segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Por quem os juros dobram - e o que pode ser feito pela economia brasileira (Leandro Roque)


Dilma V.jpgSejamos sinceros: com nossas universidades loteadas por professores keynesianos, e com um empresariado de mentalidade protecionista e afeita a subsídios, era inevitável que, cedo ou tarde, esse experimento conhecido como "Nova Matriz Econômica" fosse implantado no país.
A demanda por esse conjunto de políticas keynesianas é antiga.  Mesmo quando, no período 2005-2008, o crescimento da economia brasileira eraelevado, a inflação de preços eradeclinante, o desemprego diminuía e a classe média aumentava rapidamente, os clamores por uma guinada mais radical à heterodoxia ainda eram uma constante. 
E o argumento — o mesmo de sempre — era o de que o país iria crescer muito mais caso o governo adotasse uma política fiscal mais expansionista e uma política monetária mais frouxa, utilizasse os bancos estatais para expandir o crédito, desvalorizasse o câmbio e aumentasse as tarifas de importação para "estimular" a indústria nacional. 
Durante o auge desse experimento, em que o "capitalismo de estado" foi elevado ao paroxismo, não foram poucos aqueles que vaticinaram que tal arranjo "havia vencido e havia melhorado a vida do pobre".
Tais pessoas se deixaram levar pelos resultados de curto prazo — quando medidas heterodoxas são adotadas após medidas ortodoxas terem arrumado a casa, os números econômicos apresentaram um desempenho atraente —, e ignoraram completamente as consequências de longo prazo.
Mas o longo prazo chegou. E os resultados deste experimento ultrakeynesiano estão se revelando trágicos.
Não é o objetivo do presente artigo listar todos os erros da Nova Matriz Econômica.  Isso já foi feito em detalhesneste outro artigo, na forma de uma narração cronológica. 
Aqui, por uma questão de brevidade, vale apenas dizer que este experimento ultrakeynesiano culminou em umgrave desarranjo nas contas públicas, em uma forte elevação da dívida bruta, em uma acentuada desvalorização cambial, na mais alta taxa de inflação de preços desde 2003, e, como não poderia deixar de ser, em uma sensívelqueda na renda real dos trabalhadores.
Esses cinco fatores, conjuntamente, derrubaram a confiança dos consumidores, dos empresários e dos investidores nacionais e estrangeiros.  Pelos dados mais recentes, a confiança dos consumidores caiu 23% em apenas um ano, a confiança do empresariado desabou ao pior nível da série histórica, e os investimentos acumulam sete trimestres seguidos de queda.
Em paralelo, as agências de classificação de risco ameaçam rebaixar os títulos da dívida do governo brasileiro à qualidade de "especulativo" — o que gera ainda mais desvalorização cambial, realimentando a inflação de preços —, o desemprego segue em ascensão, algo atípico para esta época do ano, e espera-se que a economia encolha quase 2% este ano.
Para piorar a situação
Por si sós, tanto o diagnóstico da situação quanto a cura são simples.  Vivêssemos em um país estável, não haveria maiores percalços na correção dos problemas acima.  Seria um processo doloroso, sim, mas totalmente solucionável.  Com efeito, não seria muito diferente do que foi feito no próprio Brasil em 2003, ou nos EUA no início da década de 1980.
No entanto, o Brasil está passando por um período de forte turbulência no cenário político.  Embora turbulências políticas não sejam atípicas no Brasil — passamos por algo semelhante em 1992, com o impeachment de Fernando Collor, e em 2005, com o estouro do "mensalão" —, a atual crise política possui componentes realmente únicos.  E bastante desestabilizadores.
De um lado, segundo os delatores Ricardo Pessoa, Marcelo Odebrecht e Pedro Barusco, o dinheiro roubado da Petrobras bancou as campanhas eleitorais de Dilma, o que seria motivo para impeachment.  Adicionalmente, aspedaladas fiscais ocorridas no primeiro mandato de Dilma configurariam crime de responsabilidade fiscal, também motivo para impeachment.
E, por se tratar de fatos que envolvem a campanha eleitoral, o então candidato à vice-presidência e atual ocupante do cargo, Michel Temer, também pode ser engolfado pelas denúncias.
Mas não pára por aí: os sucessores diretos da presidente da República — que são o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o do Senado Federal, Renan Calheiros — também estão envolvidos em inquéritos no STF, e podem ser igualmente derrubados.
Ou seja, simplesmente não se sabe quem sobrará inteiro. 
Com o perdão do clichê, o estado brasileiro se transformou em uma ilha cercada por corrupção por todos os lados. As denúncias envolvendo os principais líderes da política se generalizam e se banalizam.
Por si só, este cenário de total incerteza política já seria o suficiente para travar os investimentos.  Quem faria um investimento de longo prazo em um país cujo cenário político pode mudar radicalmente já no próximo mês?  No entanto — e novamente com o perdão do clichê —, como desgraça pouca é bobagem, essa crise política ocorre em um cenário de economia já deteriorada, em que há uma inflação de preços teimosamente alta, uma moeda que está se esfacelando no cenário internacional, e um crescente desemprego, o que intensifica ainda mais os problemas.
Não haverá crescimento enquanto os investimentos não voltarem
Para a economia voltar a crescer é necessário haver investimentos.  Por definição, não há crescimento econômico sem investimentos.  Não há empregos sem investimentos.  Não há consumo sem investimentos.
Para algo ser consumido, antes ele tem de ser produzido.  E para ele ser produzido é necessário haver bens de capital operando em uma instalação industrial para fabricá-lo.  E nada disso existe sem investimentos.
Igualmente, não há geração de empregos com bons salários sem investimentos.
Só que os investimentos só ocorrem quando, além de um mínimo de estabilidade político, a inflação de preços é baixa e as contas do governo estão arrumadas.
O que esse governo parece não ter entendido é que uma inflação de preços permanentemente alta tem o poder de desorganizar toda a economia, pois ela gera grandes incertezas entre os empreendedores e também entre os consumidores.
Quando um empreendedor faz um investimento voltado para o longo prazo — ou seja, quando ele decide construir novas instalações, ou quando ele decide ampliar as instalações de sua empresa, ou quando ele decide investir em infraestrutura, ou até mesmo quando ele pensa em contratar mão-de-obra —, o mais essencial de ele necessita é ter um mínimo de certeza a respeito do poder de compra da moeda no futuro, que é quando investimento dele estará pronto e ele começará a auferir as receitas dele. 
Se houver a perspectiva de que o poder de compra da moeda será muito menor do que o poder de compra atual, então esse investimento de longo prazo se torna muito arriscado e incerto.
Se você não tem como prever minimamente quais serão os preços e os custos daqui a alguns anos, qualquer investimento de longo prazo se torna um tiro no escuro.
E então, como consequência, os empreendedores passam a se concentrar em projetos de curto prazo; projetos que visam ao futuro mais imediato.  Consequentemente, a fabricação de máquinas e equipamentos, bem como a ampliação de instalações industriais serão interrompidas, e investimentos de mais curto prazo, como a fabricação de pirulitos e biscoitos, serão os mais prioritários.  Adicionalmente, empreendedores e investidores passarão muito mais tempo especulando no mercado financeiro apenas para se protegerem da perda do poder de compra da moeda.
Vale repetir: em um cenário de inflação de preços permanentemente alta, a maior preocupação de investidores e empreendedores passa a ser a de se proteger da perda do poder de compra da moda.  Tanto é assim que na época da hiperinflação no Brasil ninguém planejava a longo prazo.
E os consumidores, por sua vez, ao verem que seu orçamento está apertado e seu poder de compra está caindo, acabam sendo obrigados a apertar os cintos e a consumir apenas o essencial.
Ou seja, uma inflação de preços permanentemente alta tem o poder de fazer com que coisas essenciais — como investimentos de longo prazo, que são os reais geradores de riqueza de uma economia — sejam sensivelmente afetadas, e que outras coisas igualmente importantes deixem de ser consumidas.
De janeiro de 2010 (primeiro mês após um ano de recessão, que foi 2009) até junho de 2015, a inflação de preços mensurada pelo IPCA é de 43%.  Um bem que custava R$ 50.000 no início de 2010 hoje custa R$ 71.421.  Isso não é coisa de país sério e desenvolvido.
