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sexta-feira, 8 de abril de 2016

A autocensura e o fim do debate sensato ( ROGER SCRUTON)


rsO policiamento da esfera pública com o objetivo de suprimir as opiniões “racistas” tem causado um tipo de psicose pública, uma sensação de se ter de andar com a ponta dos pés por um campo minado, tendo de evitar todas as áreas onde a bomba da indignação pode estourar em cima de você.

Qualquer discussão de livre expressão tem que levar em conta duas questões importantes: piadas e raça. Piadas não são opiniões, mas elas podem simplesmente ofender muita gente. Sendo assim, deveria haver a mesma liberdade para se fazer piadas assim como para expressar opiniões? A questão racial tem sido objeto de profundo autoquestionamento nas comunidades modernas. O pior genocídio da história recente – o Holocausto – ocorreu porque as pessoas se sentiram livres para odiar os judeus e para difundir esse ódio num discurso que era protegido por lei. A opressão dos negros nos Estados Unidos e a negação dos privilégios da cidadania para essa parcela da sociedade foi defendida livre e destrutivamente nos últimos tempos e, novamente, essas opiniões foram protegidas por lei. Será que esses e outros casos similares não justificam a crença predominante de que a liberdade de expressão não é um bem em si mesma? E será que esses grupos suscetíveis a serem alvos do ódio coletivo devem ser protegidos desse abuso?
Essas duas questões são de suma importância para nós. O caso do jornal Charlie Hebdo na França nos lembra que piadas podem tanto ofender quanto inspirar a mais violenta das respostas a elas, e nós de maneira alguma devemos nos surpreender ao sabermos que o comediante francês Dieudonne, que frequentemente inclui piadas antisemitas em seus shows stand-up, foi banido em muitos lugares da França e da Bélgica. Devemos nos lembrar, no entanto, que a ofensa pode ser tomada mesmo quando não é feita. Existem feministas radicais que examinam cada comentário inocente a respeito das mulheres para a agenda sexista oculta. Até mesmo ao usar o pronome masculino de um modo gramaticalmente sancionado, para assim se referir indiferentemente aos homens e às mulheres, você pode estar ofendendo alguém e por isso essa forma de expressão está agora sendo banida de todos os campus dos Estados Unidos. Não é o seu desejo ofender, mas você está lidando com pessoas que são especialistas nisso, que têm cultivado a arte de ficarem ofendidas por muitos anos e que em nenhuma outra ocasião ficam mais satisfeitas do que quando algum homem inocente cai na armadilha de falar incorretamente.
Normalmente, uma piada tenta suavizar alguma coisa, para que então você se sinta confortável com aquilo e dê risadas. Muitas piadas étnicas são assim, são formas de lidar com a diversidade étnica, ao ajudar as pessoas a se sentirem felizes com seu próprio grupo e não ameaçadas pelos outros. Às vezes é o próprio grupo que faz a suavização, como em muitas piadas de judeu que mostram algum ponto fraco judaico mais como uma excentricidade engraçada do que como um problema. Piadas se tornaram populares porque elas relevam as coisas, fazendo a realidade, com todas as suas divisões, parecer menos intimidadora. Aqui temos uma piada bastante conhecida advinda das disputas na Irlanda do Norte: Um homem para outro na rua e aponta uma arma contra o seu peito. “Católico ou protestante?”, ele pergunta. “Ateu”, respondeu o homem, ao passo em que o outro retruca: “ateu católico ou ateu protestante?” O humor desse tipo está demonstrando tanto o absurdo que são os conflitos sectários quanto também o fato de que eles não passam de disfarces, desculpas para o ódio, em vez de reações a esse sentimento. Isso nos lembra que a arte de ficar ofendido é usada por pessoas mesquinhas para levarem uma vantagem injustificada sobre o resto de nós.
É claro que existem piadas de mau gosto, que expressam atitudes desagradáveis ou maliciosas. Nós ensinamos aos nossos filhos a não contarem piadas desse tipo, e a não rirem quando outros as contam. O humor é abalizado pelo julgamento moral. Esperamos conduzi-lo em direção à aceitação e à misericórdia, e para longe da malícia e do desdém. Mas, como devemos lidar com as piadas que ofendem? Você não pode legislar contra a ofensa. Sem leis, sem invenção de novos crimes e punições, pode-se possivelmente introduzir ironia, misericórdia e boa vontade nas mentes especializadas na arte de ficar ofendido. Isso é tão verdade para feministas radicais como o é para grupos sectários e radicais islâmicos. Embora nós tenhamos uma obrigação moral de rir dessas piadas, esses grupos têm tornado perigoso fazê-lo. No entanto, nós nunca devemos perder de vista o fato de que são eles, e não nós, que são os transgressores. Aqueles que desconfiam que há deboche em todo o lugar e que reagem com uma ira implacável quando pensam que o identificaram, são os reais ofensores.
E quanto ao discurso racista? Ele é diferente dos outros tipos de discursos, ou existe alguma razão especial para criminalizá-lo? O Holocausto justifica o banimento das opiniões que deram origem a ele? Muita gente acha que sim, e na França a legislatura foi mais longe, criminalizando aqueles que negam que o Holocausto ocorreu. Opiniões racistas não acabarão apenas porque nós proibimos a sua expressão. Na verdade, proibi-las pode lhes conferir um encanto especial. O que havia de mais destrutivo na propaganda nazista contra os judeus não era a expressão dessas opiniões desprezíveis, mas a supressão daquelas que visavam refutá-las. Foi a falta da liberdade de expressão que permitiu que essas opiniões saíssem vorazmente de controle, livres dos argumentos que poderiam expô-las ao ridículo. Em contrapartida, os negros nos Estados Unidos ganharam seu status de cidadãos em parte por causa da liberdade de expressão, pela qual persuadiram os americanos comuns de que a estereotipização é tão irracional quanto injusta. Graças a ela que os negros puderam dar voz às suas opiniões, derrotando assim os racistas.
Esse exemplo é de vital importância para nós no Reino Unido. O policiamento da esfera pública com o objetivo de suprimir as opiniões “racistas” tem causado um tipo de psicose pública, uma sensação de se ter de andar com a ponta dos pés por um campo minado, tendo de evitar todas as áreas onde a bomba da indignação pode estourar em cima de você. E essa bomba tem sido preparada e plantada pelas pessoas, muitas das quais vêem a acusação de racismo como uma maneira útil de minar a nossa crença em nosso país e em seu modo de vida. Logo, forças policiais, oficiais de justiça, conselheiros municipais e professores têm hesitado em pensar no que sabem ser verdade, ou de agir contra o que sabem que está errado. Nós temos visto isso nos casos de abuso sexual em Rotherham e em outros lugares, quando a relutância em apontar uma comunidade imigrante como a culpada tem sido um motivo para a inação. O meu romance The Disappeared foi uma tentativa de explorar a profundidade da desordem moral na qual adentrou a nossa sociedade através desse tipo de autocensura, que impede um professor, um oficial de polícia ou um outro trabalhador de agir, precisamente quando é mais do que necessária a sua ação.
A autocensura é muito mais prejudicial do que a censura estatal, pois ela empobrece profundamente o debate. Devido à imigração em massa, nossa sociedade tem sofrido transformações vastas e potencialmente traumáticas. Contudo, sem o auxílio da discussão pública é como se não tivéssemos escolha sobre nosso futuro. A intensidade da confusão e do ressentimento estão começando a ficar perceptíveis, não apenas aqui mas por toda a Europa, e é essa discussão que, sozinha, teria prevenido isso. Aqueles que tentaram iniciá-la foram submetidos à caça às bruxas a ao assassinato de reputações de uma forma que poucas pessoas podem suportar facilmente. O resultado tem sido o fim do debate sensato nos lugares onde nada é mais necessário do que o debate sensato.
Uma última palavra sobre a arte de ficar ofendido: Em nenhum outro lugar ela tem sido cultivada mais assiduamente do que nas universidades americanas, onde uma cultura da trepidação inteiramente nova foi estabelecida para capturar a psique adolescente. Ao se discutir qualquer um dos temas nos quais os dogmas seculares empilharam uma reivindicação – raça, sexo, orientação, políticas sexuais – o professor pode agora ser obrigado a emitir “avisos de sensibilidade” para que ele não se desvie para assuntos que podem desencadear a lembrança de algum evento traumático na vida do aluno. Palestrantes convidados com opiniões heréticas a respeito do feminismo ou do homossexualismo também são recebidos com avisos de sensibilidade. Algumas universidades até mesmo fornecem salas de segurança onde os alunos magoados podem consolar-se por terem sido expostos à contaminação de um ponto de vista não-ortodoxo.
Apesar de ser cômico, você deve ter cuidado para não rir disso, se você for um professor que ainda não tomou posse. Aqueles que desejam manter a mente do estudante em uma condição de vulnerabilidade mimada, desacostumada com a oposição e inexperiente no debate, agora policiam as universidades, resultando que esses lugares, os quais deveriam ser o último bastião da razão em um mundo confusão, são, ao invés disso, lugares onde todas as confusões se alimentam. Esse exemplo ilustra vividamente o caminho pelo qual os ataques à liberdade de expressão podem se enveredar, indo tão longe que são capazes de obstruir a estrada do conhecimento. E, por fim, é por isso que devemos valorizar essa liberdade, e por isso que John Stuart Mill estava tão certo em defendê-la como algo fundamental para uma sociedade livre. Sem ela nós nunca saberemos realmente o que pensamos.

