segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Humor nos tempos modernos.Ou:"Tese de doutorado defende que dar o bumbum pode ajudar na ressocialização de criminosos"(Joselito Muller)

Imagem“O exemplo do personagem da novela do Walcyr Carrasco não existe só na ficção. Conheço pessoas que ao saírem do armário, ao darem a bunda pra rapaziada, se tornaram pessoas melhores”. Assim o professor Sergay Rodela de Melo sintetizou o conteúdo de sua tese de doutorado em ciências sociais.
Para ele, o personagem Felix, de Amor à vida, “simbolizou muito bem como uma pessoa mal resolvida pode se tornar má. Foi só assumir ser praticante do homossexualismo para se transformar de vilão em mocinho”, afirma.
Segundo Sergay, a política de incentivo à prática da pederastia poderia ajudar na ressocialização de presos perigosos.
“Se funcionou na novela, vai funcionar na vida real”, afirma.
As declarações do doutorando não agradaram a todos, mas recebeu o apoio da Associação dos Pederastas de Brasília, que afirmou que seus “sócios compartilham desse entendimento e dessa prática há muito tempo, por isso que são pessoas tão legais e alto astral”.

Desmitificando alguns mitos sobre bancos centrais(Gerald P. O’Driscoll,)


D1709BB1.jpgO moderno sistema mundial de bancos centrais se sustenta sobre mitos.  E, como vários mitos, eles contêm um elemento de verdade que foi distorcido pelo exagero e pelo uso indevido. 