(A título de comparação, um país que tenha uma inflação de 2% ao ano — que já é considerada alta lá nos países desenvolvidos — irá demorar 18 anos para acumular essa mesma inflação de 43% que acumulamos em apenas 5 anos e meio.)
Pior ainda: o último ano em que tivemos um IPCA que ficou no centro da meta estabelecida pelo Banco Central foi em 2009, quando o IPCA ficou 4,47%.  E aquele foi um ano de recessão.  Desde 2011, a inflação de preços em nenhum momento fica perto da meta de 4,50% estabelecida pelo próprio Banco Central.  Em vários momentos elaultrapassa o teto da meta, de 6,50%. 
Além da inflação, como dito, outro fator que afeta os investimentos é o orçamento do governo.  Se as contas do governo estiverem em descalabro, os investimentos inevitavelmente serão afetados.  E o motivo é simples: contas desarranjadas não duram por muito tempo.  Sempre chega o momento do rearranjo.  E quando essa necessidade de ajuste fiscal se impõe, as medidas adotadas — alta de impostos e abolição de isenções — geram custos adicionais às empresas e mudam totalmente o cenário no qual elas basearam seus planos de investimentos.
Empresas, vale repetir, planejam a longo prazo.  Elementos como previsibilidade, facilidade de empreender e custo tributário são cruciais.  Mudanças abruptas que afetam a previsibilidade, que elevam a complexidade, que geram mais incertezas, e que aumentam o custo da tributação alteram todo o planejamento das empresas e causam danos duradouros.
A conjunção desses três fatores — instabilidade política, inflação de preços continuamente alta, e política fiscal frouxa (o que gera incertezas em decorrência de um orçamento governamental instável) — levaram a uma retração dos investimentos que já perdura há sete trimestres.
Os seis fatores que geram a inflação de preços
1) Descasamento entre oferta e demanda
A primeira coisa a se ter em mente é que as leis básicas da economia são imutáveis.  Se a inflação de preços se mantém, durante anos, continuamente alta, isso significa que está havendo um descasamento entre oferta e demanda. 
Um dos pilares da Nova Matriz Econômica foi o incentivo ao consumo.  Só que o incentivo ao consumo não foi acompanhado por aumento dos investimentos visando ao aumento da oferta de bens.  Ao contrário: ao elevar as tarifas de importação, e fazer do Brasil a economia mais fechada do mundo, o governo restringiu ainda mais a oferta interna de bens, levando a um encarecimento ainda mais intenso dos produtos.
O problema do Brasil nunca foi de demanda, mas sim de oferta de bens e serviços.  Ao estimular a demanda, mas não fazer nada para incentivar a oferta, o governo criou o primeiro estímulo a uma inflação de preços permanentemente alta.
2) Expansão do crédito dos bancos estatais
Esse segundo fator decorre diretamente do primeiro.  Com a eclosão da crise financeira ao final de 2008, que começou com a quebra do Lehman Brothers, houve um congelamento no mercado de crédito global.  Ato contínuo, os bancos privados brasileiros, por causa desse cenário de grande incerteza, se tornaram mais cautelosos. 
Consequentemente, com o intuito de manter o consumo a todo custo, o governo fez com que os bancos estatais — que estão sob o comando da Fazenda — assumissem uma postura acentuadamente contracíclica.  O Banco do Brasil, a Caixa e o BNDES abriram as torneiras e mantiveram o crédito.  Resultado: o crédito no Brasil passou a ser concedido majoritariamente via bancos estatais, e quase sempre a juros abaixo da própria taxa SELIC.
O gráfico abaixo mostra a expansão do crédito ocorrida no Brasil desde a criação do real. A linha azul mostra o total de crédito concedido pelos bancos privados (Itaú, Bradesco, Santander, HSBC, Citibank e outros pequenos).  A linha vermelha mostra o total de crédito concedido pelos bancos estatais (Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNDES, Banco do Nordeste e outros bancos públicos estaduais, como Banrisul, BRB, Banco da Amazônia, Banestes).
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É nítida a forte inclinação adquirida pela linha vermelha a partir de meados de 2008, assumindo um formato de crescimento exponencial.  Entre 2009 e 2015, o crédito concedido pelos bancos estatais praticamente quadruplicou.
Vale enfatizar que, no nosso atual sistema monetário e bancário, o processo de expansão do crédito gera um aumento da quantidade de dinheiro na economia.  Quando uma pessoa ou empresa pega empréstimo, os bancos criam dinheiro do nada — na verdade, meros dígitos eletrônicos — e simplesmente acrescentam esses dígitos na conta do tomador do empréstimo.  
Ou seja, todo esse processo de expansão de crédito nada mais é do que um mecanismo que aumenta a quantidade de dinheiro na economia.  (Mesmo o BNDES, que antigamente utilizava apenas recursos do FAT, teve sua operação alterada, e agora também se tornou uma máquina de criar dinheiro, ainda que de maneira indireta). 
Explicar o funcionamento do sistema bancário está fora do escopo desse artigo (você pode entender todos os detalhes do sistema bancário neste artigo), de modo que basta dizer que os bancos, quando emprestam dinheiro, criam dígitos eletrônicos do nada, e esses dígitos eletrônicos representam dinheiro. 
Consequentemente, o gráfico acima mostra a quantidade de dinheiro que os bancos (privados e estatais) jogaram na economia.
Além de comprovar que o crédito no Brasil já se encontra efetivamente estatizado — pois o volume de crédito fornecido pelos bancos estatais ultrapassou em muito o volume de crédito fornecido pelos bancos privados —, o gráfico acima mostra que são os bancos estatais os principais causadores da carestia que estamos vivenciando no Brasil.  De 2009 até hoje, eles sozinhos já jogaram mais de R$ 1,25 trilhão na economia brasileira.  Nesse mesmo período, os bancos privados jogaram "apenas" R$ 600 bilhões.
Quanto mais dinheiro eles jogam na economia, maior é a pressão sobre os preços.
E há um detalhe maléfico: os bancos estatais trabalham majoritariamente com uma modalidade de crédito chamada "crédito direcionado".  Isso significa que os bancos estatais são obrigados, pelo governo, a fornecer empréstimos subsidiados pelo Tesouro — a juros bem abaixo da SELIC — para alguns setores escolhidos pelo governo, sendo os principais o setor imobiliário (para aquisição de imóveis), o setor rural, o setor exportador e os barões do setor industrial.
Ou seja, aquela linha vermelha representa um crédito que é alocado de acordo com critérios políticos (Minha Casa Minha Vida, Crédito Rural Empresarial, Pronaf, PRONAMP, FINAME PSI, FIES etc.), ao passo que a linha azul representa um crédito que é alocado mais de acordo com as reais condições de mercado.
Consequentemente, a política de juros do Banco Central não afeta aquela linha vermelha.  Ela afeta apenas a linha azul.  Ou seja, a política de juros do Banco Central atua apenas sobre o crédito livre, que é quase todo fornecido pelos bancos privados.  Quanto mais a SELIC sobe, mais o crédito dos bancos privados é asfixiado, e consequentemente maior é o grau de estatização do crédito.  Isso significa que o combate à carestia via simples aumento da SELIC não funcionará enquanto os bancos estatais estiverem sob comando da Fazenda. 
Em última instância, são os bancos estatais os responsáveis pelos juros serem altos no Brasil.  Dado que o "crédito direcionado" é imune à SELIC e dado que tal modalidade de crédito representa quase metade dos empréstimos feitos no Brasil (veja aqui os juros e o volume total do crédito direcionado, e aqui os juros e o volume total do crédito livre), a conclusão óbvia é que a SELIC tem de estar em um nível duplamente mais alto apenas para encarecer os empréstimos feitos pelos bancos privados e, com isso, reduzir um pouco o processo de criação de dinheiro.
Caso os bancos estatais operassem sob as mesmas leis que valem para os bancos privados, a SELIC seria menor e, consequentemente, os juros cobrados pelos bancos privados também seriam menores do que são hoje; por outro lado, os juros cobrados pelos bancos estatais seriam maiores do que são hoje.  No geral, teríamos taxas de juros (do crédito livre) e de inflação de preços um pouco mais civilizadas.
3) Déficits orçamentários do governo
Quando o governo incorre em um déficit orçamentário — ou seja, quando ele gasta mais do que arrecada com impostos —, o Tesouro emite títulos.  Esses títulos são majoritariamente comprados pelos bancos por meio do processo de criação de dinheiro descrito acima. 