segunda-feira, 4 de abril de 2016

As engrenagens do parasitismo - e aqueles que são obrigados a mantê-las funcionando (Pedro Almeida Jorge)

dependencia.jpgSejamos claros: o estado, longe de ser a representação de "todos nós", representa, isso sim, o monopólio da coerção e da violência.  Esse monopólio é detido por um grupo de suseranos que, muito provavelmente, acredita que merece guiar e moldar as ideias dos seus vassalos, exigindo, em troca desse divino favor, sustento eterno na forma de privilégios e de dinheiro confiscado e extorquido das massas trabalhadoras.
No entanto, embora se trate de uma obviedade, avaliar este cenário fora de um contexto dinâmico e de disputa pelo poder é um erro.  Afinal — contra-argumentariam os defensores do estado —, se o estado é realmente tão mau, como podem dele fazer parte pessoas que decididamente não desejam o mal da população?
Não será o sufrágio universal a prova de que todos temos uma parte na culpa do que acontece na governança do país?  Se o estado é tão mau, como pode ele permitir a liberdade de expressão e o voto popular, o que significa a constante possibilidade de uma maioria diferente assumir as rédeas do país?
Sem uma abordagem que explicite a perspectiva dinâmica de maximização do poder no longo prazo, todas estas críticas seriam devastadoras para o argumento libertário.
Rothbard explica brilhantemente o raciocínio que propomos:
O estado sempre nasceu da conquista e da exploração. O paradigma clássico é aquele em que uma tribo conquistadora resolve fazer uma pausa em seu método — testado e aprovado pelo tempo — de pilhagem e assassinato das tribos conquistadas, percebendo que a duração do saque seria mais longa e segura — e a situação, mais agradável — se permitisse que a tribo conquistada continuasse vivendo e produzindo, com a única condição de que os conquistadores agora assumiriam a condição de governantes, exigindo um tributo anual constante.
Tendo isso em mente, os métodos dinâmicos utilizados pelo poder estatal com o intuito de perpetuar o seu monopólio se tornam mais lógicos e compreensíveis.
As engrenagens da propaganda
Escolas públicas
É indiscutível que a ideologia e a propaganda pró-governo são totalmente indispensáveis para os objetivos dos governantes. Afinal, a 'Arte da Guerra' é conquistar o inimigo sem sequer chegar a lutar.
Sendo assim, o estado gastará todos os recursos necessários para assegurar que a maioria dos seus súditos não pense para além de certos limites toleráveis — ou que, mesmo que o faça, parta sempre do princípio de que a existência de um governo é uma realidade inescapável e inquestionável, uma constância imutável, podendo-se apenas discutir quais políticas são mais adequadas e desejáveis.
Novamente, Rothbard identifica essa pressão constante sobre a elite burocrática:
Embora o seu modus operandi seja o da força, o problema básico e de longo prazo é ideológico. Para continuar no poder, o governo, qualquer governo (e não simplesmente um governo "democrático"), tem de ter o apoio da maioria dos seus súbditos.  E esse apoio, vale ressaltar, não tem necessariamente de ser um entusiasmo ativo; pode bem ser uma resignação passiva, como se se tratasse de uma lei inevitável da natureza.
Mas tem de haver apoio no sentido de algum tipo de aceitação; caso contrário, a minoria formada pelos governantes estatais seria em última instância destronada pela resistência ativa da maioria do público.
É fácil perceber a grande pressão feita sobre a opinião geral com o objetivo de promover a ideia de escolas públicas, por exemplo.  A educação pública é certamente uma das instituições menos questionadas, ou sequer escrutinadas, em um estado democrático. Não há melhor arma para uma aristocracia que se queira perpetuar do que manter o controle sobre o que seus súditos aprendem, doutrinando-os desde a infância, ministrando-lhe conceitos que definem o que é certo e o que é errado desde a perspectiva do estado.  
É vital para o estado a existência da escolaridade obrigatória e pública (ou, no mínimo, escolas privadas sujeitas ao currículo imposto pelo Ministério da Educação), com metas definidas pelos intelectuais a soldo do estado. Este é um tesouro tão valioso, que os governantes estão dispostos a abrir mão de uma fatia de sua pilhagem se isso garantir o apoio dos intelectuais das escolas e universidades públicas.
Os professores de hoje fazem o papel — que em outras épocas era dos sacerdotes — de justificar os governantes perante a opinião pública. Talvez por isso, a escola pública seja, nos dias que correm, uma das instituições que, no máximo, o povo critica, mas que nunca lhe ocorrerá questionar.
Nesse aspecto, os sindicatos dos professores merecem as regalias obtidas: foram bem sucedidos ao implantar na mentalidade geral a ideia de que, se o estado não ofertasse o ensino, as maiores tragédias sociais submergiriam o país em uma era das trevas.
Como bem colocado aqui, "se toda a propaganda governamental inculcada nas salas de aula conseguir criar raízes dentro das crianças à medida que elas crescem e se tornam adultas, estas crianças não serão nenhuma ameaça ao aparato estatal.  Elas mesmas irão prender os grilhões aos seus próprios tornozelos".
Economistas
Em nossa lista negra de mercenários, os economistas terão de aparecer bem perto dos próprios políticos e dos professores. Afinal, haverá profissão mais miraculosamente caloteira do que a do economista moderno[1]?
É toda uma mistura de jargão estatístico e ilusionismo matemático, camuflando os maiores atentados ao bom senso. O papel dos economistas modernos é fundamental para a preservação do governo: o economista moderno se pretende uma mistura de político e cientista, que do alto dos seus modelos nos assegura que tudo vai correr como planeado, bastando apenas que a gestão econômica do país seja deixada aos grandes sábios da econometria.
PIB, externalidades, bens públicos, concorrência perfeitaimpostos progressivosefeito multiplicador: todo um arsenal de artimanhas socialistas mascarado de ciência imparcial. O economista moderno é o maior cúmplice do assalto feito pelo estado à honestidade intelectual.
Tributação
Este é o ponto crucial: a tributação.
A tributação é a alimentação do monstro. A questão dos impostos é o maior exercício de equilibrismo a que o estado se tem de submeter: como espoliar o máximo possível a longo prazo sem nem sequer gerar uma revolução? Aqui reside a arte suprema da política, tal como a descreveu Jean Baptiste Colbert, ministro das finanças de Luís XIV e pioneiro das teorias mercantilistas do século XVII:
A arte de aumentar os impostos é como depenar um ganso: deve-se retirar o maior número de penas com o menor barulho possível.
Fazer com que uma grande parte da população dependa da proteção e dos repasses do estado é a melhor maneira de assegurar a maioria dos votos. No entanto, isso coloca uma pressão imensa em termos de receita.  Como distribuir o butim extorquido do setor produtivo de forma a manter a situação sob controle?
Eis a solução encontrada: evitar ao máximo o contato do cidadão comum com o pagamento de impostos, fazê-lo não sentir que está pagando impostos e, se possível, fazê-lo também acreditar que quem o assalta não é o estado, mas sim quem faz a tarefa de reter e repassar os impostos: as empresas e os patrões.
A maior parte das empresas no nosso país é um autêntico departamento das finanças não-remunerado. No entanto, tudo isso tem de ser completamente escondido do cidadão comum: lembrem-se, há que fingir que pagar impostos é um inquestionável sinal de modernidade, e que, afinal, nem custa nada, pois tudo é tratado automaticamente.
Vamos ao caso concreto: o maior demônio do sistema tributário é a chamada 'retenção na fonte'. No fundo, tal prática pode ser resumida em uma simples expressão: financiamento do estado sem que este tenha de pagar pelos custos do serviço.
As empresas são obrigadas a adiantar todo o seu imposto ao longo do ano, naquilo que é obviamente um empréstimo sem juros ao estado, sendo que podem muito bem nem receber de volta aquilo pelo qual pagaram em excesso quando chega a hora de ajustar as contas (na melhor das hipóteses, há uma restituição parcelada e atrasado daquilo que foi pago em excesso).  
Por outro lado, essas mesmas empresas estão encarregadas de, sempre que efetuarem os pagamentos dos salários dos empregados, reter 'na fonte' o imposto sobre o rendimento destes, de forma que tudo seja processado sem que o iludido funcionário sequer chegue a sentir que o dinheiro lhe foi literalmente extorquido — e, mesmo que o sinta, vai associar o roubo à figura do patrão, que não lhe paga o suficiente, e não a toda a colmeia de funcionários e pensionistas que vivem à sua conta.
[No Brasil já é assim: os custos de um empregado para um patrão são o dobro do salário que ele realmente ganha. Um trabalhador que recebe R$ 1.500 custa mais de R$ 3.000 para o patrão, por causa dos impostos e dos encargos sociais e trabalhistas.  A diferença vai para o governo.  O salário do trabalhador acaba sendo muito menor do que poderia ser, e por causa do governo.  Mas o empregado quase sempre atribui seu baixo salário à ganância do patrão.]
Alguém acredita que o Leviatã poderia se dar ao luxo de sugar tanta riqueza nacional se fossem os próprios cidadãos a entregar o seu imposto no fim do ano? O conceito de 'retenção na fonte' é um dos maiores atentados à liberdade individual já levados a cabo pela sempre original tropa de auditores fiscais. É uma obra prima do totalitarismo fiscal.[2]
Tal como os impostos progressivos.
Os impostos progressivos são a maneira de o estado poupar a maioria da população com rendimentos mais baixos, com menos a perder e com mais ganas de ir para a rua protestar, ao mesmo tempo em que suga quase todo o rendimento dos empreendedores e da classe média, que pagam a maior parte dos impostos, mas cuja vida ocupada e cheia de responsabilidades impossibilita uma verdadeira e efetiva marcha contra esta situação.
Resumidamente, o estado torna depende dele praticamente metade da população, sendo que, para a outra metade, ele assegura que a maior parte não pague impostos, para que não levante um motim, chegando até mesmo a lhe dar algumas regalias — regalias essas confiscadas da cada vez mais tênue minoria de empreendedores e trabalhadores verdadeiramente produtivos e atarefados que compõem a classe média e alta do setor privado.
Daí a genialidade do conceito de retenção na fonte: ele esconde da vista dos trabalhadores o assalto, atribuindo a uma minoria ainda menor, a dos patrões, a obrigação de fazer o processamento de toda a papelada e trabalho burocrático que levaria qualquer cidadão comum a revoltar-se contra a camarilha assaltante.
E vale notar que a Receita Federal assegura que, ao mínimo deslize, a empresa que eventualmente tente driblar este inferno será submetida a um impiedoso espancamento fiscal e judicial, para não mencionar reputacional.  Isso garante que mais nenhum outro empreendedor eventualmente tente fazer graça contra esse esbulho. 
[No Brasil, com 92 tributos e uma burocracia que é um emaranhado de leis, medidas provisórias, decretos e outros atos tributários aterrorizantes, qualquer eventual erro de contabilidade, por mais inocente que seja, já é o suficiente para gerar um terrorismo tributário, fazendo que o pagador de impostos seja chamado de "sonegador" por um simples erro no formulário ou na declaração de renda.]
Para este fim, é de suprema importância incutir na mente de todos os cidadãos a ideia de que não pagar tributo ao estado — em vez de ser considerado uma legítima defesa contra um assalto — significa na verdade considerar que os interesses individuais estão acima dos coletivos, gerando a temível acusação de "ser egoísta". Todos temos de pagar a nossa 'justa parte'.
Os economistas, professores e demais intelectuais a serviço do estado conseguiram a grande proeza de fazer o povo acreditar que toda a sua produção pertence ao estado, o qual, por pura benevolência, permite que você mantenha para si uma fatia dela, desde que devidamente repasse a outra fatia para o estado.
O futuro
Por tudo isso, não deixa de ser curioso perceber que as mesmas pessoas que criticam qualquer pseudo-cartel que exista em uma economia são as primeiras a aplaudir o autêntico oligopólio inter-quadrilhas que existe entre as Autoridades Fiscais de todo o mundo, cujas respectivas Receitas Federais trabalham em conjunto para impedir qualquer tipo de evasão de impostos. 
Você já ouviu alguém na mídia falar deste conluio entre os estados como sendo uma cartelização pura e dura por parte dos suseranos de todo o globo? Claro que não: trata-se apenas de "alargar a base fiscal, como forma de promover um futuro mais justo e transparente."
Futuramente, com o declínio das taxas de fecundidade colocando em risco o crescimento das receitas dos governos, todos nós teremos de fazer nossos pagamentos exclusivamente por meios eletrônicos (o dinheiro em espécie será proscrito, como já está sendo nos países nórdicos), sendo que os bancos serão obrigados a denunciar toda e qualquer movimentação ao estado (como já ocorre no Brasil), sob pena de não serem socorridos caso as coisas corram mal nas suas artimanhas financeiras.
Todo o nosso salário será tributado, mas o governo oferecerá uma enciclopédia de deduções de forma a ter total controle sobre onde e como gastam os seus súditos.
Conclusão
É preciso ser realmente um verdadeiro empreendedor para arriscar ter uma empresa em um país como o nosso. Se a maioria dos cidadãos fosse empreendedor e não empregado ou funcionário, seria totalmente insustentável para o estado manter a situação atual.
No entanto, toda a ideologia anti-capitalista faz com que até alguns dos empresários acreditem que devem à sociedade uma compensação pelo privilégio de terem conseguido acertar naquilo que os consumidores mais valorizam. Só anos e anos de propaganda podem explicar a forma completamente débil como os empresários, principalmente os pequenos e médios, lidam com aquilo por que os obrigam a passar.
Só há uma esperança: que a classe média que trabalha no setor privado e os empreendedores de todo o país se juntem num uníssono 'basta!' que atire o parasitismo socialista de volta para onde nunca devia ter saído: o caixote do lixo da História.
Hoje, mais do que nunca, dependemos da força de vontade e da coragem dos mais produtivos e empreendedores.

