, e não só a indústria da vituperação continua cada vez mais próspera, alimentada agora por uma cornucópia de verbas estatais, mas o simples impulso de sugerir alguma moderação ou de pedir equanimidade na averiguação dos delitos de parte a parte é recebido como virtualmente criminoso e digno de punição. Muitos acusam nele, abertamente, a preparação de um outro golpe, o anúncio de uma nova ditadura, e, com base nesse hiperbolismo forçado até o último grau, legitimam o uso de meios ditatoriais para evitá-la.
Num país onde setenta mil cidadãos são assassinados por ano, a morte de quatrocentos terroristas meio século atrás é ainda alardeada como o mais terrível – e o mais recente – dos traumas históricos possíveis. Chega-se mesmo a exclamar que o Brasil só não encontrou o caminho da perfeita democracia porque os “crimes da ditadura” ainda não foram suficientemente investigados e denunciados.[2]
Nessas condições, não é de estranhar que aspectos fundamentais da história daquele período fossem varridos para baixo do tapete, sufocados e proibidos, como se nunca tivessem existido e como se mencioná-los fosse o maior dos crimes. Eis alguns exemplos:
1. Qual a dimensão real da ameaça comunista no Brasil dos anos 60? A norma geral é proclamar, a priori, que essa ameaça era inexistente ou irrisória.  Mas as mesmas pessoas que assim dizem são as primeiras a apontar o grande número de oficiais comunistas e pró-comunistas que o novo regime expulsou das Forças Armadas. São também as primeiras a cantar as glórias do esquema guerrilheiro que Fidel Castro havia espalhado por todo o continente americano. Conta-se entre lágrimas a história da Operação Condor, mas evita-se cuidadosamente mencionar que ela foi apenas uma reação tardia à fundação da OLAS, a Operação Latino-Americana de Solidariedade, comando-geral das guerrilhas no continente, que já havia matado milhares de pessoas quando os governos da região decidiram juntar esforços para combatê-la.
2. À profusão de investigações e denúncias sobre a ação da CIA no Brasil, entremeadas de mitos e lendas, corresponde, em simetria oposta, o total desinteresse ou a proibição tácita de averiguar a presença da KGB no país na mesma época. A abertura dos arquivos de Moscou, que tão profundamente modificou o panorama da sovietologia no mundo, foi recebida no Brasil como uma obscenidade da qual não se deveria falar.
3. A balela de que as guerrilhas surgiram em reação à derrubada do presidente Goulart continua sendo repetida com a maior sem-cerimônia, mesmo sabendo-se que desde 1961 já havia no Brasil guerrilhas subsidiadas e orientadas pelo governo cubano. Nesse ponto, aliás, o simples fato de que o presidente Goulart, recebendo em mãos as provas do que se passava, escondesse tudo e remetesse em segredo a Fidel Castro em vez de mandar investigar essa ostensiva intervenção estrangeira armada, já bastava para tornar sua derrubada inevitável e até obrigatória.[3] No entanto, até hoje o golpe é carimbado como um ato de força “contra um presidente legalmente eleito”, como se Goulart tivesse sido derrubado por ter sido eleito e não por ter cometido um crime de alta traição.
4. Qual foi exatamente a participação de exilados e de outros comunistas brasileiros na polícia política de Fidel Castro? Se o sr. José Dirceu foi oficial do serviço secreto militar cubano, é quase impossível que ele tenha sido uma exceção solitária. Quantos comunistas brasileiros foram co-responsáveis por matanças e torturas de cubanos?
5. Passaram-se doze anos desde que divulguei neste país o livro, publicado uma década e meia antes disso, em que o chefe do escritório da KGB no Brasil, Ladislav Bittman, confessava ter falsificado documentos para induzir a mídia local, com sucesso, a acreditar que o governo dos EUA havia planejado e orientado o golpe militar. Desde então nem um único jornalista ou historiador se interessou sequer em ler o livro, quanto mais em tentar uma entrevista com Bittman ou uma averiguação nos arquivos soviéticos. São, no total, vinte e sete anos de ocultação proposital.
6. No mesmo livro, Bittman afirmou que a KGB tinha na sua folha de pagamentos, em 1964, quase uma centena de jornalistas brasileiros. Alguém se interessou em investigar quem eram eles? Encobertos sob o silêncio obsequioso de seus colegas e dos empresários de mídia, aqueles dentre eles que não morreram estão decerto em plena atividade, mentindo, ocultando e falsificando.
Esses seis exemplos bastam para evidenciar que a história oficial do golpe de 1964 é criminosamente seletiva, recortada para servir de instrumento de propaganda e não para esclarecer alguma coisa. É a historiografia schmittiana em ação, ajudando os amigos e assassinando as reputações dos inimigos.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Estado de exceção ( Demétrio Magnoli)