Portanto, os déficits do governo são uma medida inerentemente inflacionária
O gráfico abaixo mostra o total de títulos que o Tesouro emitiu e que ainda estão em circulação.  Ou seja, grosso modo, o gráfico abaixo mostra a quantidade de dinheiro que os bancos criaram para comprar esses títulos.
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Observe que, de 1998 a 2008, o crescimento é linear.  Em 2009, há uma aceleração, decorrente da introdução da política de emitir títulos para financiar o BNDES.  Já em meados de 2014, a emissão de títulos acelera ainda mais, agora em decorrência de o governo estar operando em déficit primário.
Ou seja, essa recente aceleração da emissão de títulos do Tesouro, decorrente da devassidão dos gastos do governo, aumentou ainda mais a quantidade de dinheiro jogado na economia. (Vale ressaltar que esse dinheiro utilizado para comprar títulos do governo não está incluído no gráfico do item 2).
Adicionalmente, vale ressaltar que, na prática, o gráfico representa a evolução da dívida total do Tesouro. 
4) Desvalorização cambial
A taxa de câmbio, que já vinha em contínua desvalorização desde julho de 2011 (desvalorização essa decorrente da contínua inflação de preços), intensificou as perdas a partir de 2015 devido ao risco cada vez mais concreto de o governo brasileiro perder o selo de bom pagador (o investment grade concedido pela agência de classificação de risco Standard & Poor's).
Com a recente notícia de que o governo não conseguirá nem sequer cumprir o já baixo valor do superávit primário prometido para este ano — o superávit seria de 1,1% do PIB, mas será de apenas 0,15% —, a coisa degringolou de vez.
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Com tudo isso, em apenas quatro anos, o dólar saltou de R$ 1,60 para R$ 3,40.
A desvalorização cambial é um fenômeno que gera carestia generalizada em praticamente todos os bens e serviços do mercado interno, pois ela gera um efeito em cascata.  Até mesmo os preços de coisas básicas comoremédiopão e carne encarecem em decorrência de uma alta do dólar.
(A química fina dos remédios é toda importada. O trigo do pão, que também é majoritariamente importado, é uma commodity precificada em dólar. E a carne, que é altamente exportável, encarece pelo fato de que, se o dólar encarece, mais carne é exportada, o que leva uma redução da oferta de carne no mercado interno.  Adicionalmente, o dólar caro também encarece o preço da soja (a soja é uma commodity precificada em dólar e é exportável); e dado que o farelo de soja é utilizado como ração para bovinos, o encarecimento da soja encarece todo o processo de produção.  (Apenas no mês de março, a tonelada do farelo de soja subiu de R$ 1.070 para R$ 1.250).
Quando a carestia é gerada pela expansão do crédito, a renda nominal das pessoas — por causa do aumento da quantidade de dinheiro na economia — tende a aumentar de maneira relativamente simultânea ao aumento de preços.  Já quando a carestia é impulsionada por uma desvalorização cambial, a renda nominal não acompanha os preços, o que gera uma sensação mais imediata de empobrecimento.  Parodiando Mario Henrique Simonsen, a inflação (monetária) aleija; o câmbio mata.
No que mais, ao contrário do que defendem os desenvolvimentistas, uma desvalorização cambial prejudica a indústria nacional.  Qualquer indústria que se preze tem de importar máquinas e bens de capital de qualidade, além de peças de reposição, para produzir seus bens de qualidade.  Se isso puder ser feito a um custo baixo (permitido por uma moeda forte), tanto melhor.  Uma moeda forte permite que as indústrias comprem bens de capital, máquinas e equipamentos de qualidade a preços baixos.  Isso as deixaria mais produtivas, aumentaria a qualidade dos seus produtos, e faria com que eles fossem mais demandados lá fora, ajudando as exportações.
Já uma moeda desvalorizada encarece toda essa operação, fazendo com que as indústrias tenham de pagar mais caro por maquinários de qualidade.  O processo de produção das indústrias é sensivelmente encarecido por uma desvalorização cambial.
Para entender em mais detalhes por que um câmbio desvalorizado prejudica a indústria nacional e gera desindustrialização, ver aquiaqui e aqui.
5) Preços administrados
Esse é o mais óbvio.
De um lado, um mastodôntico esquema de corrupção funcionou durante anos na Petrobras, o que destroçou o capital da empresa.  Ao mesmo tempo em que esse esquema operava, o governo obrigou a Petrobras a vender às distribuidoras gasolina abaixo do preço pelo qual ela foi importada.  E a obrigou também a produzir utilizando uma determinada porcentagem de insumos fabricados no Brasil. O capital da Petrobras, portanto, sofreu um triplo ataque.  Consequentemente, a Petrobras se torna a empresa mais endividada do mundo.
De outro, o governo, em 2012, unilateralmente decidiu revogar os contratos de concessão das empresas de geração e transmissão de energia (os quais terminariam entre 2014 e 2018) com o intuito de fazer novos contratos e impor tarifas menores. 
Com esse ataque às geradoras e transmissoras, as distribuidoras ficaram sem alternativa e tiveram de recorrer ao mercado de energia de curto prazo, no qual os preços negociados são muito superiores em relação aos ofertados pelas geradoras que ficaram sob intervenção. 
As distribuidoras ficaram desabastecidas e endividadas e o Tesouro — ou seja, nós, os pagadores de impostos — começou a repassar dinheiro para as distribuidoras, garantindo artificialmente a política de tarifas baratas.  Isso estimulou o endividamento do governo, mostrado no gráfico do item 3.
Com a insustentabilidade das contas públicas, os repasses do Tesouro às distribuidoras de energia foram abolidos.  As tarifas encareceram, em média, 58%. (Em Porto Alegre e São Paulo, os reajustes ficam acima de 70%; em Vitória e Curitiba, passam dos 80%). 
Ao mesmo tempo, a Petrobras decidiu que já era hora de recompor seu caixa (dizimado tanto pela corrupção quanto pela política de vender gasolina a preços menores que os custos de importação), e o preço da gasolina disparou nas bombas.
Esse impacto da correção dos preços administrados, que ficaram represados por anos, é um dos principais vilões da carestia neste ano de 2015.  E seus efeitos são semelhantes aos de uma desvalorização cambial.
6) Expectativas de inflação
Esse é um fator crucial.
Os cinco itens acima, conjuntamente, fazem com que o cidadão comum — que já passou os últimos 5 anos convivendo com uma inflação constantemente acima da meta — simplesmente imagine que a inflação de preços continuará alta no futuro. 
Ao sentir de maneira cada vez mais evidente a contínua corrosão do seu poder de compra, o indivíduo naturalmente passa a imaginar que a inflação de preços continuará alta e não irá ceder rapidamente.  Trata-se de uma reação automática.  Por que ele iria pensar o contrário?
Essa deterioração das expectativas inflacionárias faz com que os formadores de preço — dentistas, encanadores, advogados, mecânicos, indústrias e comércio — incorporem essa expectativa de que a inflação continuará alta e, consequentemente, reajustem seus preços baseando-se nessas expectativas.
A percepção de que está havendo uma perda real de renda leva a um processo defensivo por parte desses agentes econômicos, que tentam preservar sua renda real por meio de reajustes de preços, salários e contratos. 
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E isso realimenta um contínuo aumento de preços.
Vale ressaltar que o grande culpado por esse descalabro é o próprio Banco Central, que, desde 2011, não apenas não cumpriu sua função autoproclamada de manter a inflação de preços na meta por nenhum ano, como ainda permitiu que a inflação de preços se mantivesse por vários meses acima do teto da meta.  O Banco Central condicionou os brasileiros a criar uma alta expectativa inflacionária.
Por isso os juros dobraram
Os seis itens acima explicam por que a taxa SELIC foi de 7,25% para 14,25% em dois anos e meio.
Ao que tudo indica, o Banco Central atentou-se para o último item, e percebeu que é crucial retornar as expectativas inflacionárias para níveis mais baixos.  Daí a subida mais intensa dos juros observada neste ano, mesmo com uma economia em recessão.