quinta-feira, 17 de março de 2016

A democracia, os políticos e o retrocesso da civilização ( Hans-Hermann Hoppe)


tuitaram-dilma-c3a9-lula-e-lula-c3a9-dilma.jpgO sentimento da inveja é o mais premente, o mais difundido e o mais poderoso dentre as forças motivacionais que causam o declínio de uma civilização.
Todas as grandes religiões condenam a cobiça pela propriedade alheia como sendo pecaminosa.  Em uma ordem natural — isto é, em um sistema em que impera o direito natural —, as pessoas também, até certo ponto, se sentem tentadas a expropriar a propriedade alheia para vantagem própria. 
Porém, em uma ordem natural, bem de acordo com as prescrições religiosas, tais tentações são consideradas imorais e ilegítimas, e espera-se que todos sejam capazes de suprimir tais desejos — caso contrário, serão punidas de acordo com os próprios preceitos do direito natural.
Já quando vivemos sob um estado, algumas — poucas — pessoas adquirem o privilégio de cederem impunemente a tais impulsos imorais por um período indeterminado de tempo, podendo utilizar a legislação e a tributação como um meio de satisfazer sua própria cobiça pela propriedade alheia.  No entanto, é somente sob um arranjo democrático — isto é, quando a entrada no aparato estatal é livre e irrestrita — que todas as restrições e inibições morais contra a espoliação da propriedade alheia são removidas.
Quando a entrada no aparato governamental é livre, qualquer um pode expressar abertamente seu desejo pela propriedade alheia.  O que antes era considerado imoral e era adequadamente suprimido, agora passa a ser considerado um sentimento legítimo.  Sob a democracia, todos são livres para entregar-se a tais tentações e, com isso, propor toda e qualquer medida de legislação e tributação que lhes permitam levar vantagem à custa das outras pessoas.  
Todos agora podem cobiçar abertamente a propriedade de outros em nome da democracia; e todos podem agir de acordo com esse desejo pela propriedade alheia, desde que ele já tenha conseguido entrar no governo.  Assim, em uma democracia, qualquer um pode legalmente se tornar uma ameaça.
Ao passo que, em uma ordem natural, as pessoas dedicam seu tempo exclusivamente para a produção e o consumo, sob condições democráticas uma fatia crescente do tempo das pessoas é direcionada para a política, isto é, para a defesa e promoção de atividades que não são produtivas, mas sim exploradoras e parasíticas da propriedade alheia.
Com efeito, mesmo os oponentes deste arranjo acabam sendo obrigados a perder uma fatia cada vez maior do seu tempo com esforços improdutivos — ou seja, com a política —, nem que seja apenas para tomar medidas preventivas e se defender a si próprio e à sua propriedade contra tais incursões agressivas dos parasitas que ocupam o aparato estatal.
Com efeito, sob condições democráticas, surge uma nova classe de pessoas — políticos — cuja profissão é propor e promover decretos-lei e impostos voltados para expropriar a propriedade de alguns para o benefício de outros (inclusive, e principalmente, deles próprios).
Adicionalmente, devido às constantes e regulares eleições, a politização da sociedade jamais chega ao fim; ao contrario, ela é continuamente reforçada.  Incertezas jurídicas e desrespeito às leis não apenas se tornam uma normalidade, como são também levados ao paroxismo.  O horizonte temporal das pessoas se torna cada vez mais imediatista, voltado exclusivamente para o curto prazo.  Visões de longo prazo deixam de ser consideradas — tanto pelos políticos quanto pelos cidadãos (mesmo os mais precavidos, dado que eles simplesmente não têm como saber como se comportarão os próximos políticos).
Adicionalmente, nesse processo de competição política — isto é, na competição para ver quem adentrará o aparato estatal e se tornará o tomador supremo de decisões finais —, terão mais sucesso aqueles políticos e aqueles partidos políticos que tiverem menos escrúpulos morais e as melhores habilidades demagógicas.  Ganharão aqueles que mais bem conseguirem propor e propagar as mais variadas promessas imorais e ilegais, uma vez que a demanda popular por esse tipo de promessa é praticamente infinita.
Com isso, aqueles amorais vulgares que possuírem enorme talento em agregar uma turba de seguidores adeptos de demandas moralmente desinibidas terão as maiores chances de entrar no aparato governamental e ascender até o topo da linha de comando. 
De outro lado — o outro lado da mesma moeda —, a democracia leva a uma crescente corrupção.  Como a entrada no aparato estatal é livre, a resistência contra o domínio do estado é reduzida e, consequentemente, o tamanho do estado só faz crescer.  Aquele que hoje é espoliado sabe que, no futuro, ele pode também se tornar membro do aparato estatal, passando então a ser um beneficiário do butim.  Com isso, o número de empregados do estado ira crescer, e dado que seus salários e padrão de vida dependem da continuação do poder estatal de tributar e criar leis, eles irão — não necessariamente, mas muito provavelmente — se tornar leais defensores do estado.
Particularmente, a classe dos intelectuais — isto é, os produtores de palavras e não os produtores de bens — será a primeira a ser comprada e corrompida.  Dado que a demanda de mercado por palavras — ao contrário da demanda de mercado por bens e serviços — é ínfima, intelectuais estão sempre desesperados por qualquer tipo de ajuda para sobreviverem.  E o estado, que está em permanente necessidade de apoio ideológico para seu implacável ataque conta a justiça e o direito natural, estará sempre disposto a oferecer tal ajuda para esses intelectuais, utilizando seus serviços como educadores públicos e os colocando em sua folha de pagamento em troca da propaganda em prol do regime.
No entanto, não são apenas os funcionários do estado os corrompidos.  As receitas tributárias do governo, bem como seu abrangente controle sobre vários outros ativos não-monetários, irão exceder, em muito, o necessário para empregar e pagar seus funcionários.  Consequentemente, o estado também irá distribuir renda e assistência para vários membros da sociedade civil.  A lealdade dos pobres e oprimidos ao estado poderá ser garantida por meio de vários programas assistencialistas; já os ricos e os poderosos empresários, industriais e banqueiros — e indiretamente seus empregados — também poderão ser corrompidos por meio de subsídios, protecionismos, contratos privilegiados para empreiteiras, reservas de mercado, e títulos do Tesouro que pagam juros altos.
E esta mesma política poderá também ser utilizada com o propósito de "dividir" os membros da sociedade civil, de modo a controlar mais facilmente uma população que, cada vez mais, irá se comportar como facções rivais. Divide et impera!
Um ótimo indicador da degeneração moral e da corrupção gerada pelo estado democrático pode ser encontrado no alto escalão do aparato estatal: apenas veja os políticos e os partidos políticos que estão no comando do espetáculo da democracia.
Se forem mensurados de acordo com os padrões do direito natural e da justiça, todos os políticos, de todos os partidos e sem qualquer exceção, são culpados, direta ou indiretamente, de fraude, corrupção ativa e passiva, roubo, estelionato, usurpação, invasão, expropriação, homicídio, e receptação e redistribuição de bens roubados em larga escala.  E tudo isso de maneira contínua. E cada nova geração de políticos e partidos políticos parece ser pior que a anterior, empilhando ainda mais atrocidades e perversões no topo da montanha já existente, de modo que eles conseguem a façanha de nos fazerem sentirmos um tanto nostálgicos quanto ao passado.
Sob um arranjo em que imperasse o direito natural, todos eles seriam enforcados, ou jogados na cadeia onde ficariam até apodrecer, ou, na mais branda das hipóteses, obrigados a oferecer restituição por meio do trabalho próprio.
No entanto, em vez disso, todos eles desfilam impunemente e com grande desenvoltura em público, em plena luz do dia, proclamando-se — de maneira pomposa, pretensiosa, arrogante e farisaica, genuinamente acreditando terem enorme honradez — santos bondosos e caritativos, jurando serem bons samaritanos, abnegados servidores públicos, benfeitores e salvadores da humanidade e da civilização humana.
Políticos, com efeito, são os mestres da inversão de valores.  Para eles, quem trabalha e gera empregos são opressores e parasitas, e os verdadeiros parasitas que vivem da espoliação da propriedade alheia são os oprimidos.  Produtores são parasitas, e parasitas são produtores. Expropriação é restituição, e restituição é expropriação. Impostos são contribuições voluntárias, e preços voluntariamente acordados no mercado são taxas espoliativas.  Dinheiro é papel, e papel é dinheiro.  Liberdade é coerção, e coerção é liberdade.  Consumo do governo é investimento, tributação é poupança, e poupança genuína é um "crime contra a economia popular".
Pior de tudo: a esmagadora maioria da população, em uma quantidade que supera em muito o número de dependentes do estado, não só aceita, como acredita nessa insensatez.  Políticos, em vez de serem desprezados e ridicularizados, são tidos em alta estima, aplaudidos, admirados e até mesmo glorificados pelas massas.  Na presença deles, principalmente quando se trata de políticos "do alto escalão", a maioria das pessoas se mostra boquiaberta, submissa e servil, querendo selfies, beijos e abraços.  Com efeito, mesmo aquelas pessoas que se opõem virulentamente a determinado um político ou partido político, o fazem quase sempre apenas para glorificar e louvar outro político de outro partido. 
E a intelligentsia, ao perceber que toda a sua tagarelice é alegremente repetida por esse ou aquele político ou partido político, virtualmente baba sobre eles.
Enquanto isso, o número de pessoas que ainda se mantém apegadas aos "princípios antiquados" do direito natural e da justiça, que têm esses princípios como a base de todo o seu juízo moral, e que veem o mundo como um hospício controlado por megalomaníacos insanos, continua sendo a minúscula minoria da população.  Menor ainda é aquela minoria que reconhece e entende, ainda que de maneira vaga, a causa sistemática dessa situação.  E toda essa minoria está sob contínua ameaça dos guardiões e zeladores desse "Absurdistão" chamado democracia, sendo rotulados de neandertais, reacionários, extremistas, otários pré-iluministas, sociopatas e escumalha.
Eis o nosso mundo atual.