Em dezembro de 2013, o Banco Central americano, o Federal Reserve — aquela máquina que, ao inundar o mundo de dólares, obriga os bancos centrais de outros países a adotarem a mesma política monetária para evitar valorizações cambiais, e que, ao adotar a política inversa (aumento de juros), os obriga a seguir o mesmo padrão — completou seu 100º aniversário.  A ocasião, portanto, é apropriada para se desfazer alguns mitos persistentes.
O primeiro mito é o de que bancos centrais são intrinsecamente necessários para o funcionamento das economias de mercado.  Tanto a teoria quanto a história contrariam e desmentem isso.  Peguemos os exemplos dos bancos centrais mais famosos do mundo.
O Federal Reserve só foi criado em 1913, o que significa que durante o período de maior enriquecimento da história americana — 1865 a 1913 — não havia nenhum banco central.  Mais ainda: quando foi criado, o Fed não possuía a função de gerenciar a oferta monetária do país.  Os EUA ainda operavam sob um padrão-ouro clássico e, sendo assim, não havia necessidade de se ter um banco central para controlar a oferta monetária.  O uso do ouro, ou de qualquer outra commodity, como moeda impõe uma limitação natural à criação de dinheiro, limitação essa representada pelo custo de se extrair da natureza quantidades adicionais desta commodity.  É apenas quando se adota dinheiro de papel e sem nenhum lastro em commodity (o chamado dinheiro fiduciário), que os bancos centrais adquirem a função de controlar a oferta monetária.  E é exatamente este gerenciamento da oferta monetária — que leva a uma criação cíclica de dinheiro — o que gera os ciclos econômicos que fustigam as economias de mercado. 
O Banco Central do Canadá só foi criado em 1935.  O sistema bancário canadense passou incólume à Grande Depressão, não registrando nenhuma grande falência bancária.  Em contraste, milhares de bancos americanos quebraram, não obstante a existência do Federal Reserve.  Essas falências bancárias em larga escala só acabaram porque Franklin Roosevelt decretou feriado bancário e criou o FDIC, o seguro federal para depósitos (o que fez com que as pessoas parassem de retirar seu dinheiro dos bancos).  O Fed não deu qualquer contribuição para a estabilidade bancária.
O segundo mito é o de que bancos centrais são necessários como emprestadores de última instância — isto é, para ofertar liquidez em épocas de tensão financeira, quando o mercado de crédito interbancário fica paralisado.  As operações de liquidez criadas pelo Federal Reserve logo após o colapso do Lehman Brothers em 2008vêm sendo usadas como o mais recente exemplo prático desta função.  Mas o problema é que este argumento inverte causalidade e efeito.
Walter Bagehot, o eminente jornalista financeiro britânico do século XIX, cunhou a expressão "emprestador de última instância" em seu clássico livro "Lombard Street".  Ele disse que esta era uma função essencial do Banco Central da Inglaterra.
No entanto, o contexto em que ele disse isso quase nunca é mencionado.  Bagehot sabia que um banco central impunha que todos os bancos concentrassem nele suas reservas, automaticamente fazendo com que ele se transformasse em um emprestador de última instância.  Se uma instituição ordena que os bancos repassem a ela parte do dinheiro que foi neles depositado, é óbvio que tal instituição se torna uma "emprestadora de última instância". Mas Bagehot não acreditava que um banco central era inevitável ou mesmo desejável.
Para Bagehot, o "sistema natural" era aquele que "surgiria naturalmente caso o governo não se intrometesse no sistema bancário".  Haveria "vários bancos de tamanho semelhante ou pelo menos muito parecidos".  Ele descreveu este arranjo como "o sistema de várias reservas", no qual cada banco seria responsável por suas próprias reservas, o que levaria a um sistema bancário mais robusto.  No debate atual, o celebrado "emprestador de última instância" de Bagehot é uma solução de eficácia secundária — secundária a um arranjo de bancos operando concorrencialmente em um sistema sem um banco central para protegê-los e socorrê-los.
Após a Guerra Civil, o sistema bancário dos EUA não operou como o "sistema natural" visionado por Bagehot.  Regulamentações governamentais concentraram as reservas bancárias nas principais cidades americanas, com o previsível resultado de que a economia americana se tornou sujeita a pânicos e corridas bancárias (as quais eram raras em outros países que também ainda não tinham um banco central), culminando no famoso Pânico de 1907.  Em vez de corrigir os problemas do sistema bancário nacional, os legisladores, liderados por um presidente progressista, Woodrow Wilson, criaram um banco central, o Federal Reserve System.
Um terceiro mito é o da independência do banco central.  Isso varia de país para país, mas em todos o banco central se submete aos caprichos do governo.  Varia apenas a intensidade com que tal sujeição é percebida.  Nos EUA, o Federal Reserve é visto como sendo uma entidade independente desde o Acordo de 1951 junto ao Tesouro.  Após o acordo, o Fed não mais tinha a obrigação de manter os preços dos títulos do Tesouro (o que, na prática, significa fixar a taxa de juros).  Tal obrigação, oriunda das necessidades fiscais impostas pela Segunda Guerra Mundial, havia impedido o Fed de combater a inflação de preços por meio da elevação dos juros durante a Guerra da Coréia.
Desde 1951 não houve nenhuma alteração relevante no status legal do Fed.  Ele atuou de forma independente durante algumas épocas — porém, durante outras, suas ações foram completamente submissas a outros setores do governo.
Durante a década de 1950, quando o presidente do Fed era William McChesney Martin, a inflação se manteve baixa.  No entanto, isso pouco teve a ver com Martin.  O presidente Dwight Eisenhower era resolutamente contra a inflação, e durante sua gestão o governo federal praticamente não apresentou déficits orçamentários.  Quando os presidentes Kennedy e Johnson aceitaram o ativismo fiscal keynesiano, os déficits cresceram.  Martin não demonstrou problema algum em acomodar o aumento dos gastos do governo com inflação monetária.  Ele não acreditava que a política monetária poderia — ou deveria — operar de forma independente da política fiscal.  O resultado foi a primeira contínua inflação de preços da história americana em períodos de paz.
A independência do Fed atingiu seu ponto mais baixo sob a gestão de Arthur Burns.  O diário que ele mantinha durante os anos Nixon confirma que a política do Fed havia se tornado totalmente submissa aos objetivos do governo e à campanha à reeleição de Nixon.  Como ele escreveu certa vez em seu diário, "Eu estava encarregado de cuidar da política monetária e ele [Nixon] não precisava se preocupar quanto à possibilidade de o Federal Reserve restringir a economia".  O resultado desta postura foi a grande inflação da década de 1970.
Paul Volcker, que foi o presidente do Fed de 1979 a 1987, restaurou a reputação anti-inflacionária da instituição.  Sua gestão é considerada até hoje o genuíno modelo de independência.  E, verdade seja dita, havia vários políticos no legislativo, bem como pessoas fora do governo, que criticavam asperamente sua política de restrição monetária, a qual de fato domou a inflação e estimulou o crescimento econômico americano da década de 1980.  Não obstante essas reclamações, Volcker, assim como seu antecessor Martin, tinha o apoio resoluto dos dois presidentes americanos a cujas administrações ele serviu: Jimmy Carter e Ronald Reagan.
Na atualidade, foi difícil ver algum resquício de independência no comportamento do Fed sob Ben Bernanke.  Em 2011, por exemplo, o Fed comprou 77% dos títulos da dívida que foram emitidos pelo Tesouro, um comportamento sem precedentes.  Com seu compromisso de manter a taxa básica de juros em praticamente zero durante um longo prazo, Bernanke vinculou a política monetária à política fiscal do governo Obama com o objetivo de inflar artificialmente os preços dos ativos (imóveis e ações) da economia americana.  Isso é o oposto do que deve fazer um banco central independente — e denota um Fed ainda mais submisso a um presidente do que ele já havia sido durante a era Burns/Nixon.
A lição de toda esta história é aquilo que chamo de "banco central sem romance", parodiando um famoso artigo escrito pelo Nobel de economia James Buchanan intitulado "Política sem Romance".  Um banco central é necessário apenas para uma economia que aceita que o governo detenha o monopólio da produção de papel-moeda fiduciário.  E, durante alguns períodos, ele de fato pode se comportar de maneira independente — mas não quando o governo decide incorrer em déficits orçamentários de larga escala, como os atuais que estão ocorrendo nos EUA sob Obama.
Buscar a estabilidade de preços é um objetivo que praticamente todos concordam ser a responsabilidade de um banco central.  No entanto, foi exatamente neste objetivo que tanto o Fed quanto vários outros bancos centrais do mundo fracassaram miseravelmente.  Desde sua criação em 1913, os preços ao consumidor americano aumentaram 2.326%. 
Se um governo conseguir acabar com seus déficits orçamentários, a estabilidade de preços pode vir a ser um objetivo alcançável para seu banco central.  Caso contrário, a existência de um banco central não passa de pura mitologia.
No atual cenário social-político da Banânia é preferível ser um órfão politico do que um cúmplice ideológico dos coletivistas "bem" intencionados.