E o fato de o Banco Central estar subindo os juros durante um momento em que a economia já se encontra em recessão vem espantando várias pessoas, inclusive analistas econômicos.  O motivo dessa subida dos juros, ao menos do ponto de vista da teoria econômica convencional, é simples: a inflação está alta e, ainda mais grave, as expectativas inflacionárias para o futuro também estão altas.  A subida dos juros seria a única maneira de o Banco Central — utilizando um jargão econômico favorito da imprensa — "ancorar" as expectativas inflacionárias futuras.
Ou seja, segundo a teoria convencional, mesmo em um ambiente de recessão, e apesar do fato de os preços administrados pelo governo (imunes a juros) terem contribuído enormemente para o forte aumento da carestia, subir os juros é necessário pelo simples fato de a inflação de preços estar alta. 
Adicionalmente, ainda segundo a teoria convencional, há o fato de que um aumento dos juros tende a arrefecer a demanda (inclusive os investimentos, que geram grande demanda) e o emprego.  Esse conjunto de fatores recessivos tende a pressionar os preços para baixo.  Consequentemente, o fato de as expectativas inflacionárias futuras estarem altas piora a situação, pois, para trazer a inflação à meta, a queda da demanda e da atividade econômica, bem como o aumento do desemprego, têm de ser maior do que seriam caso a expectativa estivesse na meta.
Logo, e sempre de acordo com a teoria convencional, a maneira mais rápida de reverter um cenário de deterioração das expectativas de inflação é, de um lado, gerar uma forte recessão, com queda dos salários e aumento do desemprego; e de outro, estimular as pessoas, por meio de um aumento do rendimento das aplicações financeiras, a não se desfazerem da moeda por medo de uma perda do poder de compra,
Esse é o atual plano do Banco Central.
Mas há também outros motivos para a alta dos juros. 
Segundo o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, por causa da deterioração do atual panorama fiscal do governo federal, uma parte dos títulos que o Tesouro põe a leilão já não está conseguindo ser vendida, pois os juros ofertados não são atrativos o bastante.  Isso é outro fator crucial que está forçando os juros para cima.
No final, o nível dos juros praticados por um país depende de uma combinação de uma variedade de riscos: inflação de preços vigente (atualmente em quase 9%), expectativas de inflação futura (ainda altas), situação fiscal do governo (lastimável), solvência do Tesouro (ainda existe), riscos políticos (enormes) e risco de súbita desvalorização cambial (o dólar subiu 51% nos últimos 12 meses; somente em julho, subiu 10%). 
No momento, todos esses itens, como explicado no artigo, estão se manifestando acentuadamente no Brasil.
Quanto piores esses itens, maiores tenderão a ser os juros demandados por quem pretende emprestar para o governo.
O grande problema é que esse aumento de juros tende a gerar um ciclo vicioso: a subida dos juros encarece o serviço da dívida; consequentemente, o Tesouro tem de se endividar (lançar mais títulos) apenas para pagar o serviço da dívida; consequentemente, a dívida do governo aumenta; consequentemente, a relação dívida/PIB, já alta, se deteriora ainda mais; consequentemente, o investment grade do país fica ainda mais em risco.  E tudo isso gera ainda mais desvalorização cambial, o que pressiona ainda mais inflação de preços.
Conclusão: elevar juros tendo uma política fiscal frouxa e trabalhando com câmbio flutuante é quase um suicídio.  Por outro lado, dada a escolha de um arranjo com câmbio flutuante, não há alternativa.
O que poderia ser feito
O atual problema do Brasil está na moeda — a inflação de preços está alta e, consequentemente, os juros estão altos — e na política fiscal do governo.  Isso está, pelos motivos descritos acima, afetando severamente os investimentos.
Estamos em uma sinuca de bico: os juros altos e a confiança em baixa diminuem os investimentos e o consumo.  Isso gera recessão.  A recessão reduz as atividades das empresas e aumenta o desemprego. Isso inibe ainda mais os investimentos e acentua a queda da confiança.  Cria-se então um ciclo vicioso.
A reversão desse cenário passa pelo aumento nos investimentos.  E, dado que é justamente de investimentos que o Brasil precisa, a solução passa por criar um arranjo que estimule os investimentos ao mesmo tempo em que o governo faz seu ajuste fiscal e o Banco Central mantém sua política de (tentar) recuperar a confiança no real.
E isso é possível adotando-se duas políticas relativamente simples de serem implantadas.
De um lado, todo e qualquer investimento estrangeiro deve ser imediatamente liberado.  A nossa salvação está no capital estrangeiro.  Dado que os juros nos países desenvolvidos estão próximos de zero, e dado que esses estrangeiros muito provavelmente fariam qualquer investimento que retorne acima de 5%, é com eles que teremos de contar.  O governo brasileiro, portanto, deveria liberar totalmente a vinda de capital estrangeiro para cá, dando plena liberdade para os estrangeiros investirem onde quiserem, sem tabelar lucros, sem tabelar a taxa de retorno, e acabando com todas as restrições vigentes que impõem um limite para a participação de estrangeiros em vários setores da economia.  (Essas políticas foram explicadas em mais detalhes neste artigo).
De outro lado — e, sem isso, é impossível o sucesso do item anterior —, o governo deve imediatamente liberar o uso de moedas estrangeiras no Brasil.  De nada adianta os estrangeiros estarem liberados para investir aqui se eles forem obrigados a operar exclusivamente com o real.  O simples fato de o câmbio ser flutuante, e de estar em tendência de forte desvalorização, já faz com que qualquer investimento produtivo seja proibitivo. 
Eis um exemplo: em janeiro, quando um dólar custava R$ 2,60, um investidor que tivesse trazido US$ 100 para Brasil converteria para R$ 260.  Hoje, com o câmbio a 3,40, se esses R$ 260 fossem reconvertidos em dólares, o investidor estrangeiro teria apenas US$ 76.  Consequentemente, seus investimentos no Brasil teriam de ter um retorno de 30% em seis meses apenas para ele ficar no zero a zero
Essa é a encrenca do câmbio flutuante.  País de moeda instável é prejuízo certo para o investidor estrangeiro.  A taxa de retorno teria de ser altíssima para que ele se arriscasse a vir para cá.
Se um investidor estrangeiro não faz a menor ideia de qual será o valor do real no futuro, ele não fará investimentos de longo prazo, e se concentrará majoritariamente na especulação financeira, que permite ganhos expressivos em prazos ínfimos.
Por isso, é crucial que o governo libere o uso de moedas estrangeiras no Brasil. Tal arranjo foi adotado com grande sucesso no Peru, que liberou o dólar como moeda corrente.  Ao contrário do que muitos temiam, a moeda nacional peruana se fortaleceu com a medida, e os juros nacionais caíram acentuadamente.  Além de a concorrência estimular tanto o Banco Central quanto o governo a serem mais prudentes e responsáveis, o próprio aumento da oferta de moeda estrangeira tende a apreciar a moeda nacional.
Mais detalhes sobre esse processo estão descritos neste artigo.
Sem essas duas medidas tomadas conjuntamente, resta-nos apenas torcer para que impere o bom senso em Brasília (não prenda a respiração) e que esse ajuste não seja tão demorado quanto se estima (já há um consenso de que haverá estagnação até 2018).
Conclusão
Uma recessão econômica, por si só, já é um fenômeno delicado, que exige racionalidade política.  Um governo excepcionalmente bom (se é que isso é possível) pode apenas não atrapalhar a economia.  Já um governo incrivelmente ruim pode exacerbar completamente uma situação econômica já complicada.
Estamos em um cenário de muita incerteza, pouco investimento, baixa produtividade, recessão, desemprego, crise energética e crise hídrica.  Para ficar mais gostoso, há uma crise política que já virou crise policial, o que aumenta ainda mais a paralisia da economia.
Mas há ao menos uma boa notícia em meio a tudo isso: esse experimento ultrakeyensiano da Nova Matriz Econômica — o qual, como dito lá no início, era inevitável — fracassou não apenas de forma fragorosa e brutal, como também de maneira rápida. 
A ideia de recorrer a uma maior intervenção governamental para aditivar o crescimento econômico sob a direção de Brasília não apenas gerou todos os descalabros citados, como ainda fez com que, no final, a taxa básica de juros voltasse a patamares que vigoravam há nove anos.
Com alguma sorte, novas aventuras heterodoxas desse tipo não serão novamente tentadas nas próximas duas décadas.