quarta-feira, 16 de março de 2016

A sociedade não precisa de dirigentes ( Lew Rockwell,)

Desde que existem, os governos sempre se ocuparam basicamente de uma atividade: encontrar novas maneiras de intervir nas relações humanas, inventando novas formas de gerenciar a sociedade e suas interações sociais e econômicas.  Quando não estão fazendo isso, as legislaturas se ocupam de tentar reformar os sistemas que eles próprios criaram no passado.
Apenas pense na saúde pública, na educação pública, em toda a fraude criada pela Previdência Social, na injustiça da tributação, na infindável incapacidade de gerenciar a moeda e as finanças públicas, além de todas as outras áreas da sociedade e da economia em que o governo se arvora a responsabilidade de gerir, e responda: por que tais áreas são uma bagunça?
Políticas públicas devem ser abolidas
Alguns liberais creem que a liberdade que desejam pode ser imposta da mesma forma que os sistemas socialistas antigos eram impostos sobre as sociedades.  A ideia é a de que caso sejam eleitos um Congresso e um presidente iniciados na teoria libertária, eles poderiam corrigir tudo o que está errado em um piscar de olhos.  Assim, seria necessário apenas eleger políticos versados na Escola de Chicago e um presidente treinado nos méritos dos incentivos de mercado, e tudo começaria a se resolver.
Porém, infelizmente, não é simples assim.  Mais ainda: se de fato fossemos capazes de fazer isso, estaríamos apenas substituindo uma forma de planejamento central por outra.  A genuína liberdade não advém de uma dada forma de gerenciamento governamental.  A genuína liberdade significa ausência de gerenciamento governamental. 
Todas as reformas em todas as áreas da política, da economia e da sociedade deveriam se dar em apenas uma direção: mais liberdade para os indivíduos e menos poder para o governo.  Indivíduos devem exercer seu direito de usufruir a maior liberdade possível, e o governo, o dever de exercer o menor poder possível.
Sim, essa é a posição que qualifica um indivíduo como libertário.  Porém, essa palavra não possui o poder explanatório que já teve em outros tempos.  Há uma tendência de ver o libertarianismo como uma espécie de política pública, ou apenas mais um emaranhado de propostas políticas, que enfatiza a importância da livre iniciativa e das liberdades pessoais em oposição à arregimentação burocrática.
Essa perspectiva, porém, é totalmente errada, e possui perigosas consequências.  Imagine se Moisés houvesse procurado conselhos de burocratas governamentais e especialistas em políticas públicas quando estava em busca de meios para libertar o povo judeu da escravidão egípcia.  Eles teriam lhe dito que marchar até o Faraó para pedir a ele que "liberte o meu povo" seria uma atitude altamente imprudente e inútil.  A mídia não iria gostar e ele estaria exigindo muita coisa muito rapidamente.  O que os israelitas deveriam fazer seria utilizar o sistema judicial.  Fora isso, o governo deveria conceder-lhes incentivos de mercado, mais escolhas por meio de vouchers e subsídios, e uma maior participação na estrutura de regulamentações impostas pelo Faraó.  Ademais, senhor Moisés, criticar o sistema é antipatriótico e extremista.
Em vez disso, Moisés adotou uma posição de princípios, e exigiu que seu povo fosse imediatamente libertado da opressão de todos os controles políticos — uma completa separação entre governo e a vida dos israelitas.  Esse é o meu tipo de libertarianismo.  O libertarianismo não é uma agenda política detalhando um melhor método de governança.  Antes, trata-se da moderna incorporação de uma visão radical e singular que está acima de todas as ideologias políticas existentes.
O libertarianismo não propõe nenhum plano para reorganizar o governo; ele requer que planos desse tipo sejam abandonados.  Ele não propõe que incentivos de mercado sejam empregados na formulação de políticas públicas; ele deseja uma sociedade na qual não haja políticas públicas no sentido em que tal termo é normalmente conhecido.
O verdadeiro liberalismo
Se essa ideia soa radical e até mesmo maluca hoje, ela era comum entre os pensadores dos séculos XVII e XVIII, dentre eles John Locke e Thomas Jefferson.  A marca distintiva dessa teoria política é a de que a liberdade é um direito natural.  Ela antecede a política e antecede o estado.  O direito natural à liberdade não precisa ser concedido ou ganhado ou outorgado.  Ele deve apenas ser reconhecido como um fato.  É algo que existe naturalmente na ausência de um esforço sistemático para aboli-lo.  O papel do governo não é nem o de conceder direitos, nem o de oferecer a eles algum tipo de permissão para existir, mas simplesmente se restringir de violá-los.
A tradição liberal do século XVIII em diante percebeu que era o governo a entidade que praticava os mais sistemáticos esforços para roubar as pessoas de seus direitos naturais — o direito à vida, à liberdade e à propriedade —, e é por isso que um estado deve existir apenas se tiver a expressa permissão de todos os membros de uma sociedade, estando limitado a realizar apenas aquelas tarefas que toda a população julgar essenciais.  Era com relação a essa agenda que todo o movimento liberal estava comprometido.
Os liberais não estavam lutando para que certos direitos fossem dados ou impostos sobre as pessoas.  Não se tratava de uma forma positiva de liberdade, a ser imposta sobre a sociedade.  Tratava-se de algo não positivo, mas sim negativo, no sentido de que delineava aquilo que não deveria ser feito.  Os liberais queriam acabar com a opressão, arrebentar os grilhões, livrar-se do jugo do estado, libertar as pessoas.  O objetivo era acabar com o domínio do estado e iniciar uma governança feita pelas pessoas, as quais eram as únicas que deveriam controlar suas associações privadas e voluntárias.  A sociedade não precisa de qualquer tipo de gerenciamento social.  A sociedade se mantém coesa não pelo estado, mas sim pelas ações diárias e cooperativas de seus membros.
A nação não precisa de um ditador, nem de um presidente, e nem de atos de boa vontade para impor as bênçãos da liberdade.  Essas bênçãos advêm da própria liberdade em si, a qual, como escreveu Benjamin Tucker, é a mãe da ordem, e não sua filha. 
Um bom exemplo do princípio da auto-organização — isto é, a capacidade das pessoas de se organizarem voluntariamente por meio do comércio e do respeito mútuo — pode ser visto nas modernas organizações tecnológicas.  A internet é amplamente uma rede que se organiza sozinha, sem nenhum gerenciamento.  As comunidades comerciais que se formaram na rede [Amazon, eBay, Mercado Livre etc.] já são maiores e mais vastas do que muitas nações já o foram.  São comunidades formadas por indivíduos que se organizam voluntariamente e autonomamente, interagindo sob regras, fiscalizações e imposições amplamente privados.  As inovações disponíveis em nossa era são tão espantosas que vivemos em uma época considerada revolucionária.  E é verdade.
A vida moderna se tornou tão imbuída dessas pequenas esferas de administração — esferas de administração nascidas da liberdade —, que ela se assemelha em muitos aspectos a comunidades sociais anárquicas.  Todas as grandes instituições de nossa época — desde grandes e inovadoras empresas tecnológicas, passando por redes varejistas até enormes organizações benevolentes internacionais — são organizadas na base do voluntarismo e do comércio.  Elas não foram criadas pelo estado e não são gerenciadas em suas operações diárias pelo estado.
Um louvor à anarquia ordenada
Isso nos transmite uma lição e um modelo a ser seguido.  Por que não permitir que esse bem sucedido modelo de liberdade e ordem seja a base de toda a sociedade?  Por que não expandir tudo aquilo que funciona e eliminar tudo aquilo que não funciona?  Tudo o que precisaria ser feito seria remover o governo do cenário.
Nem é preciso ressaltar que tal ideia não é amplamente aceita.  Qualquer indivíduo que habita os quadros da burocracia estatal, de qualquer país, acredita que é o governo quem, de alguma forma, mantém a sociedade coesa, quem a faz funcionar, quem inspira grandeza, quem torna a sociedade justa e pacífica, e quem permite a liberdade e a prosperidade decretando e implantando toda uma cornucópia de leis e políticas.
Tal pensamento advém diretamente do antigo mundo dos faraós e imperadores romanos, em que os direitos de uma pessoa eram definidos e ditados pelo estado, o qual era visto como a expressão orgânica das vontades da comunidade, incorporadas na sua classe de líderes.  Não havia fronteiras claras entre indivíduos e a sociedade, o estado e a religião.  Todos eram vistos como parte da mesma unidade orgânica; daquela mesma coisa amorfa chamada ordem civil.
E foi justamente essa visão que passou a ser rejeitada pelo ideário cristão que afirmava que o estado não era o senhor da alma do indivíduo — a qual possui valor infinito —, e não podia se pretender o dono da consciência de todos.  Mil anos depois, começamos a ver esse princípio sendo expandido.  O estado já não era mais visto como o senhor nem da propriedade e nem da vida dos indivíduos.  Quinhentos anos mais tarde, vimos o nascimento da ciência econômica e a descoberta dos princípios do comércio — através da obra dos escolásticos espanhóis e portugueses —, além da miraculosa constatação de que as leis econômicas funcionam independentemente do governo.
Tão logo a cultura ideológica começou a absorver a lição do quão desnecessário era o estado para o funcionamento da sociedade — uma lição que claramente, e atualmente mais do que nunca, deve ser reaprendida a cada geração —, a revolução liberal não mais podia ser contida.  Déspotas caíram, o livre comércio reinou e as sociedades cresceram e se tornaram mais ricas, pacíficas e livres.
É natural que as pessoas que trabalham no governo e para o governo imaginem que, sem seus esforços, haveria a total calamidade.  Porém, essa atitude é onipresente na política atual.  Praticamente todos os lados do debate político querem utilizar o governo para impor sua visão de como a sociedade deve funcionar.
Governos não podem ser refreados
A pergunta é constante: qual emenda constitucional eu defenderia para pôr em prática a agenda misesiana?  Você defenderia uma lei que proibisse impostos de serem aumentados acima de um certo nível?  Uma lei impondo o livre comércio?  Uma lei garantindo a liberdade de contratos?
No entanto, a resposta seria uma outra pergunta: por que deveríamos crer que novas leis e emendas funcionariam?  O problema com leis e emendas é que elas pressupõem, paradoxalmente, um governo grande e poderoso o suficiente para implantá-las e fiscalizá-las.  Mais ainda: um governo que está mais interessado no bem dos indivíduos do que em seu próprio bem.  Afinal, leis e emendas nada mais são do que um mandato para o governo intervir, e não uma restrição sobre sua capacidade de intervir.  Por que acreditar que "desta vez vai funcionar para o bem"?