Os cubanos estão chegando. O governo anunciou que 4 mil novos profissionais cubanos desembarcarão no país, para se juntarem aos 7,4 mil já integrados ao Mais Médicos. Mirando o acessório, críticos provincianos diagnosticam a natureza eleitoreira de um programa movido, essencialmente, a razões de política internacional. Essa linha de crítica embaça o olhar, auxiliando o governo a ocultar o impacto mais desastroso do compromisso ideológico com Havana: o Mais Médicos introduz uma “exceção cubana” nas regras de nossa democracia.

Num discurso de 1960 às Milícias Cubanas, Che Guevara anunciou o surgimento, no pote quente da revolução, de “um novo tipo de homem” e de uma “medicina revolucionária”. Menos de três anos depois, 58 médicos cubanos apresentaram-se ao primeiro governo da Argélia independente, inaugurando a política de “missões internacionalistas”. Os ecos da ideia original reverberam no lema “um exército de batas brancas”, que acompanha as solenidades de despedida dos profissionais de saúde enviados ao exterior. Contudo, há muito o objetivo de exportar a revolução foi substituído por outras metas, ligadas à sobrevivência do regime castrista. É disso que trata o Mais Médicos.

O Maleconazo, uma revolta popular na esplanada costeira da capital cubana, em 1994, acendeu um sinal vermelho de alerta, evidenciando que a depressão econômica do período pós-soviético ameaçava o poder de Fidel Castro. A “medicina internacionalista” converteu-se, então, em uma das ferramentas de restauração da estabilidade política. A Escola Latinoamericana de Medicina (Elam), uma instituição destinada a atrair estudantes estrangeiros oferecendo bolsas integrais, fundada em Havana, em 1998, tinha a função de romper o isolamento diplomático do regime. As missões médicas no exterior, por sua vez, converteram-se em fonte crucial de divisas e, desde a consolidação do chavismo, em moeda de troca nas importações de petróleo subsidiado da Venezuela. O Mais Médicos entra em cena na hora do esgotamento da “solução venezuelana”.

Mais de 15 mil médicos cubanos foram enviados à Venezuela e milhares de outros à Bolívia, ao Equador e à Nicarágua. Na última década, um em cada três médicos de Cuba trabalhava no exterior em qualquer momento determinado, o que provocou carências em hospitais da Ilha já premidos por falta de remédios e deterioração de equipamentos. O Mais Médicos nasceu de uma articulação secreta entre Lula e o regime castrista concluída nas semanas dramáticas da agonia de Hugo Chávez em Havana, como resposta à hipótese de interrupção do programa de intercâmbio de médicos por petróleo. O novo contingente de “missionários” de Cuba chega ao Brasil na moldura do aprofundamento da crise econômica venezuelana e das incertezas sobre o futuro do governo de Nicolás Maduro.

Mas toda a operação de importação de médicos cubanos exige que se congele a vigência das leis brasileiras que asseguram direitos políticos e trabalhistas. Os primeiros precisam ser suspensos para assegurar o controle de Havana sobre “soldados de batas” inclinados a “desertar”. Os segundos, a fim de propiciar a transferência da quase totalidade dos recursos para o caixa do Estado cubano. Evidentemente, o esquema não funcionaria sem a cumplicidade ativa do governo brasileiro.