Capitalismo - a grande invenção da humanidade (Lew Rockwell)














A era das trevas, a era da veneração do estado — mais especificamente, a sangrenta era do comunismo, do nacional socialismo, do fascismo e do planejamento central — infelizmente não ficou restrita apenas aos livros de história.  Os fenômenos ocorridos nos últimos cinco anos ao redor do mundo mostram que a liberdade e o bem-estar da humanidade estão sob sério risco de voltar a ser esmagadas pelos governos.  E o que é pior: dessa vez, planeja-se um ataque coordenado em escala mundial.

Nunca foi tão necessário conscientizar as pessoas da realidade e reafirmar nossa lealdade à liberdade humana, que é a base da prosperidade e da própria civilização.  Para isso, é necessário o repúdio geral e incondicional a todas as forças ideológicas que se opõem a ela.

Os primeiros ataques empreendidos pelos inimigos da liberdade vieram ainda no início do século XX, com a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Bolchevique.  Esses dois eventos acabaram com a esperança e o ânimo de toda uma geração de liberais clássicos, pois interromperam de forma sangrenta e dolorosa séculos de progresso rumo à paz e à liberdade.  Aqueles homens entenderam algo que hoje nós próprios ainda não entendemos: os momentos da história humana caracterizados pelo conforto, pela segurança e pela prosperidade infelizmente são raros.

E a realidade é que, para as massas, a história do último milênio foi uma história de fome, escassez e doenças.  Na Inglaterra do século XII, por exemplo, ocorria uma crise de inanição generalizada a cada 14 anos.  Do século XIII ao século XVII, a escassez de alimentos aparecia a cada 10 anos.  Já nos dias de hoje, quando se fala em 'tempos difíceis', isso nada tem a ver com surtos de fome, inanição e doenças letais — exceto em países da África, onde não há nem resquícios de capitalismo.  Esses episódios, comuns àquela época, mataram dezenas de milhões, e obrigaram as pessoas a comer cachorros e cascas de árvores.

E mesmo aqueles que não sofriam com a fome também não viviam com conforto.  Para a maioria das pessoas, as casas eram minúsculas, com um buraco em seus tetos de junco e palha para permitir que a fumaça saísse.  As cidades tinham apenas uma bomba d'água, que era a fonte de toda a cidade.  A rede sanitária era precária, e surtos de lepra, escorbuto e tifóide eram coisas comuns e esperadas.  As pessoas se consideravam abençoadas quando seu filho conseguia sobreviver ao primeiro ano de vida, e eram muito poucos os adultos que passavam dos 30 anos de idade.

Oportunidade econômica era algo desconhecido, assim como a ideia de se ter uma prosperidade material em contínuo avanço. A primeira ruptura nessa longa história de sofrimento aconteceu com o surgimento das sociedades comerciais da Espanha e do norte de Itália, e depois com a revolução industrial na Grã-Bretanha.  As pessoas passaram então a fugir em manada do interior rural em direção às fábricas.  Hoje os historiadores dizem que as condições de trabalho nessas fábricas eram deploráveis, com longas e duras horas de trabalho.  Sim, mas qual o padrão de comparação?  As condições eram ruins comparadas a quais outras?  A alternativa para a maioria das pessoas era viver como um indigente ou como uma prostituta — ou morrer de fome nas áreas rurais.

Muito pouca atenção é dada aos heróicos proprietários das primeiras fábricas.  Eles geralmente eram pessoas humildes, que incorreram em enormes riscos empresariais e que reinvestiam seus lucros na expansão das fábricas, em benefício dos trabalhadores.

Eles conseguiram abrir suas fábricas mesmo sob forte oposição das elites já estabelecidas, que não queriam concorrência e que os acusavam de estar enchendo a cidade de "gentalhas" e "ralés".  O único apoio intelectual que esses empreendedores tinham vinha dos economistas liberais clássicos, que perceberam que essa iniciativa empreendedorial representava liberdade e prosperidade para o homem comum.

O que estava sendo produzido nessas fábricas? Não eram bens para a nobreza, mas vestuários e equipamentos utilizados pelas pessoas comuns para melhorar sua vida diária.  Como disse Mises, essa foi a primeira vez na história em que a produção em massa foi feita para as massas.

A população da Inglaterra dobrou no século seguinte à Revolução Industrial — prova evidente de que tal revolução expandiu dramaticamente o padrão de vida das pessoas comuns.  Em nossa geração também pudemos testemunhar uma extraordinária evolução da livre iniciativa sempre e onde quer que a liberdade tenha sido permitida.  Apenas considere que, em 1900, a expectativa média de vida no mundo era de 30 anos.  Hoje, essa média é maior que 65.  É isso o que explica o extraordinário aumento da população global.

Mas qual foi a causa fundamental dessa revolução?  O desenvolvimento econômico, que nos trouxe alimentos abundantes, boa nutrição, saneamento e um grande avanço medicinal.  E, no entanto, analise nosso comportamento atual: simplesmente assumimos que restaurantes, bares, lanchonetes e supermercados com enormes variedades são coisas comuns, que sempre existiram e sempre existirão.  Ficamos irritados quando acaba o estoque de picanha do supermercado, e sequer tocamos na alface que já murchou na prateleira. Deveríamos ter em mente que somos apenas a terceira ou a quarta geração na história do mundo que tem acesso rotineiro a essas coisas "banais" todos os dias do ano.

E qual é, por sua vez, a causa de todo esse desenvolvimento econômico?  Essa tão vilipendiada instituição chamada capitalismo, uma palavra que significa nada mais do que liberdade de gerir a sua propriedade, de fazer trocas voluntárias e de inovar.  O capitalismo se mostrou o mais espetacular motor do progresso humano, e sua expansão foi a maior ideia dos últimos séculos.  Todo o conforto material de que desfrutamos hoje devemos à economia de mercado, que talvez seja o menos compreendido e mais atacado alicerce da vida civilizada.

Mas por que o capitalismo, a economia de mercado e a liberdade, com todos os seus benefícios intrínsecos e óbvios, precisam de uma implacável e inflexível defesa intelectual?  Por causa de declarações como esta:

A legitimidade do capitalismo global como sendo o sistema dominante de produção, distribuição e trocas será erodida ainda mais, até o nervo central de seu sistema...; embora os vilões já tenham sido abundantemente apontados, todo o problema central está na dinâmica desse sistema capitalista global, desregulado e voltado para as finanças.

As palavras acima são do sociólogo e economista Walden Bello, mas em nada diferem das palavras normalmente proferidas por Paul Krugman, Joseph Stiglitz, acadêmicos, intelectuais e por todos à esquerda, à direita e ao centro. Certamente, essa convicção de que o problema está no sistema de mercado é acolhida gostosamente por todos os burocratas que atualmente regulam a economia e provavelmente por quase todos os professores universitários mundiais.

"O capitalismo precisa de consciência", dizem em uníssono, pois de outra forma acabará sendo consumido pela "ganância destrutiva" dos capitalistas.  Alan Greenspan, o responsável-mor pela crise financeira, concorda entusiasmadamente, acrescentando que quando a ganância torna-se "infecciosa", ela desestabiliza os mercados.

"Esse capitalismo desregulamentado tem de acabar",esperneia a mídia, sempre desnorteada, exigindo que os governos e seus bancos centrais assumam o controle (o qual nunca abandonaram) e apliquem regulamentações punitivas ao mercado, dando-lhe uma "consciência" e acabando com essa"ganância infecciosa".