Não necessitamos que o governo faça mais coisas, mas sim menos, cada vez menos, até o ponto em que a genuína liberdade possa triunfar.  A única coisa positiva que um governo pode fazer é definhar permanentemente até finalmente deixar que a sociedade prospere, cresça e se desenvolva por conta própria. 
Ou seja, um governo não deve e nem pode impor a liberdade; ao contrário, ele deve apenas permitir que a liberdade continue existindo, cresça e se torne cada vez mais robusta perante todas as tentativas de transgressão e usurpação despóticas.  Tal ideia, prevalecente no passado, encontra-se hoje totalmente perdida, e, como resultado, todos estão completamente confusos quanto ao papel do estado, o qual passou a ser visto por muitos como possuidor do toque de Midas, a única entidade capaz de impor e garantir a liberdade e o bem-estar de todos.
Esquecida, portanto, ficou a ideia de que a liberdade não deve ser imposta, mas sim apenas ter sua ocorrência permitida, sendo desenvolvida naturalmente desde o âmago da sociedade.
O fato é que, hoje, as pessoas nutrem um profundo temor quanto às consequências de apenas deixar as coisas correrem por si sós — laissez faire, na antiga frase francesa.  A esquerda diz que, sob a genuína liberdade, as crianças, os idosos e os pobres sofreriam abusos, negligências, discriminação e privações.  Já a direita diz que as pessoas cairiam no abismo da imoralidade, permitindo que movimentos revolucionários dominassem a sociedade.  Economistas dizem que o colapso financeiro seria inevitável (mas não explicam por que ele de fato foi inevitável sob a tutela do estado, como está ocorrendo atualmente); ambientalistas afirmam que haveria uma nova era de insuportáveis mudanças climáticas, ao passo que especialistas em políticas públicas de todos os tipos evocam falhas de mercado de todos os tipos, tamanhos e formas.
Sim, várias pessoas continuam utilizando a retórica da liberdade.  Políticos e legisladores aplaudem o termo e juram fidelidade à ideia.  Porém, quantos hoje de fato acreditam nesse essencial postulado da antiga revolução liberal, de que a sociedade pode se gerenciar a si própria, sem um planejamento central, com seus éditos e regulações?  Muito poucos.  Em vez da liberdade, as pessoas acreditam em burocracia, bancos centrais, sanções, guerras, regulamentações, ditames, limitações, ordens, contenção de crise, "medidas macroprudenciais" e, principalmente, no financiamento de tudo isso por meio de impostos, endividamento e criação de dinheiro.
O governo sempre cresce
Ludwig von Mises já havia observado:
Há uma tendência inerente a todo poder governamental em não reconhecer empecilhos às suas operações e em ampliar a esfera de seu domínio o máximo possível.  Controlar tudo, não deixar espaço para que nada aconteça espontaneamente fora do âmbito de interferência das autoridades — essa é a meta perseguida incansavelmente por todos os governantes.
O problema que ele identificou era como limitar o estado uma vez que ele começasse a se envolver com algo. Assim que você permite que o estado comece a gerenciar um aspecto da economia e da sociedade, você cria as condições que irão, no fim, fazer com que ele controle todo aquele setor.  Dado que a tendência do governo é se expandir, é melhor nunca permitir que ele adquira uma participação majoritária na vida econômica e cultural da sociedade.
Uma objeção a essa tese é a de que medidas que impõem uma forma de liberdade pelo menos nos levam à direção correta.  É verdade que mesmo um sistema parcialmente livre é melhor do que um completamente socialista.  Entretanto, o problema é que vitórias parciais sempre são instáveis.  Elas facilmente, e quase sempre, retrocedem ao completo estatismo, como comprovam todos os setores da economia que foram 'privatizados' e passaram a ser controlados por agências reguladoras.
A liberdade não pode ser imposta
A esquerda acredita que, ao restringir a liberdade de associação nos mercados de trabalho, ela está protegendo a liberdade dos marginalizados, ajudando-os a obter empregos.  Porém, essa suposta liberdade é adquirida à custa de terceiros.  O empregador não mais possui o direito de contratar e demitir.  Como resultado, a liberdade de contrato passa a valer para apenas uma das partes envolvidas.  O empregado é livre para aceitar as propostas do empregador e de sair do emprego quando quiser, mas o empregador não é livre para contratar de acordo com seus próprios termos e para demitir quando achar necessário.
O mesmo se aplica para uma ampla gama de atividades essenciais às nossas vidas.  Na educação, dizem que o estado deve impor o ensino compulsório a todas as crianças, caso contrário seus pais serão negligentes.  Apenas o estado pode garantir que nenhuma criança seja deixada para trás.  A única divergência passa a ser os meios empregados: vamos utilizar sindicatos e burocracias defendidas pela esquerda, ou os incentivos de mercado e o sistema de vouchers defendidos pela direita.  Não quero aqui entrar em um debate sobre qual meio é o melhor, mas apenas chamar a atenção para a realidade de que ambas as medidas são formas de planejamento que solapam a liberdade das famílias de gerenciar suas próprias vidas.
O catastrófico erro da esquerda foi o de subestimar o poder do livre mercado em gerar prosperidade para as massas.  Porém, tão perigoso quanto é o erro que a direita comete ao imaginar que o mercado pode ser utilizado a seu bel-prazer para fazer gerenciamentos sociais e morais, como se o governo pudesse manusear uma série de alavancas para tal fim.  Se um lado quer criar burocracias maiores e melhores, o outro prefere terceirizar serviços governamentais ou colocar empresas privadas na folha de pagamento do governo, tentando domar o mercado e canalizar seu poder para o 'bem comum'.
A primeira visão nega o poder da liberdade, mas a segunda é tão perigosa quanto, pois vê a liberdade puramente em termos instrumentais, como se ela fosse algo a ser orientada em prol da visão que um seleto grupo de pessoas considera ser do interesse nacional ou da moralidade geral.
Tal formulação implica a concessão de que cabe ao estado — seus governantes e intelectuais apoiadores — decidir como, quando e onde a liberdade deve ser permitida.  Mais ainda: implica que o propósito da liberdade, da propriedade privada e do próprio mercado é permitir um melhor gerenciamento da sociedade, ou seja, permitir que o regime opere com mais eficiência.
Murray Rothbard já havia observado, ainda na década de 1950, que os economistas, mesmo aqueles pró-mercado, haviam se tornado "peritos em organizar eficientemente o estado".  Eles haviam se especializado em ensinar os planejadores centrais a empregar incentivos de mercado para fazer com que o governo funcionasse melhor.  Essa visão hoje já se disseminou e passou a ser dominante entre todos os economistas, principalmente aqueles que seguem a Escola de Chicago. 
É essa mesma visão que aparece em algumas propostas liberais, como a "privatização da Previdência Social" (que se resume à aquisição compulsória de ações por meio de corretoras favoritas do governo), vouchers escolares, mercados de crédito de carbono, e outras medidas "mercadológicas".  Eles não cortam os grilhões e nem acabam com o jugo; eles simplesmente forjam o aço com materiais diferentes e afrouxam um pouco o jugo para torná-lo mais confortável.
(Em particular, medidas como "privatização" da Previdência, vouchers escolares e vouchers para a saúde poderiam acabar tornando o atual sistema ainda menos livre, pois gerariam novos gastos apenas para cobrir novas despesas necessárias para fornecer voucher e contas previdenciárias privadas.)
Há vários outros exemplos atuais dessas ideias maléficas.  Nos atuais círculos políticos, utiliza-se a palavra 'privatização' não para denotar uma completa retirada do governo de um determinado aspecto da vida social e econômica, mas meramente para denotar uma terceirização de atividades estatistas para algumas empresas privadas com boas conexões políticas. 
O pior erro que os defensores da livre iniciativa podem cometer é vender nossas ideias como meios mais eficientes para se obter os fins desejados pelo estado.  Em vários países ao redor do mundo, a ideia de capitalismo está desacreditada não porque já foi tentada e fracassou, mas simplesmente porque um falso modelo de capitalismo foi imposto pelas autoridades.  Isso não quer dizer que tais países vejam o socialismo como uma alternativa, mas há neles uma procura em vão por uma mítica terceira via.
Não é necessário o governo fazer muito para distorcer completamente o mercado: basta um controle de preços em alguma área, um subsídio para um derrotado à custa de um vencedor, uma limitação ou restrição ou um favor especial.  Todas essas medidas podem criar enormes problemas que acabam desacreditando o capitalismo por completo.
A única solução é abdicar
Qual seria a atitude correta a ser tomada por especialistas em políticas públicas e analistas do governo?  A única coisa que o governo pode fazer bem feito (além de destruir a economia): não fazer nada.  O papel apropriado para o governo seria simplesmente o de se retirar da sociedade, da cultura, da economia e de toda a política internacional.  Deixe que tudo se governe por si só.  O resultado não será um mundo perfeito, mas ao menos será um mundo que não poderá ser piorado pela intervenção do estado.
O livre mercado não é um arranjo que se resume a gerar lucros, produtividade e eficiência.  O livre mercado não é apenas para gerar inovações e concorrência.  O livre mercado diz respeito ao direito de indivíduos de tomarem decisões autônomas e de fazerem contratos voluntários, de buscarem uma vida que preencha seus sonhos, mesmo que tais sonhos não sejam aqueles aprovados pelos seus senhores governamentais.
Portanto, que ninguém se iluda com a crença de que é possível ter ambos; que liberdade e despotismo possam conviver pacificamente lado a lado, com o primeiro sendo imposto pelo último.  Fazer uma transição do estatismo para a liberdade significa uma completa revolução na economia e na vida política, saindo de um sistema em que o estado e seus grupos de interesse dominam, para um sistema em que o poder estatal não tenha função alguma.
A liberdade não é uma política pública; ela não é um plano.  Ela é o fim da própria política.  Quem quiser tê-la, terá de agir menos como gerenciadores de burocracias e mais como Moisés.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Aqueles que acreditam que a liberdade pode ser alcançada por meio de “políticas públicas” (Lew Rockwell)