Na Venezuela, as oportunidades de “deserção” são menores, pois, na ausência de um Judiciário independente, praticamente inexistem obstáculos à deportação de médicos cubanos pelo regime chavista. No Mais Médicos, a forma encontrada para reduzir esse risco é submeter os médicos ao controle de agentes policiais de Havana, que atuam sob o disfarce de funcionários da “Brigada Médica Cubana”. Os “missionários internacionalistas” não podem receber visitas ou deslocar-se para outras cidades sem informar tais agentes. O Brasil, de fato, sob o silêncio desavergonhado do parlamento e do Ministério Público, colocou entre parênteses o direito de ir e vir.

A Organização Pan-Americana de Saúde, um órgão internacional capturado pelo governo cubano, faz a intermediação da contratação pelo Brasil dos médicos cubanos. Celebrados com uma certa “Comercializadora de Serviços Médicos Cubanos S.A.”, fachada do próprio regime castrista, os contratos conferem aos profissionais apenas uma fração do salário, reservando a maior parcela à misteriosa empresa. O Ministério da Saúde mentiu ao declarar que são contratos similares aos de médicos cubanos atuando na França, no Chile e na Itália. Nos casos francês e chileno, os profissionais recebem a integralidade do salário; a Itália nem sequer contrata médicos cubanos. O Brasil colocou entre parênteses sua legislação trabalhista – e o Ministério Público do Trabalho só começou a reclamar quando eclodiu a denúncia da “desertora” Ramona Rodríguez.

A solidariedade política entre uma democracia e uma ditadura destila, inevitavelmente, um ácido que corrói os valores da primeira. Tradicionalmente, a política externa brasileira é avessa ao embargo econômico americano contra Cuba – uma posição que pode ser defendida com base em princípios. Os governos Lula da Silva e Dilma Rousseff deram um passo à frente (ou melhor, atrás!), produzindo declarações asquerosas sobre presos políticos em Cuba – e o ex-ministro Tarso Genro ultrapassou tanto as fronteiras da legalidade quanto as da decência ao deportar os pugilistas cubanos. O Mais Médicos, porém, eleva a solidariedade a um novo grau. Ao importar, junto com os médicos, as normas jurídicas da ditadura castrista para o Brasil, o programa instala um Estado de exceção.

A crise do regime castrista já não se limita a provocar tensões na política externa brasileira. Agora, ela mutila o arcabouço de direitos políticos e sociais vigentes no Brasil. Que isso aconteça sem maior escândalo é atestado da falência das oposições e de um perigoso amortecimento moral da opinião pública.

terça-feira, 4 de março de 2014

A ameaça eurasianista (ROBERT ZUBRIN)