A maior regulação das economias e dos mercados financeiros é apenas o começo.  Os gastos governamentais e as dívidas dos governos ao redor do mundo estão em franco descontrole. Clamores por mais protecionismo já estão sendo atendidos em vários países.  O estado policial já está atacando os indivíduos que ousam manter sua segurança e privacidade.  Países que até então zelavam pela privacidade de seus habitantes — como a Suíça — foram abertamente ameaçados pelas grandes potências, que consideram intolerável a ideia de sigilo bancário, e tiveram de ceder à ameaça.  Com a arrecadação não acompanhando o aumento dos gastos, políticos ameaçam colocar na cadeia empresários sob qualquer suspeita de 'sonegação', que nada mais é do que o pecado supremo de querer manter para si os frutos de seu próprio trabalho.

Vamos deixar de lado nesse artigo todas as evidências (relatadas aqui e aqui) de que o atual colapso econômico é uma consequência óbvia da intervenção governamental na moeda, nos juros, nos mercados de crédito, bem como da própria regulação dos mercados financeiros.  Em vez de nos centrarmos nessas obviedades, vamos nos concentrar apenas nas críticas e protestos feitos pelos que defendem mais regulamentações.

Eles dizem não querer erradicar a economia de mercado e nem substituí-la pelo socialismo; eles querem apenas melhorá-la, deixá-la mais transparente, torná-la mais honesta e salvá-la de si própria.  Essa é a argumentação favorita dos moderados, que se dizem a favor do mercado, mas contra um capitalismo sem controles. (A óbvia contradição entre mais controle estatal e mais honestidade e transparência é algo que aparentemente lhes escapa).

A pergunta fundamental que deve ser feita a essas pessoas é: vocês acreditam que o capitalismo é maculado pelos pecados dos indivíduos — sendo que, nesse caso, nenhum sistema social poderia ser melhor, uma vez que todos são compostos por indivíduos pecaminosos —, ou vocês acreditam que há um pecado intrínseco ao capitalismo em si e que este pode ser suprimido pelo estado?

A resposta deles é óbvia.  Afinal, se estamos falando de pecados individuais, o mercado foi brutal em sua punição.  Da mesma forma que, durante a expansão artificial fomentada pelo crédito fácil, as pessoas ignoraram preocupações básicas como histórico de crédito, viabilidade dos investimentos e rentabilidade das empresas, tão logo a expansão chegou ao fim e deu-se início à recessão, o mercado logo se prontificou a fazer uma caça àquelas empresas e pessoas que cometeram erros, que investiram no que não deveriam e que deram dinheiro para quem não podia pagar.  O grande problema é que este expurgo não pôde ser completado em decorrência das intervenções governamentais e de seus infindáveis programas de socorro, tanto por meio do aumento dos gastos quanto por meio da redução dos juros.

Não importa se o problema foi ganância, erro ou apenas um mau prognóstico, os mercados são implacáveis.  A bancarrota será o resultado.  Os governos podem apenas postergar o inexorável.  Que estejam utilizando dinheiro dos pagadores de imposto para tentar adiar os problemas e salvar empresas com boas conexões políticas é algo que, além de imoral, trará resultados maléficos mais pra frente.  Nenhuma instituição — e certamente não o governo — tem um maior desejo de se corrigir a si própria do que o mercado.

Entretanto, se você acredita que há algum pecado no cerne do capitalismo, então de fato não faz sentido permitir que o mercado se policie a si próprio.  Você certamente irá querer deixar tal serviço para políticos e burocratas.  A consequência será inevitável: uma vez que os reguladores estiverem livres para "corrigir" a economia de mercado, não haverá fim à quantidade de falhas e defeitos que a classe política — para proveito próprio — irá descobrir e tentar corrigir.

O resultado final serão mercados restringidos e aleijados até o ponto em que não conseguirão fazer o que supostamente devem fazer.  Na melhor das hipóteses, teremos uma sociedade imóvel, burocratizada e paralisada, com escassez de inovações e oportunidades, tendo de sustentar um estado assistencialista improdutivo e recheado de corrupção política. Isso, por sua vez, irá infectar toda a mentalidade das pessoas, encorajando uma atitude de dependência e de resignação, algo contrário ao espírito empreendedor, que é o que traz desenvolvimento.

E isso — a cultura da dependência — é também um dos maiores problemas da atualidade, gerado justamente pela difusão de ideias anticapitalistas e estatizantes.  Por exemplo, dentre as principais objeções à idéia de uma sociedade de mercado está a de que os mais incapazes serão deixados para trás, ficarão pobres e não terão ninguém para cuidar deles. Uma resposta fácil a essa questão seria dizer que a caridade privada poderia cuidar disso; no entanto, quando olhamos ao nosso redor, vemos as instituições beneficentes fazendo apenas tarefas comparativamente pequenas. O setor simplesmente não é grande o suficiente para cuidar da parte que o governo se omite em fazer.

É aqui que se requer imaginação. O problema é que as atividades do governo inibem as atividades privadas e reduzem os serviços do setor privado para níveis menores do que seriam em um livre mercado. Antes da era do assistencialismo, as instituições de caridade do século XIX formavam uma vasta operação cujo tamanho era comparável ao das maiores indústrias. Elas se expandiam de acordo com as necessidades. Eram em grande parte supridas por igrejas através de doações, e a questão ética estava lá: todos davam uma porção do orçamento familiar para o setor caritativo. Uma freira como Madre Cabrini chegou a cuidar de um verdadeiro império beneficente.

E então veio a era progressista, e a ideologia mudou. A caridade passou a ser considerada um bem público, algo a ser estatizado. O estado começou a invadir um território até então reservado ao setor privado. E à medida que o assistencialismo estatal cresceu durante o século XX, o tamanho comparativo do setor privado diminuiu.  Vejam a situação trágica de Europa, justamente o continente que deu à luz aos serviços de caridade. Hoje, poucos europeus doam para a caridade porque todos têm a crença de que esse é um serviço para o governo. Além do mais, tendo que pagar impostos abusivos, realmente não sobra muito para doações.

Parece absurdo ter de dizer isso, mas a legitimidade do capitalismo não está em questão.  Não fosse a misteriosa persistência desse viés anticapitalista, já estaria perfeitamente claro para todos que as únicas instituições que devem ser seriamente questionadas atualmente são os governos (reguladores, tributadores, burocráticos e protecionistas) e seus bancos centrais — estes, os causadores da bagunça; aqueles, os inibidores da recuperação.

Pense bem na histeria que vivenciamos nos últimos cinco anos, a quem direcionaram a culpa e a quem pediram soluções, e você terá a perfeita definição de um mundo às avessas.  É algo não apenas incrível, como também assustador.  A economia de mercado criou uma prosperidade incomensurável e, década após década, século após século, gerou miraculosos feitos de inovação, produção, distribuição e coordenação social.  Ao livre mercado devemos toda a nossa prosperidade material, todo o nosso tempo de lazer, nossa saúde e longevidade, nossa enorme e crescente população e praticamente tudo o que chamamos de vida em si.  O capitalismo, e apenas o capitalismo, salvou a humanidade da pobreza degradante, das enfermidades desenfreadas e da morte prematura.

Na ausência da economia capitalista e de todas as suas instituições essenciais, a população mundial iria, com o passar do tempo, definhar até uma pequena fração do seu tamanho atual, sendo que o que sobrasse da raça humana seria sistematicamente reduzido à subsistência, comendo apenas o que pudesse ser caçado ou acumulado.  Mesmo a instituição que é em si a fonte da palavra civilização — a cidade — depende das trocas e do comércio, e não poderia existir sem isso.

E isso é apenas para mencionar os benefícios econômicos do capitalismo.  Mas o sistema também é uma expressão de liberdade.  Ele não é exatamente um sistema social; ele é o resultado natural de uma sociedade em que os direitos individuais são respeitados, em que as famílias, os negócios e toda forma de associação podem se desenvolver sem coerção, roubo, guerra e agressão.

O capitalismo puro protege o fraco do forte, e garante liberdade de escolha e de oportunidade para as massas que antes não tinham outra opção senão viver em um estado de dependência em relação àqueles que detinham os poderes políticos.

