O deputado Eduardo Azeredo (PSDB-SP), ex-governador de Minas, está dizendo que, no chamado “mensalão mineiro”, ele tem de ser tratado como Lula foi no mensalão petista. Alguns dirão que isso é confissão de culpa porque acham que o chefão do PT sempre soube de tudo. Azeredo, claro!, pensa na questão do ponto de vista político e jurídico. Vamos ver.
O mensalão petista foi um esquema de caixa dois e de desvio de dinheiro público? Foi também. E isso já é bastante grave. Mas foi mais do que isso: com aquela dinheirama, a quadrilha comprou parlamentares e partidos políticos. Além dos crimes cometidos — corrupção ativa e passiva, formação de quadrilha, peculato, lavagem de dinheiro —, houve uma tentativa de golpear a democracia. O esquema desviou recursos públicos? Sim! R$ 76 milhões do Fundo Visanet, que foi justamente que Henrique Pizzolato, aquele que foi preso na Itália, mandou transferir para o esquema.
Atenção! Quem era o principal beneficiário do mensalão petista? Resposta: Lula. Ele, no entanto, foi acusado de alguma coisa pela Procuradoria-Geral da República? Resposta: não! Por que não? Resposta: porque a Procuradoria diz não haver indícios de que ele tenha participado da tramoia. Em depoimento, Marcos Valério assegurou que o então presidente sempre soube de tudo. Mas a coisa, até agora, não prosperou.
E o chamado mensalão mineiro? Segundo o Ministério Público, em valores atualizados, R$ 9,3 milhões foram desviados de empresas públicas para financiar a campanha à reeleição de Eduardo Azeredo, do PSDB, em 1998. Os dois casos têm mais uma coisa em comum: em Minas, o dinheiro também passou por Marcos Valério. O que não se tem, nesse caso, é o mecanismo de compras de parlamentares e partidos. São arquiteturas distintas.
Caso se comprove que o esquema realmente existiu, o principal beneficiário seria, sim, Azeredo — afinal, era para a sua reeleição. Mas há provas de que ele soubesse ou tivesse participado? Eis a questão: também não! Igualzinho a Lula. Ai o leitor pensa: “Ah, mas esses políticos sempre sabem, tanto Lula como Azeredo”. Pode até ser. Mas a Justiça precisa trabalhar com provas. Nesse particular, portanto, o político mineiro tem motivo para perguntar: se Lula não virou réu, por que ele virou?
Anotem aí, que a coisa vai dar pano para manga. Azeredo virou réu por causa de uma assinatura numa espécie de recibo. Ocorre que tudo indica que essa assinatura é falsa, obra de um estelionatário.
E aproveito, meus caros, para registrar mais uma vez um estranhamento: Rodrigo Janot, procurador-geral da República, em petição enviada ao STF, aproveitou para pedir 22 anos de cadeia para Azeredo. Não estou entrando no mérito das culpas. Mas cumpre notar que a democracia tem rituais. O que o Ministério Público pode fazer é pedir a condenação de réus por tais e quais crimes, mas estabelecer a dosimetria das penas ainda é uma função dos tribunais, não do Ministério Público.
Nenhum comentário:
Postar um comentário