As ambições de Putin vão muito além da Ucrânia
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Na medida em que o regime de Putin invade a Ucrânia, tornou-se evidente que uma nova força para o mal emergiu em Moscou. É essencial que os americanos se tornem conscientes da natureza da ameaça.
eurasianismo
Bandeira do partido nacional-bolchevique e a estátua de Lênin.
Putin é descrito às vezes com um revanchista, procurando recriar a União Soviética. Isto é uma simplificação útil, mas não é realmente exata. Putin e muitos da sua gangue podem ter sido comunistas em algum momento, mas eles não o são mais, hoje em dia. Em vez disso, eles adotaram uma nova ideologia política totalitária conhecida como “Eurasianismo”.
As raízes da eurasianismo remontam à interação de emigrantes czaristas com pensadores fascistas nas entre-guerras França e Alemanha. Porém, nos últimos anos, o seu expoente principal tem sido o muito notório e produtivo teórico político Aleksandr Dugin.
Nascido em 1962, Dugin ingressou no Instituto de Aviação de Moscou em 1979, mas foi expulso devido o seu envolvimento com grupos neonazistas místicos. Ele então passou os anos oitenta orbitando ao redor de círculos monarquista e da ala ultra-direita, antes de se unir, por um tempo, ao Partido Comunista da Federação Russa, de Gennady Ziuganov (PCFR, um grupo neo-stalinista parcialmente descendente do anterior partido no poder – Partido Comunista da União Soviética ou PCUS –, mas que não deve ser confundido com ele), após o que Dugin se tornou, em 1994, o fundador e ideólogo eurasianista principal do eurasianista Partido Nacional Bolchevique (PNB).
Cabe recordar que o nazismo era uma abreviação para nacional-socialismo. Portanto, o nacional-bolchevismo se apresenta como uma ideologia que se refere em muito ao nacional-socialismo, da mesma forma que o bolchevismo se realciona ao socialismo. Esta auto-identificação aberta com o nazismo também é mostrada manifestamente na bandeira do Partido Nacional Bolchevique (PNB), que se parece exatamente com uma bandeira nazista, com um fundo vermelho circundando um círculo branco, exceto que a suástica negra no centro é substituída por um martelo e foice pretos.
Dugin se candidatou à Duma na chapa do PNB, em 1995, mas conseguiu somente 1 por cento dos votos. Então, mudando os métodos, ele abandonou o esforço para construir seu próprio partido dissidente e, como alternativa, adotou a estratégia mais produtiva de se tornar o homem de idéias para todos os partidos maiores, incluindo o Rússia Unida de Putin, o CPRF de Ziuganov e ultranacionalista Partido Liberal Democrata da Rússia de Vladimir Jirinovski. Nessa função, ele foi brilhantemente bem sucedido.
A idéia central de eurasianismo de Dugin é que o “liberalismo” (segundo ele, a totalidade do consenso Ocidental) representa um ataque à organização hierárquica tradicional do mundo. Repetindo as idéias dos teóricos nazistas Karl Haushofer, Rudolf Hess, Carl Schmitt e Arthur Moeller van der Bruck, Dugin diz que essa ameaça liberal não é nova, mas é a ideologia do poder marítimo cosmopolita “Atlântico”, que tem conspirado para subverter sociedades terrestres mais conservadoras desde os tempos antigos. Consequentemente, ele escreveu livros nos quais reconstruiu toda a história do mundo como uma batalha contínua entre essas duas facções — de Roma contra Cartago à Rússia contra a “Ordem Atlântica” anglo-saxônica, nos dias de hoje. Se for para Rússia vencer essa luta contra os portadores oceânicos subversivos de tais idéias racistas (porque imposta do exterior), como os direitos humanos, ela deve, por qualquer meio, unir em torno de si todos os poderes continentais — incluindo Alemanha, Europa Central e Oriental, as ex-Repúblicas Soviéticas, Turquia, Irã e Coréia do Sul —, em uma grande União Eurasiana forte o suficiente para derrotar o Ocidente.