Compare o histórico do capitalismo com o do estado, que, apenas no século passado, matou centenas de milhões de pessoas com seus campos de concentração, suas guerras e com a fome provocada tanto pela economia planejada quanto deliberadamente, como estratégia política.  E o próprio histórico do tipo de planejamento central que agora está sendo imposto ao mundo é totalmente abismal.

Sempre que o estado tentou erradicar alguma coisa — desemprego, pobreza, drogas, ciclos econômicos, analfabetismo, crime, terrorismo —, ele acabou gerando mais daquilo, muito mais do que seria gerado caso ele não tivesse feito absolutamente nada.

O estado nunca criou nada de bom.  Foi o mercado quem criou tudo.  Mas se a economia entra em recessão e o desemprego sobe, o que acontece?  Os principais intelectuais se assanham e saem propagando novamente que a Revolução Bolchevique foi uma ótima ideia, ainda que os resultados não tenham sido bem aqueles que os idealistas desejavam.  Todos começam a dizer que devemos repensar todas as bases da própria civilização.

Em toda sociedade há ganância, fraude e roubo.  Nas sociedades socialistas, quando esse tipo de comportamento é denunciado — não obstante a regra nestas sociedades seja a luta contínua e sanguinária pelo poder —, poucos se importam. Alguns até atribuem isso aos resquícios de pensamento capitalista.  Agora, quando esses vícios são denunciados em economias relativamente livres, a gritaria é inevitável: acabem com a liberdade de troca e coloquem o estado no comando!

Por fim, voltando à pergunta original: por que o capitalismo, a economia de mercado e a liberdade, com todos os seus benefícios intrínsecos e óbvios, precisam de uma implacável e inflexível defesa intelectual?

Considere a descrição que Ludwig von Mises fez da cultura intelectual predominante em 1931, quando o mundo ia se afundando na depressão econômica:

O sistema econômico capitalista, que é o sistema social baseado na propriedade privada dos meios de produção, é hoje rejeitado unanimemente por todos os governos e partidos políticos.  Mas nenhum acordo foi feito em relação a qual sistema econômico deve substituí-lo no futuro.  Muitos, embora nem todos, veem o socialismo como o objetivo final.  Eles teimosamente rejeitam o resultado do exame científico da ideologia socialista, o qual demonstrou a impossibilidade econômica do socialismo.  Eles se recusam a aprender com os experimentos socialistas da Rússia e de outros países europeus.

Entretanto, considerando-se os objetivos das atuais políticas econômicas, parece haver um completo acordo entre as partes.  A finalidade é um arranjo econômico que supostamente represente uma solução conciliatória, um "meio-termo" entre socialismo e capitalismo.  Não há a intenção de abolir a propriedade privada dos meios de produção; a propriedade privada poderá continuar existindo, embora sendo regulada, controlada e tributada, e tendo suas aplicações direcionadas pelo governo e por outros agentes do aparato coercivo do governo.  Com relação a esse sistema intervencionista, a ciência econômica demonstra com indiscutível lógica que ele é contrário à razão; demonstra que essas intervenções, que objetivam moldar o sistema, jamais poderão cumprir os objetivos que seus proponentes esperam alcançar, e que cada intervenção terá consequências inesperadas e indesejáveis.

Após Mises ter escrito isso, o fascismo se intensificou na Itália e o Terceiro Reich começou seu programa de extremo intervencionismo, militarismo e protecionismo na Alemanha.  O New Deal chegou aos EUA e tudo terminou em uma guerra mundial e em um holocausto.  Quanto você acha que as coisas realmente mudaram de lá pra cá?  O ódio ao mercado deve ser retaliado com a defesa da liberdade, em todas as gerações. Não é nenhum exagero dizer que nossas vidas dependem disso.

O PT não é igual aos outros partidos: é muito pior! (RC)


Acho engraçada a defesa que petistas e simpatizantes fazem do PT hoje, alguns fingindo até que estão criticando a legenda. Do “nunca antes na história deste país”, eles pularam para o “sempre antes na história deste país”, tentando passar a impressão de que o PT é “apenas” como os demais, que se corrompeu, que não resistiu à tentação, que se desviou de seus propósitos. Já cansei de mostrar aqui que não é nada disso, mas como o lado de lá continua insistindo na “tese”, preciso ser repetitivo.
É o caso do jornalista Luiz Garcia, de esquerda, que em sua coluna de hoje “critica” o PT com esse argumento, aproveitando para elogiar sua trajetória. Por sua ótica, o grande pecado do PT foi se desviar de seu passado de luta pelas massas, e se tornar mais um corrupto, como os outros. Diz ele:
No episódio mais recente, ficamos sabendo que o Partido dos Trabalhadores, mais conhecido por PT, tem trabalhado com grande entusiasmo para encher os bolsos de uma turma que certamente não se identifica com as ideias e propostas com que foi criado.
Alguns eleitores indignados talvez digam que o PT finalmente mostrou que é farinha do mesmo saco. Ou seja, o partido está apenas se igualando à maioria dos outros partidos. O tal saco, pelo visto, teria farinha para todos. E seria irresistível para políticos de todos os continentes.
[...]
Quando nasceu, o PT foi visto por muita gente boa como um partido que serviria para melhorar o nosso sistema político, já que representaria a grande massa de operários, que até então não tinha quem defendesse seus interesses.
Foi o que ele fez, durante muito tempo. Hoje, é com uma mistura de tristeza e indignação que vemos algo bem diferente: ele serve, talvez até com mais entusiasmo, aos interesses pessoais de uma grande fatia de seus quadros políticos.
[...]
Podemos ter algum consolo lembrando que o saco é universal. Seja como for, sempre vale a pena buscar, em todas as eleições, candidatos que não moram nele. Não é fácil, mas, quem sabe, a gente talvez consiga encontrar, pelo menos, políticos que ainda não se tenham corrompido. E que prestem atenção a um aviso por enquanto amistoso: “Vamos ficar de olho em você.”
O PT não mudou; apenas se revelou no poder. Lamento a todos os que acreditaram nos discursos petistas no passado: foram ludibriados, foram ingênuos, deixaram o romantismo falar mais alto do que a experiência, blindaram-se contra a lógica e a razão em nome das emoções, partiram para o monopólio das virtudes. O PT nunca representou de fato as massas; ele sempre as usou em sua retórica, apenas isso. Ele enxerga as massas como algo manipulável para seus fins políticos. Era um partido de “intelectuais” que não pensavam, de estudantes que não estudavam, e de sindicalistas que não trabalhavam.
E sempre foi oportunista, “revolucionário”, disposto aos meios mais nefastos para chegar e ficar no poder. Basta ver seus camaradas, seus companheiros: ditaduras comunistas, guerrilheiros que sequestram e vendem drogas em nome da causa, terroristas que matam inocentes, mas gozam da estima dos pares porque o fazem com uma foice e um martelo estampados no peito. O PT fundou o Foro de São Paulo em 1990! Não dá para alegar ignorância. O simpatizante se deixou enganar, pois se sentia melhor, mais puro, “consciente”, ligado ao “povo”, só por defender o PT.
Seus métodos corruptos já tinham sido expostos no governo gaúcho, antes da chegada ao governo federal. Antes mesmo, no sindicalismo torpe e oportunista. Em conluio com máfias do lixo, com bicheiros. O PT não viu sua bandeira ética se esgarçar no poder; ela apenas veio à tona toda corroída pelas traças, mas já era uma bandeira falsa. Ou alguém acha que José Dirceu, que se apresentou para a mulher após quatro anos de “casamento” depois da anistia, treinado em Cuba, era um romântico sonhador que lutava pelas massas e foi corrompido no poder? Sério?
O PT nasceu torto, mas muitos preferiram ignorar em nome da utopia, do monopólio das virtudes. O PT não é “apenas” igual aos outros; ele é muito mais corrupto, justamente porque rouba em nome da causa, com a consciência tranquila do “bom revolucionário”, de quem faz tudo “pelo povo”. Por monopolizar a bandeira da ética e ser, na prática, o mais corrupto, o PT é o pior de todos. Por ser tão cínico, por flertar com ditaduras, por não respeitar as regras do jogo democrático, por demonizar os adversários de forma pérfida, o PT é o pior de todos.
O jornalista de esquerda acha que o PT mudou, e que a lição é, agora, “ficar de olho”. Provavelmente ele defende um PSOL da vida, mostrando que não aprendeu absolutamente nada. Quer uma vez mais buscar a “pureza”, ainda que num discurso hipócrita e na defesa de meios que sempre levarão a mais corrupção, por concentrar poder no estado e por fornecer aos bandidos um salvo-conduto para o crime, pois feito em nome da causa “nobre”.
Se o PT fosse “apenas” tão ruim quando os demais, o Brasil não estaria nessa situação calamitosa. Está porque é governado há tempo demais por uma quadrilha disfarçada de partido político, por uma turma que abraça ditadores assassinos, que defende bandidos abertamente, que protege terroristas, que “faz o diabo” para ficar no poder. José Dirceu é a cara do PT. Alguém realmente está disposto a sustentar que ele era um idealista que “se corrompeu”, e hoje é “somente” tão ruim quanto os demais políticos brasileiros?