politica-publica-e-partidaria.jpgUma das maiores derrotas do movimento intelectual pró-livre mercado foi permitir que suas idéias fossem categorizadas como sendo "opções de políticas públicas".  Tal concessão sugere que se deve deixar a cargo do estado — de seus gerentes e intelectuais pagos — decidir como, quando e onde a liberdade deve ser permitida.  A implicação maior desse erro é fazer parecer com que a função da liberdade, da propriedade privada e dos incentivos de mercado é apenas permitir que haja um melhor gerenciamento da sociedade por parte do estado — ou seja, permitir que o regime funcione mais eficientemente.
Esse tipo de pensamento vem nos permeando há um bom tempo.  Murray Rothbard, ainda nos anos 1950, observou que os economistas, mesmo aqueles favoráveis ao mercado, haviam se tornado especialistas em "como dar eficiência ao estado".  A diferença entre essa postura infeliz e aquela que utiliza uma retórica livre-mercadista para encobrir atrocidades estatais é mínima, sendo que esta última é certamente o objetivo final de todo o esquema.
Um exemplo clássico de retórica livre-mercadista utilizada para encobrir atrocidades estatais ocorre quando, em nome da liberdade, liberais propõem cortes de impostos com o intuito de aumentar as receitas do governo, como sugerido pela Curva de Laffer.  Ora, por que o propósito da liberdade é garantir uma superabundância de fundos para o estado?  E se esse aumento da receita não se concretizasse?  Isso significaria que os cortes de impostos fracassaram?  Até hoje, pessoas que se dizem defensoras resolutas do livre mercado seguem esse raciocínio: "Corte de impostos é bom porque, além de tudo, aumenta as receitas do estado!"
E, como já ficou mais do que claro, essa estratégia foi um desastre para a liberdade.  As receitas dos governos em proporção ao PIB nunca foram tão grandes, assim como a sofisticação das maneiras de se recolhê-las.  Ademais, hoje, quando o governo quer aumentar suas receitas, ele nem mais precisa se esconder sob esse manto oratório: ele simplesmente sai coletando mais receitas e mandando para a cadeia aqueles que não se curvarem.  Tal foi o fracasso da "estratégia" acima.
Há vários outros exemplos atuais dessa horrenda concessão ao estado.  Veja, por exemplo, o significado peculiar que foi dado à palavra "privatização": em alguns círculos "liberais", as pessoas utilizam a palavra "privatização" não com o sentido de se retirar o governo de um aspecto particular da vida social e econômica, mas meramente com a intenção de terceirizar prioridades estatais para empresas privadas que possuam fortes conexões políticas.
"Privatização" passou a significar que tudo e todos continuariam exatamente como antes, exceto que o controle agora estaria em mãos privadas, e não mais nas mãos do governo.  O socialismo é possível afinal, desde que seja gerido pela iniciativa privada.
Essa abordagem tipicamente leva a resultados infaustos no mundo real [como foi o caso, no Brasil, das "privatizações" seguidas da criação de agências reguladores, que existem para proteger as empresas privatizadas contra a livre concorrência].
Vouchers escolares, "privatização" de empresas de serviços públicos, e "privatização" da Previdência Social são os mais notórios exemplos em nível federal.  Já em nível estadual e municipal, qualquer contrato governamental concedido, geralmente via propinas, a algum interesse privado é considerado "privatização".  Vemos isso quando se terceiriza serviços como coleta de lixo, saneamento básico, eletricidade e rodovias.  Uma empresa privada ganha um monopólio concedido pelo estado e, daí pra frente, não mais precisa se preocupar com a concorrência.  Um privilégio e tanto.
Ouvimos alguns "liberais" dizerem que se "privatizarmos" as escolas públicas por meio de vouchers ou por quaisquer outros expedientes, elas se tornarão mais baratas de serem geridas e a qualidade do ensino irá aumentar.  Também nos dizem que se "privatizarmos" a Previdência Social — ou seja, obrigarmos os trabalhadores a depositarem mensalmente uma porcentagem de sua renda em uma conta administrada por uma empresa privada escolhida pelo governo, garantindo assim uma clientela cativa para essas empresas —, o arranjo funcionará exatamente como um sistema de capitalização, e irá trazer maiores retornos aos aposentados.
Em ambos os casos, os "libertários" estatistas estão simplesmente dizendo: "O socialismo é possível, desde que gerido pela iniciativa privada!"
A diferença é que, se o setor educacional estivesse completamente sob mãos privadas — o que significa, obviamente, a abolição de um Ministério da Educação e de seus currículos obrigatórios —, nada igual ao atual sistema continuaria existindo.  A maioria dos atuais coordenadores não teria emprego no novo sistema escolar.  As próprias escolas se tornariam centros varejistas.  A educação seria radicalmente descentralizada e ofertada pela livre concorrência.  Escolas surgiriam e desapareceriam.  Os salários de alguns professores provavelmente despencariam.  Ninguém iria ter o direito a uma educação fornecida pelo estado.  O estado poderia até exigir alguns conteúdos curriculares ou até mesmo determinar resultados mínimos, mas não obteria resposta alguma.
Uma enorme variedade de alternativas passaria a existir, mas seria raro que, entre elas, existisse o atual sistema de megaescolas que mais se parecem contêineres que abrigam milhares de pessoas.  É claro que não podemos saber de antemão como seria esse setor e nem qual forma ele tomaria no futuro.  Mas é exatamente esse o ponto.  A proposta dos vouchers e todos os outros esquemas de terceirização sequer dariam ao livre mercado a chance de mostrar sua superioridade.  Eles apenas gerariam mais aumentos nos gastos públicos e mais garantias estatais a um sistema já amplamente socialista.
O mesmo se aplica para a "privatização" da Previdência Social defendida pelos "liberais".  Aqueles que dizem querer sua privatização estão simplesmente defendendo um sistema que em quase nada se difere do atual.  O governo continuaria obrigando os trabalhadores a contribuir para um plano previdenciário, sem lhes dar a opção de manter em seu salário integral e direcionarem uma parte dele para onde quiserem. O governo obrigaria os trabalhadores a contribuírem mensalmente para uma empresa privada escolhida pelo governo pra administrar as pensões.
Seu dinheiro ainda continuaria sendo confiscado pelo estado. As pensões ainda continuariam sendo garantidas pelo estado.  Aliás, você poderia até acabar pagando mais: uma parcela para os atuais aposentados e outra para financiar a sua própria conta "privada". 
A única diferença entre esses dois sistemas é que uma parte do dinheiro poderia passar a ser utilizada por empresas privadas, o que as tornaria dependentes de subsídios públicos.
Há uns cem anos, quem propusesse tal sistema seria imediatamente tachado de socialista.  Hoje, esse mesmo indivíduo é considerado libertário e "especialista em políticas públicas". 
Agora, se o que você quer é uma reforma genuína e de livre mercado, não chame isso de privatização.  Tal método é uma fraude magnânima.  Sob uma verdadeira reforma de livre mercado, ninguém seria pilhado e a ninguém seriam dadas quaisquer garantias estatais.  Você, e apenas você, seria o responsável por seu sustento, não legando a mais ninguém esse encargo.  O slogan deveria ser: parem o roubo!
As escolas públicas e a Previdência Social não deveriam ser privatizadas; elas deveriam apenas ser abandonadas, permitindo a liberdade total de gerenciamento e escolha.  Em outras palavras, instituições de mercado não deveriam ser utilizadas como ferramenta de "políticas públicas"; elas deveriam ser a realidade prática em uma sociedade livre.
Raciocínio idêntico se aplica à privatização de empresas.  O estado deveria simplesmente sair do controle delas, vendendo os ativos a quem pagasse mais ou entregando-os para os respectivos funcionários e gerentes, permitindo que os novos proprietários fizessem o que melhor lhes aprouvesse.  E só. Nada de agências reguladoras geridas por burocratas que recebem propinas de empresários para criar regulamentações que lhes protejam.  A única função do estado seria não criar obstruções à concorrência [veja todos os detalhes, inclusive para a privatização de água, esgoto, eletricidade e Petrobras aqui]. 
Uma objeção frequentemente levantada a esse meu ponto é que medidas parciais ao menos nos levam para a direção correta.  É verdade que mesmo um sistema parcialmente livre ainda é melhor do que um totalmente socialista.  Contudo, vitórias parciais são completamente instáveis.  Elas facilmente são revertidas para um estatismo completo.  Se as escolas públicas e a Previdência fossem privatizadas seguindo-se os esquemas frequentemente propostos, o sistema poderia até se tornar menos livre do que atual, pois haveria a possibilidade de se incorrer em mais gastos públicos para cobrir os novos custos demandados pelos vouchers e pelas contas privadas.  A "privatização" de empresas sob um ambiente regulado pelo estado mantém as mesmas ineficiências do arranjo anterior, com o agravante de que agora tais ineficiências são imputadas à privatização.
O que está em jogo é a própria concepção do papel da liberdade na vida econômica, política e social.  Afinal, para nós, seria a liberdade apenas um recurso útil dentro da atual estrutura ou ela é uma alternativa genuína ao atual sistema político?  Não se trata de uma simples contenda entre facções libertárias.  O futuro do próprio livre mercado está em jogo.
São poucas as oportunidades de reforma que aparecem.  E quando elas aparecerem, os libertários precisam estar à frente não apenas exigindo o serviço completo, como também alertando contra os perigos de certas concessões.  O pior erro que nosso lado pode cometer é propagandear nossas idéias como sendo a melhor maneira de se obter os fins desejados pelo estado. 
Entretanto, foi exatamente essa abordagem — dizer que a economia de mercado é a melhor opção política dentre uma variedade de planos estatistas — que se tornou a dominante do nosso lado da cerca.
Reformas parciais como essas não apenas podem gerar um sistema tão ruim quanto o sistema que vigorava antes da reforma, como ainda podem acabar com a autoridade moral da livre iniciativa.
Uma observação contra reformas parciais foi feita por Ludwig von Mises:
Há uma tendência inerente a todos os governos em não reconhecer qualquer limitação às suas operações e em ampliar sua esfera de atuação ao máximo possível.  Controlar tudo, não deixar espaço para que nada aconteça fora da interferência das autoridades — esse é o objetivo ao qual todos os regentes secretamente aspiram.
A única maneira de fugir desse problema é batalhando para eliminar todo o envolvimento do estado na vida da sociedade e da economia.  Sem isso, simplesmente não há como evitar a miséria, a submissão e a ineficiência.
Na última década — e mais do que nunca no atual momento — o capitalismo passou a ser visto como um mecanismo criado para permitir que setores insolventes e mal geridos possam continuar operando ineficientemente.  É por isso que reformas de livre mercado nunca foram tão necessárias.
O livre mercado não é apenas um mecanismo de gerar lucros e produtividade.  Ele não serve apenas para estimular a inovação e a concorrência.  Fazer a transição do estatismo para a economia de mercado significa fazer uma revolução completa na vida econômica e política, saindo de um sistema em que o estado e seus grupos de interesse estão no controle e indo para um sistema em que o poder do estado não tem função alguma.  A liberdade não é uma opção de política pública.  Ela é a abolição de todas as políticas públicas.  Já passou da hora de tomarmos o passo seguinte e exigir justamente isso.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