De modo a estar bem unida, esta União Eurasiana precisará de uma ideologia definida. E para este fim, Dugin desenvolveu uma nova “Quarta Teoria Política”, combinando todos os pontos mais fortes do comunismo, do nazismo, do ecologismo e do tradicionalismo, permitindo-lhe, assim, apelar aos adeptos de todos esses diversos credos antiliberais. Ele adotaria a oposição do comunismo em face da livre iniciativa. No entanto, ele desistiria do compromisso marxista com o progresso tecnológico (uma idéia derivada do liberalismo), em favor do apelo demagógico do ecologismo para deter o avanço da indústria e da modernidade. Do Tradicionalismo, ele extrai uma justificativa para interromper o pensamento livre. Todo o resto é saído do nazismo, que vai desde teorias legais que justificam o poder estatal ilimitado e a eliminação dos direitos individuais, à necessidade de populações “enraizadas” no solo e a estranhas idéias gnósticas sobre a origem secreta da raça ariana na Pólo Norte.
A devoção aberta ao nazismo, no pensamento de Dugin, é notável. Em seus escritos, ele celebra como uma organização ideal a Waffen SS, assassinos de milhões de russos durante a guerra. Ele também aprova os mais radicais crimes do comunismo, indo tão longe como endossar os terríveis expurgos de 1937, que mataram (entre inúmeros outros cidadãos soviéticos talentosos e leais) quase toda a liderança do Exército Vermelho — algo que, mais tarde, o próprio Stalin reconsiderou.
O que a Rússia precisa, diz Dugin, é de um “fascismo fascista genuíno, verdadeiro, radicalmente revolucionário e consistente”. Por outro lado, “O liberalismo é um mal absoluto... Apenas uma cruzada global contra os EUA, o Ocidente, a globalização e suas expressões político-ideológicas (ou seja, o liberalismo), é capaz de apresentar uma resposta adequada... O império norte-americano deve ser destruído”.
Esta é a ideologia por trás do projeto “União Eurasiana” do governo Putin. Foi para este plano macabro, que ameaça não apenas as expectativas de liberdade na Ucrânia e na Rússia, mas também a paz no mundo, que o ex-presidente ucraniano Victor Yanukovych tentou vender o “seu” país. Foi contra esse plano que os corajosos manifestantes do Maidan se levantaram — com um escandalosamente pequeno apoio do Ocidente — e de alguma forma miraculosa prevaleceram. Mas agora as coisas complicaram. Os ucranianos estão sendo confrontados não com a polícia de choque, mas com divisões russas, subversão e guerra econômica. O país precisa ser estabilizado e defendido. Os ucranianos merecem o nosso total apoio — e não apenas por razões de simpatia para com os que resistem à tirania ou pelo respeito aos corajosos. É do interesse vital da América que a liberdade triunfe na Ucrânia.
Sem a Ucrânia, o projeto fascista da União Eurasiana de Dugin é impossível, e mais cedo ou mais tarde a própria Rússia terá de se juntar ao Ocidente e tornar-se livre, deixando sozinhas algumas desprezadas e condenadas ilhas de tirania ao redor do globo. Mas com a Ucrânia sob seus pés, o projeto dos eurasianistas pode e irá adiante, e uma nova Cortina de Ferro surgirá, aprisionando uma grande parcela da humanidade nas garras de um poder totalitário monstruoso que se tornará o arsenal do mal ao redor do mundo nas décadas vindouras.  Isso significa uma nova Guerra Fria, trilhões de dólares gastos em armas, crescimento acelerado do Estado em nome da segurança nacional,  conflitos repetidos custando milhões de vidas no exterior, e a própria civilização colocada em risco se um único passo em falso no insano e sem-fim jogo das grandes potências precipitar na confrontação travada e carregada da troca termonuclear.
O século XX viu três confrontos entre grandes potências. Dois deles descambaram na guerra total. Tivemos sorte no terceiro. Nós realmente queremos jogar estes dados mais uma vez? Seremos obrigados, a menos que o programa eurasianista seja detido.
As apostas na Ucrânia não poderiam ser maiores.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Os riscos de um chavismo tupiniquim (Artigo do almirante Mario Cesar Flores (*), publicado no jornal O Estado de S. Paulo)