PT e PSDB, filhotes do coletivismo. Ou:"A armadilha social-democrata do baixo crescimento"(RC)


O economista Paulo Guedes tem batido insistentemente na tecla da armadilha social-democrata do baixo crescimento. Tem usado seu espaço às segundas-feiras no GLOBO para mostrar como essa mentalidade predominante no Brasil tem sido responsável por nossos “voos de galinha”: barulhentos, desajeitados e de baixa altitude.
Na coluna de hoje, “Chapa quente”, Paulo Guedes retoma o tema e joga petistas e tucanos no banco dos réus, responsáveis por esse equívoco ideológico que tem nos custado tão caro. Diz o economista:
O fenômeno persiste há décadas. O Brasil segue prisioneiro da armadilha social-democrata do baixo crescimento. Com tucanos ou petistas, continua a expansão dos gastos públicos bem acima da taxa de crescimento do produto interno bruto. E, para evitar o descontrole inflacionário, sobem também os impostos e, mais uma vez, as taxas de juros, derrubando consumo, investimentos e a geração de empregos.
Essa armadilha de baixo crescimento é o resultado da falta de sintonia de nossa classe política com os requisitos de uma nova ordem global. Aprisionados por regimes tributário, previdenciário e trabalhista anacrônicos, nossa condenação ao crescimento medíocre reflete as contradições entre obsoletas práticas políticas social-democratas e as exigências econômicas de mercados globalizados. Os gastos públicos da União atingiram quase 1 trilhão de reais em 2013, aproximando-se de 20% do PIB. As despesas do governo central com o custeio de pessoal, benefícios previdenciários etc. cresceram 13,6% no ano, mais que o dobro da taxa de inflação, que fechou em pouco menos de 6%.
Não há como discordar da essência de sua mensagem. Que serve, também, para derrubar a tese tão disseminada por aí de que o PSDB é “neoliberal” ou de “direita”. Nada mais falso. É um partido social-democrata, portanto, de esquerda, e tem sua cota de culpa na situação atual do país, o eterno gigante do futuro.
Dito isso, acho injusto condenar igualmente petistas e tucanos. Não resta a menor sombra de dúvidas de que o quadro técnico do PSDB é anos-luz à frente do petista. O PSDB tem bons economistas, conta com a sabedoria de gente como Gustavo Franco ou Armínio Fraga, enquanto o PT ataca com Guido Mantega e Aloizo Mercadante. Não dá nem para comparar.
Além disso, não diria que o PT preserva o modelo social-democrata dos tucanos. A guinada foi claramente na direção de um nacional-desenvolvimentismo tacanho, ultrapassado, bem latino-americano e populista. A social-democracia tucana deve ser condenada, pois não oferece um mapa de voo mais elevado e sustentável, algo que somente o liberalismo pode fornecer. Mas ao menos não seria essa desgraça que vemos sob Dilma.
Isso para falar apenas da economia. Mas há todo um ranço autoritário no PT que não encontramos no PSDB. O PT, vale lembrar, participa do Foro de São Paulo, que ajudou a fundar, ao lado de ditaduras como a cubana, flerta com guerrilheiros das Farc, tem no MST um braço armado no campo, controla sindicatos mafiosos, enfim, o PT realmente faz o PSDB parecer “neoliberal” – mas só porque o PT parece socialista muitas vezes.
Em resumo, Paulo Guedes está totalmente certo ao alertar para essa armadilha do baixo crescimento da social-democracia, que tanto parte do PT como o PSDB abraçam. Mas exagera na dose ao condenar ambos na mesma medida, uma vez que sabemos do potencial infinitamente maior de causar estrago – econômico e social – dos petistas.