Criticar o PT, agora, é fácil ( PERCIVAL PUGGINA)

Outros, depois de haver preparado o caminho do petismo ao poder como esfregadores de gelo no jogo de curling, e segurado a barra ao longo de 13 anos, agora se posicionam contra. Mas não mudam de lado!

Com a crise multiforme se expandindo em todas as dimensões da vida política, econômica e social, com os escândalos vindo a lume como saem os lenços, amarradinhos um ao outro, da cartola do mágico, com a crise pedindo passagem a bordoadas e deixando pelo caminho as vítimas da inflação, da recessão e do desemprego, aí, meu caro leitor, é muito fácil criticar o governo petista.
Dureza foi apontar os males do petismo quando, antes de assumir poder político real, ele era o megafone de todas as reivindicações, perante os portões das fábricas e dos palácios. Difícil era confrontá-lo quando, como grande inquisidor das condutas de seus adversários, orientava os mais candentes sermões em favor - lembram? - da moralidade e da austeridade. O petismo, então, se vestia de justiça, solidariedade, direitos humanos, superação dos desníveis sociais; e atraía multidões. Os ouvidos da CNBB, por exemplo, se encantaram para sempre. A partir de então, vá o partido para onde for, a entidade marcha ao seu lado. Até frei Betto largou o PT de mão. Mas a CNBB, não.
À luz da história, analisando partidos políticos com condutas semelhantes, era fácil perceber para onde estávamos sendo conduzidos. Ante o que acontecia no Brasil, não. Aqui, tendo em vista a fragilidade das nossas instituições e a pouca credibilidade dos partidos políticos já afeitos ao exercício do poder, era mais complicado perceber que o petismo significava o canto das sereias, atraindo a nação para os rochedos e para o naufrágio.
Em 2003, o PT chegou ao poder e em 2005, quando estourou o mensalão, tornou-se comum encontrar com leitores que me paravam na rua para afirmar que eu profetizara. Mas era bem o contrário. Bastavam as entrelinhas e o entreouvido e, principalmente, ler o passado. Aquelas ideias e aquele modo de fazer política, em toda parte, produziram o resultado que passávamos a observar por aqui. Não obstante, foram necessários outros 12 anos, um descomunal estrago, e uma crise do tamanho da que aí está, para que, finalmente, ampla maioria da população compreendesse o que já deveria estar bem sabido.
"Coxinhas! Golpistas! Lacerdinhas! Ultradireitistas! Fascistas!". É assim que argumentam, hoje, muitos defensores do governo. Xingam os que afirmam algo tão óbvio quanto que o governo acabou e que as instituições precisam resolver a encrenca. Conduta rasteira, chã, mas eu os entendo. Não há argumento que lhes lave as mãos e lhes limpe os calçados. Outros, depois de haver preparado o caminho do petismo ao poder como esfregadores de gelo no jogo de curling, e segurado a barra ao longo de 13 anos, agora se posicionam contra. Mas não mudam de lado! Para estes, o governo não serve. E a oposição tampouco. São os mais perigosos porque se alinharão, ao fim e ao cabo, com algo ainda pior do que isso que aí está.

Vê se toma tenência e vergonha na cara, FHC! (RC)


Assim não dá. Assim não é possível. Se fosse para escolher uma só oposição, qual você escolheria? Ora, o PSDB representando por FHC, claro! Uma “oposição” dessas até Fidel Castro aceitaria em Cuba! O Brasil vive a “tempestade perfeita”, os escândalos de corrupção chegaram até o cangote da presidente Dilma, que já não tem apoio algum. A economia desce ladeira abaixo por conta das trapalhadas passadas e da inoperância presente do governo. O PT passa a ser desprezado pela população que pensa. E o que faz Fernando Henrique? Elogia Dilma! Novamente, com aquela entonação de voz dele: Assim não dá. Assim não é possível.
Leio na Exame que o ex-presidente, em entrevista a uma revista alemã, baixou o tom e saiu em defesa da presidente Dilma. Estou com alguma esperança, minúscula, confesso, de que seja um problema de tradução. O entrevistador não compreendeu direito. Só pode ser isso! Alemão é uma língua difícil mesmo, tentei aprender por seis meses e sei do que falo. Pois, tirando essa hipótese, o que temos é um “líder de oposição” que mais parece um companheiro, um camarada escalado pela própria Dilma para aliviar sua barra nesse momento delicado. Vejam:
De acordo com a DW, FHC disse na entrevista, publicada em alemão na edição da revista deste sábado, 1º, que Dilma não está envolvida nos desvios da estatal petrolífera, mas que o PT está. Ele lembrou que João Vaccari, ex-tesoureiro da sigla, foi detido na operação.
“Eu a considero uma pessoa honrada, e não tenho nenhuma consideração por ódio na política, também não pelo ódio dentro do meu partido, ódio que se volta agora contra o PT”, diz FHC, creditando a Lula a responsabilidade por todo o escândalo.
E disse que talvez Lula tenha que depor como testemunha, “o que já seria suficientemente desmoralizante”.
“Não se deve quebrar esse símbolo (Lula), mesmo que isso fosse vantajoso para o meu próprio partido. É necessário sempre ter em mente o futuro do país”, disse o ex-presidente tucano na entrevista.
FHC chegou até a elogiar o petista: “Ele certamente tem muitos méritos e uma história pessoal emocionante. Um trabalhador humilde que conseguiu ser presidente da sétima maior economia do mundo.”
Como é que é? Dilma, uma pessoa honrada? Em que planeta? Sua trajetória é a de uma terrorista, assaltante, disposta aos meios mais nefastos não para defender a democracia, mas para impor o comunismo! Depois foi eleita como um “poste”, sem jamais ter recebido votos e com a única experiência administrativa de ter quebrado uma lojinha de bugingangas. Foi reeleita depois com muito abuso da máquina estatal e o estelionato eleitoral em curso. Uma pessoa honrada? O que FH entende por honra, meu Deus?!
Lula também recebeu elogios? Não se deve quebrar um símbolo? Qual símbolo? O de um sujeito imoral, indecente, cínico e mentiroso, disposto a “fazer o diabo” para ficar no poder? Ou o de um populista safado amigo dos piores ditadores do planeta? É esse símbolo que FH quer tanto preservar em prol do nosso futuro? Um futuro bolivariano, talvez? Quais foram os méritos de Lula em sua trajetória? Quem diz isso tem um conceito muito diferente do meu sobre mérito!
Vê se toma tenência, FH! Vai mesmo se afundar junto do PT? Seu ranço socialista ainda é tão grande assim? Não é capaz de compreender o momento em que vive o Brasil, a indignação popular com essa cambada de ladrões, a revolta com o caos social e econômico plantado pelo governo? Não sente os ventos de mudança, que não deixam mais espaço para uma “oposição” covarde, pusilânime, “amiguinha” que tenta salvar a cara dos vilões de nossa democracia? Não aprendeu com os erros de 2005 no mensalão? Vergonha na cara, FH! Ou vai abraçar os afogados e descer junto com eles para o fundo do pântano, de onde tais criaturas jamais deveriam ter emergido!