segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A tranca na garganta (FMB)


aterro
Há um parque perto da sua casa. Você o adora. É um dos mais bonitos da sua cidade. Fica à beira-mar e compõe uma das paisagens mais famosas do país. É lá que você passeia com a sua família, é lá que sua família passeia sem você, é por lá que você passa para ir ao trabalho, é lá que pratica seus esportes.
 
Acontece que assaltantes frequentam o parque. Roubam seus filhos, irmãos, esposas, amigos, você… Eles dão pancada e atéesfaqueiam no processo. Os casos pipocam, a imprensa relata, cidadãos dão queixas, mas a polícia nada faz ou faz bem pouco. Um bando de menores se aproveita da própria impunidade e um bando de maiores se aproveita da impunidade dos menores para roubar por eles. É o “seu” parque. É a sua área. É a sua história de vida.
 
- O que você faz?
 
Sim: você pode deixar de frequentar o parque. Você pode cedê-lo aos bandidos. Você pode tirar sua família de lá. Você pode ficar preso em casa, lamentando que seus filhos não tenham a escolta armada dos filhos dos políticos, nem o dinheiro deles para pagar o título e a mensalidade dos clubes seguros da cidade, embora nenhum deles substitua o seu parque aberto, o seu cartão postal.
 
Ricardo Monte
Ricardo Monte, assaltado e esfaqueado por três bandidos menores de idade no Aterro, na semana anterior ao episódio dos justiceiros.
Você também pode esperar ser assaltado para extravasar sua revolta e reagir em legítima defesa. Acontece que, se você estiver sozinho, você vai perder a briga, porque o normal é que vários assaltantes abordem você. Se estiver em bando, com seus amigos fortões, você provavelmente não será escolhido pelos assaltantes.
 
- O que você faz?
 
Eu sei: você estuda, trabalha, tenta melhorar o país de outras formas, mas os assaltantes estão lá, ocupando o seu espaço, com o fomento do governo e a omissão das autoridades. Hoje é o parque, amanhã será o quê? Sim: nem precisa esperar amanhã. Eles já estão na sua rua também. Alguns já subiram em certos prédios do bairro. Talvez não no seu (ainda).
 
- O que você faz?
 
Nada, talvez. Acontece que, enquanto você pensava ou não sobre essas coisas, um grupo resolveu tomar uma providência. Eram muitos, porque provavelmente não queriam correr o risco de perder a briga. Estapearam, esbofetearam e deixaram um dos assaltantes amarrado nu em um poste do parque, com cortes atrás da orelha possivelmente feitos por alguma faca.
 
Você talvez esteja na dúvida se foi exatamente assim que aconteceu, se isto é legítimo ou não, se sente pena do “di menor”, se havia ou há ainda alguma outra alternativa, se devemos lutar fisicamente contra os bandidos e talvez pelas nossas liberdades, se defender-se é apenas reagir ao crime imediato ou ir até o criminoso reincidente para atacá-lo, se neste caso devemos ir até ele só quando ele está na nossa área ou também quando está em outros lugares (ao que você pensa que isto talvez não fosse uma atitude prudente), se legitimar este ato estimula outros ainda piores, se ele ajuda a pacificar o parque e a amedrontar os bandidos, se os valores que levaram este grupo à reação são os mesmos que os seus – e muitos outros “se” que você e seus amigos andaram pensando por aí, sob a gritaria geral.
 
O bandido adolescente está vivo. Com cicatrizes, mas aparentemente sem maiores sequelas. Tomou pontos atrás da orelha, ficou com marcas nas costas, mas não o mataram, nem lhe arrancaram braços, pernas, língua e tudo mais que a palavra tortura, com toda a variedade de graus que ela encobre, possa fazer supor. O grupo de justiceiros, decerto com o poder de fazer estragos maiores, estabeleceu para si um certo limite, que você, caso considere válida a atitude inicial, também pode julgar alto ou baixo, moralmente aceitável, condenável, execrável etc.
 
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O episódio é bastante emblemático e levantou inúmeras questões complexas sobre o país em que vivemos e as nossas liberdades de ação, reação, expressão e opinião.
 
Você pode, é claro, não ter opinião sobre algumas ou até sobre todas essas questões, mas uma coisa este episódio deixou absolutamente clara mais uma vez: o que não falta no grande parque brasileiro é gente querendo passar a tranca da bicicleta na garganta de quem tem.
 

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