SOCIAL DEMOCRACIA. OU:"O grande inimigo da atualidade - e como lutar contra ele" (Murray N. Rothbard)



sode0.jpgQual o principal inimigo da atualidade, contra o qual os defensores da liberdade devem lutar fervorosamente? Qual foi o arranjo sócio-econômico que ascendeu vigorosamente com a derrocada do comunismo, que se estabeleceu praticamente sem rivais, que é protegido e defendido fervorosamente pela "mídia respeitável" e que representa uma ameaça tanto às liberdades individuais e econômicas quanto à família e à tradição?
A social-democracia.
Não apenas a social-democracia, em todos os seus formatos e disfarces, é onipresente e já demonstrou ser mais longeva que seu parente mais violento, o comunismo, como também os social-democratas — agora que Stalin e seus herdeiros estão fora do caminho — são implacáveis em sua avidez para a conquista do poder total. 
Os bolcheviques, comunistas, foram substituídos pelos seus primos mencheviques, social-democratas.
Por serem defendidos pela "Mídia Respeitável" e por adornarem seus reais objetivos de poder absoluto em uma linguagem polida e politicamente correta, os social-democratas são inimigos traiçoeiros e lisos.  Exatamente por isso eles têm de ser combatidos vigorosamente.
Mas apenas apontar o dedo para a social-democracia não basta.  Uma coisa é reconhecer o arranjo inimigo; outra coisa, tão essencial quanto, é reconhecer os integrantes deste arranjo.
E esta é uma questão que não pode de modo algum ser deixada para depois.  Ao contrário, aliás: ela deve ser abordada antes de qualquer plano de ação. 
Como operam
Os marxistas, que sempre dedicaram uma enorme quantidade de tempo pensando em uma estratégia para seu movimento, sempre se fizeram a seguinte pergunta: quem é o agente da mudança social?  O marxismo clássico encontrou uma resposta fácil: o proletariado. 
Porém, com o passar do tempo — e com a recusa do proletariado em ser este agente da mudança —, as coisas foram se tornando menos definidas, e o agente da mudança social passou por sucessivas alterações: camponeses, mulheres oprimidas, minorias, e todos os tipos de grupos vitimológicos (negros, feministas, gays, deficientes, índios, cegos, surdos, mudos etc) que aceitassem este papel.
Atualmente, a questão relevante está do outro lado da moeda: quem são os vilões que dão sustento à social-democracia?  Quem são os agentes das mudanças sociais negativas?  Mais ainda: quais grupos da sociedade representam as maiores ameaças para a liberdade? 
Basicamente, sempre foram apresentadas duas respostas: (1) as massas que vivem de assistencialismo e que, por isso, são apologistas do estado; e (2) as elites que controlam o poder (políticos e grandes empresários ligados a esses políticos).
Ainda em minha juventude, concluí que o maior perigo sempre foi a segunda opção — a elite dominante —, e pelos seguintes motivos.
Em primeiro lugar, mesmo que as massas dependentes do estado tenham o potencial para se rebelar de forma violenta e passar a agir como se seu sustento fosse um direito inalienável ("direito", no caso, nada mais é do que um dever impingido aos pagadores de impostos), o fato é que tais massas simplesmente não têm tempo para se dedicar à política e às peripécias e trapaças do jogo político.  O cidadão pertencente a este grupo passa a maior parte do seu tempo cuidando de seus afazeres rotineiros, interagindo com seus amigos e se divertindo com a família.  Apenas muito esporadicamente ele irá se interessar por política ou se engajar politicamente em uma causa.
As únicas pessoas que têm tempo para se dedicar à política são os profissionais: burocratas, políticos e grupos de interesse (lobistas e grandes empresários) que dependem diretamente das regras estipuladas por políticos e burocratas.   Estes últimos (lobistas e grandes empresários), em particular, usufruem trânsito livre junto a políticos e burocratas do governo, os quais, em troca de propinas e doações de campanha, concedem a esses empresários uma ampla variedade de privilégios que seriam simplesmente inalcançáveis em um livre mercado.  Os privilégios mais comuns são restrições de importação, subsídios diretos, tarifas protecionistas, empréstimos subsidiados feitos por bancos estatais, e agências reguladoras criadas com o intuito de cartelizar o mercado e impedir a entrada de concorrentes estrangeiros.
(E estamos aqui desconsiderando os privilégios ilegais, como as fraudes em licitações e o superfaturamento em prol de empreiteiras, cujas obras são pagas com dinheiro público).
Em troca desses privilégios (legais e ilegais), os grandes empresários beneficiados lotam os cofres de políticos e burocratas com amplas doações de campanha e propinas.
Dado que tais pessoas ganham muito dinheiro com o jogo político, elas são intensamente interessadas no assunto, e dedicam vinte e quatro horas de seus dias pensando em novas maneiras de espoliar a população em benefício próprio.  Sendo assim, estes grupos de interesse sempre representarão um perigo muito maior para a nossa liberdade e propriedade do que as massas desinteressadas.
Esta foi a constatação básica dos seguidores da Teoria da Escolha Pública.  Os únicos outros grupos interessados em política em tempo integral são aqueles que se interessam em estudar o assunto, ideólogos como nós, um segmento nada volumoso da população.  Portanto, o problema está tanto na elite que controla o aparato estatal quanto na elite cuja riqueza depende diretamente das políticas implantadas por este aparato estatal.
Um segundo ponto crucial é que a social-democracia, com seu estado fiscalmente voraz e obeso, divide a sociedade em dois grupos: a elite dominante, que necessariamente é a minoria da população, e que é sustentada pelo segundo grupo — nós, o resto da população.  Neste quesito, sempre recomendo um dos mais brilhantes ensaios já escritos sobre filosofia política: Disquisition on Government, de John C. Calhoun.  Segundo Calhoun:
[O] inevitável resultado desta iníqua ação fiscal do governo será a divisão da sociedade em duas grandes classes: uma formada por aqueles que, na realidade, pagam os impostos — e, obviamente, arcam exclusivamente com o fardo de sustentar o governo —, e a outra formada por aqueles que recebem sua renda por meio do confisco da renda alheia, e que são, com efeito, sustentados pelo governo.  Em poucas palavras, o resultado será a divisão da sociedade em pagadores de impostos e consumidores de impostos.
Porém, o efeito disso será que ambas as classes terão relações antagonistas no que diz respeito à ação fiscal do governo e a todas as políticas por ele criadas.  Pois quanto maiores forem os impostos e os gastos governamentais, maiores serão os ganhos de um e maiores serão as perdas de outro, e vice versa.  E, por conseguinte, quanto mais o governo se empenhar em uma política de aumentar impostos e gastos, mais ele será apoiado por um grupo e resistido pelo outro.
O efeito, portanto, de qualquer aumento de impostos será o de enriquecer e fortalecer um grupo [os consumidores líquidos de impostos] e empobrecer e enfraquecer o outro [os pagadores líquidos de impostos].
Logo, quanto mais inchado se torna o governo, maior e mais intenso passa a ser o conflito entre essas duas classes sociais.
No entanto, dado que uma elite minoritária é capaz de governar, tributar e explorar a maioria do público sem sofrer retaliações, isso nos leva ao principal problema da teoria política: o mistério da obediência civil.  Afinal, por que a maioria do público aceita se submeter a essa gente, sem oferecer resistência? 
Esta indagação foi respondida por três grandes teóricos políticos: Étienne de la Boétie, teórico libertário francês de meados do século XVI, David Hume e Ludwig von Mises.  Eles demonstraram que, exatamente pelo fato de a elite dominante estar em minoria, a coerção por si só não pode funcionar no longo prazo.  Até mesmo na mais despótica das ditaduras, o governo irá se manter apenas se contar com o apoio da maioria da população.  No longo prazo, o que é preponderante são as ideias, e não a força — e qualquer governo tem de ter legitimidade na mente do público.
Essa verdade foi perfeitamente demonstrada durante o colapso da União Soviética.  Quando os tanques foram enviados para capturar Boris Yeltsin, eles foram persuadidos a apontar suas armas para o outro lado e a defender Yeltsin e o Parlamento russo.  Em linhas gerais, estava claro que o governo soviético havia perdido toda a legitimidade e apoio entre a população.  Para um libertário, foi particularmente fantástico assistir à morte de um estado, particularmente um estado monstruoso como a União Soviética.  Até o final, Gorbachev continuou emitindo decretos, como sempre fez, mas a diferença é que ninguém mais prestava atenção e nem dava a mínima.  O antes todo poderoso Supremo Soviético (a legislatura da URSS) continuava se reunindo frequentemente, mas ninguém se dava ao trabalho de comparecer.  Glorioso!
Quem garante o consentimento dos espoliados
Mas ainda não resolvemos o mistério da obediência civil.  Se a elite dominante está tributando, espoliando e explorando o público, por que o povo não se rebela?  Por que ele tolera tudo isso?  Por que ele simplesmente não retira seu consentimento?
Resposta: não se deve jamais ignorar o papel crucial dos intelectuais, a classe que molda as opiniões da sociedade.  Se as massas soubessem como o estado realmente opera, elas imediatamente retirariam seu consentimento.  Elas rapidamente perceberiam que o rei está nu, e que elas estão sendo espoliadas.  É para evitar essa "tragédia" que os intelectuais entram em cena.
A elite dominante, seja ela os monarcas de antigamente, os comunistas de pouco tempo atrás ou os social-democratas da atualidade, necessita desesperadamente de exércitos de intelectuais que teçam apologias para o poder estatal.  O estado governa por determinação divina; o estado assegura o bem comum e o bem-estar geral; o estado nos protege dos bandidos que estão sempre à espreita; o estado garante o pleno emprego; o estado ativa o multiplicador keynesiano; o estado garante a justiça social.  Como demonstrou Karl Wittfogel em sua grande obra, Oriental Despotism, nos impérios asiáticos, os intelectuais lograram êxito com a teoria de que o imperador ou o faraó era uma entidade divina.  Se o soberano é Deus, poucos se atreverão a desobedecer ou a questionar suas ordens.