Programas assistencialistas criam imensos currais eleitorais dependentes da máquina estatal controlada politicamente
Programas assistencialistas criam imensos currais eleitorais dependentes da máquina estatal controlada politicamente (Ilustração: InfoEscola)

A SOLUÇÃO ESTÁ COM O POVO
Duas estruturas institucionais controlam hoje o Brasil. A primeira, o governo de coalizão – um modelo imposto pela existência de dezenas de partidos programática e doutrinariamente amorfos, mais propensos à participação no poder e seu usufruto do que aos grandes projetos nacionais -, em que a repartição de cargos e a liberação de recursos de interesse paroquial eleitoreiro dos congressistas asseguram o apoio ao viés populista-voluntarista do Executivo. A segunda, a burocracia administrativa preenchida (aparelhada…) menos pelos critérios de capacitação e mérito e mais pela conveniência política.
Como em qualquer esquema de poder, o funcionamento do brasileiro depende da competência e da consistência ética de sua base estrutural – o poder político eleito. Poder político lato sensu: a responsabilidade estende-se aos Legislativos da União, dos Estados e municípios, embora nosso povo, indiferente à (ou desconhecendo a) dinâmica completa da democracia, só se interesse (quando se interessa) pela eleição dos Poderes Executivos. Em destaque a do presidente da República, que, na mão inversa à Federação sadia, a centralização tributária transforma no agente de nossa ilusão cultural de que o Estado pode tudo.
O pecado original do esquema está, portanto, na formação (na eleição) de sua base estrutural, que, prejudicada pela vulnerabilidade do povo à ilusão, não assegura valor adequado ao produto.
Políticos dos vários partidos “surfam” na onda do brasileiríssimo “me engana que eu gosto”, valendo-se da publicidade inebriante e fantasiosa (a propagada pela televisão impacta sem precisar ler e entender) orquestrada por marqueteiros hábeis na criação de imagens míticas, no travestir meias-verdades e fantasias em verdades e fatos e no “vender” ao povo boas intenções tão óbvias quanto vazias (alguém é contra reduzir a pobreza…?).
E políticos já no poder acrescentam à psicose publicitária a exploração demagógica de programas assistencialistas que, a par de pertinentes – mas nem sempre aplicados corretamente -, são formadores de imensos currais eleitorais dependentes da máquina estatal controlada politicamente.
A publicidade esfuziante e o uso demagógico do assistencialismo criam versões contemporâneas do “pão e circo” romano; em evidência, hoje, as bolsas disso e daquilo e a Copa do Mundo de Futebol, com seu hexa (?) e suas “arenas” à Coliseu, onde teremos futebol para divertir e anestesiar.
A dissonância entre o potencial e a realidade socioeconômica do Brasil evidencia as limitações do modelo de governo de coalizão com pandemônio partidário, conduzido pelo produto de processo eleitoral viciado e operado por burocracia politicamente aparelhada, carente de competência e firmeza ética.
Dissonância transparente em projetos fantasiosos e comumente inacabados, inflação teimosa, carga tributária alta, crescimento pífio do produto interno bruto (PIB), industrialização marcando passo e balança comercial tropeçando, 85.º lugar no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH, da ONU) entre 186 países, caos na saúde, transporte público e (hoje muito citado) sistema carcerário, infraestrutura logística e educação insatisfatórias.
Versão moderna da política de "pão e circo": temos Copa e bolsas para anestesiar em ano de eleições
Versão moderna da política de “pão e circo”: temos Copa e bolsas para anestesiar em ano de eleições

