quarta-feira, 10 de junho de 2015

Esquerda e direita: separando o joio do trigo (RC)

Esquerda direita
Os termos “esquerda” e “direita” geram muita confusão, a ponto de várias pessoas preferirem ignorá-los, considerá-los coisa do passado. Todo rótulo é simplista e, portanto, limitado. Não é possível encaixar uma visão de mundo inteira em apenas dois opostos, pois toda uma região intermediária fica esquecida. No mais, os termos tinham uma significação mais óbvia em sua origem, na Revolução Francesa, o que ainda influencia muita gente: esquerda é “povo”, enquanto direita é “aristocracia”. Todo cuidado é pouco, portanto.
Dito isso, não sou dos que preferem jogar fora os conceitos. Acho que devem ser usados sim, com cautela. Tenho opinião parecida com a de João Pereira Coutinho, que tratou do assunto em sua coluna desta terça na Folha. Coutinho não se importa de se dizer de direita, um conservador, mas faz questão de qualificar o termo, para separar o joio do trigo. Diz ele, expondo aquilo que considera a boa direita, contra as acusações frequentes de autoritarismo e reacionarismo:
O reacionarismo de Joseph de Maistre ou Louis de Bonald; a hostilidade de ambos ao individualismo (e, surpresa das surpresas, ao capitalismo) não pode ser confundida com uma direita “liberal”, seja ela conservadora ou não, que passou a marcar o ritmo das sociedades democráticas em que vivemos.
Na sua vocação antiautoritária (seja contra o alegado “direito divino dos reis” dos séculos 17 e 18 ou contra os “direitos divinos” de criminosos como Hitler ou Stálin no século 20); na sua defesa constitucional de que uma comunidade política é regida por leis, não pelo capricho de um homem; no seu individualismo filosófico (a afirmação de que os indivíduos têm direitos que não podem ser esmagados pelo coletivo); e até na sua tolerância perante diferentes concepções do bem (Alan Ryan, no recente “On Politics”, considera mesmo a tolerância dos liberais o valor mais importante da tribo), confundir esta direita com os seus primos bastardos só é possível por ignorância ou má-fé.
[...]
Estranhamente, aquilo que encontro nos meus pares é uma direita cansada do abuso político e da corrupção econômica. E que procura resgatar para o Brasil os valores “liberais” clássicos –repito: individualismo, constitucionalismo, antiautoritarismo e tolerância– que são moeda corrente na cidade, no país e no continente onde, ironia das ironias, o ilustre sociólogo marxista escolheu para morar.
A esquerda também pode ser separada entre aquela revolucionária, socialista, radical, e a outra mais moderada, social-democrata, “progressista”. Sou crítico de ambas, naturalmente, mas com a última há possibilidade de diálogo; com a primeira, não. Quando a ala dos radicais chama a ala mais moderada de “neoliberal”, por exemplo, está agindo de má-fé. O PSDB seria visto como representante da esquerda social-democrata em qualquer país civilizado do mundo; aqui, é “acusado” de ser conservador, reacionário, “neoliberal” (como se fosse tudo sinônimo).
Quem não quer debater com a direita de boa estirpe, aquela liberal clássica ou conservadora nos moldes britânicos, prefere criar um espantalho e jogar todos na mesma vala comum, como se os reacionários e autoritários fossem representantes de toda a direita. É como se não fizéssemos, do lado de cá, distinção entre os tucanos e os petistas, pois são todos de esquerda. Apesar da pusilanimidade irritante da “oposição” tucana, o fato é que o PSDB representa uma esquerda bem mais civilizada do que o PT, camarada de ditadores comunistas e de “revolucionários” marxistas (marginais, na verdade, como as Farc e o MST).
Clamar por regime militar, destilar homofobia por aí, ignorar o estado democrático de direito para pedir linchamento público de marginais por justiceiros, idealizar um passado distante em que tudo era uma maravilha, essas são bandeiras de uma direita ultrapassada, antidemocrática, que nada tem a ver com aquela liberal ou conservadora. Com o avanço dos “progressistas” radicais, com uma agenda de intenso relativismo moral, com o petismo no poder, é até compreensível o desespero de alguns, que leva a tais clamores ensandecidos. Mas não é justo misturar essa direita com a outra, da mesma forma que não é justo dizer que toda esquerda é socialista revolucionária.
Por fim, acho graça quando alguns dizem que essa esquerda nem mais existe, que é paranóia de quem vive preso na Guerra Fria. Essas pessoas devem viver em Marte, não no Brasil, dominado pelo PT, cujo novo congresso fala abertamente em “construir uma pátria socialista”, assim, com todas as letras, demandando imposto sobre “fortunas” e sempre mais estado em nossas vidas. Quem alega que esquerda não quer dizer mais socialismo não deve conhecer o Foro de São Paulo, o Mercosul atual, a Venezuela, a reverência que tantos idiotas úteis ainda têm por Cuba.
O ideal, como já cansei de repetir, é que a direita decente se comunicasse de forma civilizada com a esquerda moderada, rejeitando ambos os extremos. O problema é que nossa esquerda moderada é covarde demais, e parece ter medo de enfrentar com rigor seus “colegas” radicais, assim como morrem de medo de serem confundidos com os reacionários de direita. O resultado é que cada vez mais a direita com viés autoritário ocupa esse espaço vazio, esse vácuo que deveria ser preenchido pela esquerda civilizada e pelos liberais e conservadores de boa estirpe, como em toda nação desenvolvida.
Aqui, o radicalismo petista, visto como “moderado” pelos néscios, acabou parindo uma direita mais raivosa e autoritária, cansada de tanto abuso e da negligência da “oposição”. Se os democratas não lutarem realmente pela democracia, que não sobreviverá se depender do PT, então a resposta do outro lado será cada vez mais violenta. De tanto acusar os liberais, os conservadores e até os social-democratas de “extrema-direita”, a esquerda radical acabará atraindo a verdadeira extrema-direita ao poder. Depois não vai adiantar ficar chorando…
PS: Um claro exemplo disso é a questão da maioridade penal, cuja redução a imensa maioria do povo brasileiro deseja, cansada da impunidade e da criminalidade. Não é uma bandeira da “extrema-direita”, e sim do bom senso, moderada, algo que existe na maioria dos países civilizados, com idades menores para punição de crimes. Mas aqui até o PSDB se une ao PT para negociar uma alternativa, virando as costas ao povo. Vão conseguir, com isso, fomentar respostas cada vez mais radicais, de pessoas que, em condições normais de temperatura e pressão, não agiriam dessa forma. Reduzir para 16 anos a idade penal é o mínimo que se espera, e isso não é uma pauta “reacionária” ou da “extrema-direita”, a menos que esses beócios estejam preparados para afirmar que a Suécia é um país de extrema-direita!

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