Podemos ver como os regentes do estado se beneficiam dessa sua aliança com os intelectuais; mas o que os intelectuais ganham com esse arranjo? 
Intelectuais são pessoas que acreditam que, em um livre mercado, auferem uma renda muito aquém de sua sabedoria.  Para se aproveitar disso, o estado, para favorecer estes egos tipicamente hiperinflados, está disposto a oferecer aos intelectuais um nicho seguro e permanente no seio do aparato estatal; e, consequentemente, um rendimento certo e um arsenal de prestígios.  O estado está disposto a pagar a esta gente tanto para tecerem apologias ao poder estatal quanto para preencher a miríade de postos de trabalho nas universidades, na burocracia e no aparato regulatório do estado.  Com efeito, o estado democrático moderno criou uma maciça superabundância de intelectuais.
Em séculos passados, as igrejas formavam a classe exclusiva de formadores de opinião da sociedade.  Daí a importância para o estado e seus burocratas de formar uma aliança entre o estado e a igreja, e daí a importância para libertários da separação entre estado e igreja, o que na prática significa não permitir que o estado conceda a um grupo o monopólio da tarefa de moldar as opiniões da sociedade. 
No século XX, obviamente, a igreja foi substituída, e o papel de moldar opiniões — ou, naquela adorável frase, de "fabricar o consentimento" — foi entregue a um enxame de intelectuais, acadêmicos, cientistas sociais, tecnocratas, cientistas políticos, assistentes sociais, jornalistas e a toda a mídia em geral.
Portanto, para resumir o problema: na social-democracia, as elites dominantes — políticos, burocratas e grandes empresários — se uniram aos intelectuais e à mídia, e, com o apoio e o trabalho destes, conseguiram iludir e confundir as massas, doutrinando-as com uma "falsa consciência", como diriam os marxistas, fazendo-as aceitar passiva e alegremente seu domínio.  Aquilo que em arranjos mais honestos seria visto como espoliação e exploração, na social-democracia é visto como "bem comum", "desenvolvimentismo" e "justiça social".
O que fazer
Sendo assim, o que podemos fazer a respeito?
Uma estratégia endêmica aos libertários e aos liberais clássicos é aquela que pode ser chamada de modelo hayekiano, em homenagem a F.A. Hayek.  Eu chamo de "educacionismo". 
Ideias, segundo este modelo, são cruciais; e ideias perpassam toda uma hierarquia, começando com os filósofos do alto escalão, de onde descem para os filósofos menos proeminentes, depois para os acadêmicos, e finalmente chegam aos jornalistas e políticos, de onde então atingem as massas.  Por essa estratégia, o que deve ser feito é converter os filósofos do alto escalão para as ideias corretas.  Ato contínuo, eles irão converter os outros filósofos menos proeminentes, e daí por diante, em uma espécie de "efeito-goteira", até que as massas inevitavelmente serão convertidas e a liberdade será finalmente alcançada.
O problema com essa estratégia do gotejamento é que ela é muito suave e refinada, dependente de mediações e persuasões serenas nos austeros corredores da intelectualidade.  Essa estratégia combina bem com a personalidade de Hayek, que nunca foi exatamente um combatente intelectual agressivo.
É claro que ideias e persuasão são importantes, mas há várias falhas cruciais nesta estratégia hayekiana. 
Em primeiro lugar, obviamente, essa estratégia irá, na melhor das hipóteses, levar várias centenas de anos para surgir algum efeito, e muitos de nós estamos um tanto impacientes para isso.  Mas o tempo não é de modo algum o único problema.  Várias pessoas já observaram os misteriosos bloqueios neste gotejamento feitos pela mídia.  Por exemplo, vários cientistas sérios têm uma visão bem distinta a respeito das questões ambientalistas que hoje estão em voga; no entanto, são sempre os mesmos histéricos de esquerda que são exclusivamente citados nas reportagens da mídia.  O mesmo ocorre às enfadonhas abordagens sobre racismo, homofobia e "direitos das minorias".  Sendo assim, por que esperar que uma mídia que invariavelmente distorce as coisas para o lado politicamente correto irá repentinamente vir para o lado da razão?  Já está cristalino que a mídia, principalmente a 'mídia respeitável e influenciável', possui e sempre terá uma forte inclinação progressista.
De modo geral, o modelo hayekiano do gotejamento ignora um ponto crucial: o fato de que — e eu espero não estar retirando seu prazer de viver — intelectuais, acadêmicos e a mídia não são exatamente motivados pela verdade.  É verdade que as classes intelectuais podem fazer parte da solução, mas elas também são uma grande parte do problema.  Como vimos, os intelectuais fazem parte da classe dominante, e seus interesses econômicos, bem como seus interesses em termos de prestígio, poder e admiração dependem inteiramente da continuidade do atual sistema social-democrata.
Outra estratégia é aquela comumente perseguida por vários institutos conservadores e liberais: a persuasão silenciosa feita diretamente nos corredores do poder, sem passar pela comunidade acadêmica.  Tal estratégia é chamada de "estratégia fabiana", e os institutos saem divulgando relatórios pedindo uma redução de 5 pontos percentuais na alíquota de importação e de 2 pontos percentuais na alíquota do imposto de renda, além de uma pequena redução das regulamentações e da burocracia.  Os defensores dessa estratégia apontam para o sucesso da sociedade fabiana, a qual, por meio de suas detalhadas pesquisas empíricas, suavemente submeteu o estado britânico a um gradual crescimento do poder socialista.
O defeito desta estratégia, no entanto, está no fato de que aquilo que funciona para aumentar o poder estatal não funciona para fazer o inverso.  Afinal, os fabianos estavam estimulando as elites dominantes a aumentar seu poder, que era exatamente o que elas queriam.  Por outro lado, tentar encolher o estado vai fortemente contra sua natureza, e o resultado mais provável é que o estado acabe cooptando e 'fabianizando' os institutos que tentem reduzir seu poder. 
Esse tipo de estratégia pode, é claro, ser pessoalmente muito agradável para os membros desses institutos, e pode acabar garantindo alguns contratos lucrativos ou até mesmo alguns confortáveis empregos na máquina pública para essas pessoas.  E esse é exatamente o problema.
Portanto, além de se esforçar para converter os intelectuais para a nossa causa, a ação mais adequada a ser empreendida tem necessariamente de ser uma estratégia baseada na confrontação, na coragem e na ousadia.  Uma estratégia que gere dinamismo e entusiasmo; uma estratégia que agite as massas, que as desperte de sua letargia e que exponha as elites arrogantes que estão nos subjugando, nos controlando, nos tributando e nos espoliando.
Logo, a estratégia adequada tem de se basear naquilo que chamo de "populismo liberal": um movimento intelectual empolgante, dinâmico, tenaz, obstinado e confrontador; um movimento que continuamente desafie e chame para o debate público os principais quadros da social-democracia, para expô-los pelo que realmente são; um movimento que desperte e inspire não apenas as massas exploradas, mas também todos os poucos quadros intelectuais da direita. 
Nesta era em que as elites intelectuais são todas social-democratas e hostis a idéias não-progressistas, é necessário um movimento carismático e dinâmico, cujos membros tenham a habilidade de contornar a mídia e saibam se comunicar diretamente com as massas exploradas que dão sustentação ao regime.
Conclusão
Em todas as questões cruciais, os social-democratas se opõem à liberdade e à tradição, posicionando-se sempre a favor do estado interventor, regulador e controlador. 
No longo prazo, social-democratas são mais perigosos do que comunistas, e não apenas porque eles são mais resistentes e protegidos, mas também porque seu programa e seu apelo retórico são muito mais insidiosos, dado que eles sabem combinar o charme das ideias socialistas com as atraentes "virtudes" da democracia, tudo cuidadosamente envolto em uma linguagem politicamente correta que promete liberdade de expressão e proteção aos "membros credenciados" de todos os tipos de grupos vitimológicos, aquela gente que se diz perseguida e que vive lutando por "direitos iguais" — sendo que o 'iguais' significa na verdade 'superiores'.
Por muito tempo, os social-democratas obstinadamente se recusaram a aceitar a lição libertária de que liberdades civis e econômicas são indissociáveis; porém, agora, mais maduros e experientes, eles polidamente fingem defender a existência de algum tipo de "mercado", desde que este seja devidamente tributado, regulado e restringido por um maciço estado interventor e assistencialista.  Em suma, há pouca distinção entre os atuais social-democratas e os antigos "socialistas de mercado" da década de 1930, que alegavam ter solucionado aquele defeito fatal do socialismo apontado por Ludwig von Mises: a impossibilidade do cálculo econômico sob o socialismo, que impedia que os planejadores socialistas calculassem preços e custos, impossibilitando-os de planejar uma economia moderna e funcional.
No arsenal coletivista que dominou o cenário mundial do século XX, havia vários programas estatistas concorrentes: dentre eles, o comunismo, o fascismo, o nazismo e a social-democracia.  Os nazistas e os fascistas estão mortos e enterrados; o comunismo ainda existe apenas em alguns países sem nenhuma importância.  Restou somente a mais insidiosa forma de estatismo: a social-democracia. 
Em meio a uma cultura capturada por ideias progressistas e programas sociais esquerdistas, é necessária uma estratégia ousada para frustrar os planos dos social-democratas de alcançarem uma completa e irreversível tomada do poder.