E transparente já à beira da pandemia dramática, na delinquência generalizada, da corrupção política e administrativa, sonegação de impostos e desordem e violência epidêmicas, à rotina do crime abjeto e dos delitos banais, já assimilados na cultura popular.
Um cenário dessa natureza conduz naturalmente à desmoralização da (e à desesperança na) democracia clássica. Processo já sensível no Brasil, seus sintomas estão claros na indiferença e na descrença crescentes pela política. Em particular pelos Poderes Legislativos, bem refletidos ao estilo lúdico (e no caso, irresponsável) brasileiro na eleição de personagens exóticas: Tiririca foi eleito deputado federal (votação expressiva) por seus méritos políticos ou como demonstração de insatisfação e desesperança…?
Na História a fraqueza sempre induziu a tentação do milagre. Corremos o risco de emersão da ideia – vem emergindo, sem força expressiva, embora não nula – de que em países ainda em desenvolvimento, de populações enormes, grande parte delas em déficit cultural e socioeconômico, a democracia em sua integralidade anglo-saxã não resolve, há que adaptá-la à respectiva realidade nacional. O que seria isso varia com a propensão ideológica.
Não existe a ameaça de nosso quadro melífluo desembocar no autoritarismo explícito, só imaginável com saturação social e “rolezões” nacionais de alto risco, que exigissem controle autoritário. Mas são plausíveis as alternativas “mais ou menos” democráticas. Uma delas já se instilando no Brasil: a democracia populista de tendência voluntarista (o modelo esboçado no início deste artigo) protagonizada por lideranças que, simultaneamente, falam pela grande massa e se harmonizam com o grande capital – uma mistura confusa de Getúlio do paradigma “trabalhadores do Brasil”, Rousseau adaptado à multidão (minorias militantes interpretando a “vontade geral”) e Marx inautêntico (socialista-capitalista).
Como em qualquer regime de fisionomia voluntarista, também a moderada versão brasileira precisa de inimigos. Na moda, hoje, a liberdade de imprensa e expressão, cujo controle já foi aventado aqui e está instalado nas “democracias” (?) chavista e kirchnerista, bem vistas pelo nosso populismo voluntarista.
Resumindo: vivemos um quadro nacional confuso, à moda sul-americana. A “cambalhota institucional” é implausível, mas não a paulatina e camuflada ascensão, sem traumas e à sombra de sistemática eleitoral viciada, do modelo em que a visão voluntarista-populista do governo precede o interesse do Estado e o rigor democrático: um chavismo tupiniquim ao gosto de parte do nosso mundo político e aceito sem ponderada avaliação por parcela expressiva do povo, apático e/ou iludido.
A solução? Voltando ao início: ela depende do poder político e este, do voto do povo…
(*) Ex-ministro da Marinha e ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República

sábado, 18 de janeiro de 2014

Loucura ecofascista: “Você está congelando? Culpa do aquecimento global!” (POR LUIS DUFAUR)

Um “vórtice polar” avançou sobre grande parte do território dos EUA fazendo descer as temperaturas até -50º.

As cataratas do Niágara gelaram parcialmente e as perdas estão sendo calculadas em bilhões de dólares.

Malgrado a intensidade do fenômeno, ele nada tem a ver com a tendência ao esfriamento global que os cientistas objetivos vêm registrando há anos.

Trata-se de um fenômeno extraordinário já verificado em outras oportunidades, com maior intensidade até.

Entretanto, grande parte da opinião pública americana considera o fenômeno como um cruel desmentido da natureza à furada teoria do “aquecimento global”.
Este posicionamento, na realidade, não tem base científica, mas sim um poderoso fundamento psicológico que funciona assim: “como pode ser que o planeta esteja aquecendo quando mais da metade dos EUA está paralisado por um espantoso ‘vórtice polar’”?
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Vórtice polar atinge Plattsmouth, Nebraska.
Os militantes ambientalistas sentiram na pele a força desta reação puramente psicológica.

Afinal de contas eles não se interessam tanto pela ciência, mas apenas tencionam manipulá-la para jogar a opinião pública contra o “capitalismo”, a “civilização industrial”, o “progresso” e outras realidades que contradizem seus sonhos anarco-socialistas.
Sentiram eles, então, a necessidade de manipularem mais uma vez argumentos científicos para tentar desfazer essa reação psicológica.

Mas, o que dizer para ludibriar a opinião pública americana nesse ponto?

Difícil responder.

O certo que para surpresa de todos, ativistas “verdes” de ONGs, mídia e centros científicos, não acharam nada melhor que pôr a causa no ‘aquecimento global’, nas ‘mudanças climáticas’ e outros slogans cada vez mais gastos.

Para a opinião pública isso soou como o auge do desatino: “congelamos porque o mundo aquece? Estão doidos?”

Não estão doidos, eles têm uma “religião” que lhes exige professar absurdos, se isso serve para abalar a civilização ocidental.
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Cataratas do Niágara parcialmente congeladas.

Um ápice de contradição foi atingido pela revista “Time”, de renome mundial.
Um de seus principais redatores, Bryan Walsh, chegou a profetizar que não só este mais outros auges de frio acontecerão por culpa do aquecimento global gerado pela civilização.
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1974 e 2014: duas maneiras opostas de noticiar fenômenos identicos.
O viés desinformador da “Time” ficou evidente pelo fato que em 1974 quando um fenômeno semelhante atingiu os EUA, a revista noticiou-o como anunciador do “esfriamento global”. O título do artigo da revista já o diz tudo “Another Ice Age?” (“Outra era glaciar?”, segunda-feira, 24 de junho de 1974).

Mas, os ridículos não pararam por ai. O meteorologista Eric Holthaus que havia anunciado que iria se esterilizar em 2013, para ajudar a salvar o planeta, proclamou no Twitter: “Sim você pode agradecer o ‘aquecimento global’ por ter nos oferecido este ‘vórtice polar’”.
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Cidadãos de Minnesota se divertem com os sofismas da militância eco-farsante.
Weather Channel, reconhecendo que publicava uma afirmação “contra-intuitiva” citou cientistas que defendem a mesma inacreditável montagem do espantoso esfriamento causado pelo aquecimento.

A ousadia do absurdo por vezes confunde as inteligências honestas que não concebem que possa se chegar a tais estouvamentos.

Felizmente cientistas categorizados refutaram essas interpretações distorcidas por um viés ideológico e puseram as coisas em seu lugar.
Dr. Will Happer, premiado professor de Física da Universidade de Harvard declarou: “os ‘vórtices polares’ tem estado por ai desde sempre. Eles não têm quase nada a ver com algum aumento do CO2 na atmosfera”.
Também o meteorologista Dr. Ryan Maue repeliu a suposição absurda: “Esta história do ‘vórtice polar é a mais recente mensagem de ‘Snapchat’ (aplicativo para rede social): após alguns segundos a explicação se desfaz”.

O blog Real Science sublinhou o disparate de atribuir o frio ao calor e o sem-sentido de dizer que o aquecimento do Ártico gerou o ‘vórtice polar?’: “Como é que alguém pode dizer que o Ártico está se aquecendo rapidamente e ao mesmo tempo produzindo frios recordes? Como é que um frente de ar com uma temperatura de -65ºF pode resultar de um gelo que está derretendo? Essas afirmações são ridículas para além da compreensão humana. A extensão da superfície do Ártico está normal. A neve no Hemisfério Norte está atingindo recordes”.

climatóloga Judith Curry, professora catedrática na School of Earth & Atmospheric Sciences do Instituto de Tecnologia da Universidade de Geórgia, respondeu categoricamente ao disparate: “O aquecimento global, causando o ‘vórtice polar’? Numa só palavra: NÃO”.
O climatologista Cliff Mass pediu seriedade à imprensa: “As alegações que nós ouvimos esta semana, no sentido de que o ‘efeito estufa’ gera mais ondas de frio, realmente, aparecem como desprovidas de qualquer fundamento na observação e na teoria. A mídia precisa parar com esse argumento insustentável”. 
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Cliff Mass:  alegações dos ambientalistas estão desprovidas de qualquer fundamento.
Cliff Mass acrescentou ainda: “Todos esses relatos falsos estão produzindo danos substanciais, fazendo com que muitos americanos acreditem que o aquecimento global está tornando cada vez mais extremo nosso clima invernal, quando a evidência observacional sugere que não há nada disso. Um dia, alguns sociólogos terão que estudar esta ocorrência e os elementos psicológicos que nos jogaram nisso”.
Nós, não acreditamos que se trate de alguma patologia a ser tratada pela medicina ou pela psiquiatria.

No livro “Psicose ambientalista” de Bertrand de Orleans e Bragança, está largamente demonstrado que as condutas aparentemente aberrantes do ambientalismo radical, obedecem a uma religião ecológica, igualitária e anticristã.

Esse fundo “religioso” fornece uma explicação coerente dos procedimentos ambientalistas no Brasil e no mundo.

Luis Dufaur edita o blog Verde, A Cor Nova do Comunismo.