NA ELEIÇÃO DE 2014, FAÇA A PERGUNTA CERTA.(Percival Puggina)


Qual o partido brasileiro que se identifica com as seguintes “causas”? Rolezinhos, lei de cotas, gayzismo, regime cubano, regime venezuelano, regime boliviano, marco regulatório da imprensa, estatizações, companheiros condenados pela justiça e bandidos em quaisquer circunstâncias, qualquer patife adversário dos EUA, aborto, supressão de símbolos religiosos em locais públicos, nomes de ruas para guerrilheiros comunistas, memoriais para Luis Carlos Prestes, kit gay nas escolas, destinação de imensas áreas de terra do país para “nações” indígenas, invasão de terras pelo MST, invasões de propriedades urbanas por sem-tetos, estripulias imobiliárias dos quilombolas, parada gay, marcha das vadias, marcha da maconha, fim da lei de anistia, mudar para pior o Estatuto do Índio, maioridade penal só aos 18 anos, proibição à posse de armas, o PNDH-3…

Por obséquio, ajude a completar a lista do mau agouro político que nos ameaça diuturna e infatigavelmente.



Está circulando na internet um convite realmente irrecusável para quem se interessa por política neste país. O título é NÃO DEIXE DE ASSISTIR DIA 03/02 ÀS 22h NO RODA VIVA DA CULTURA, CANAL 2 TV ABERTA, o que indica que a mensagem vem de São Paulo, onde a TV Cultura ocupa o canal 2. Leiam o texto e se preparem para um programa imperdível na TV brasileira:


No próximo dia 3 de fevereiro, o Programa Roda Viva, na TV Cultura, agora sob a coordenação do jornalista Augusto Nunes, entrevistará o Romeu Tuma Jr, autor do livro “Assassinato de Reputações – um crime de Estado”.

Acontece um fenômeno interessante com esse livro: é o primeiro em vendas nas livrarias há várias semanas e com exceção da Revista Veja ninguém fala dele. Nem o grandioso ex-presidente Lula (apresentado como informante do DOPS pelo testemunho pessoal do autor) se manifesta. Tinha a obrigação de processar o autor por injúria, calúnia, difamação e sei lá mais o que, mas nem toca no assunto. O que é mais triste: a imprensa também não toca, por isso imagino as pressões que o Augusto Nunes deve estar sofrendo desde já para não fazer essa entrevista.

O “beijo gay” de “Amor à Vida”, da TV Globo, foi, na verdade, expressão de machismo numa novela heterofóbica e que detestava as mulheres(RA)


O beijo da família gay Doriana, em que mulher é só empregada
O beijo reacionário da família gay Doriana, em que mulher é só empregada
Ai, que preguiça! Aqui e ali se pergunta por que não escrevi sobre o “primeiro beijo gay” nas novelas, se estou fugindo de temas polêmicos… Ô se estou!!! Como podem ver, aqui, na Folha ou na Jovem Pan, só tenho aplaudido consensos, não é mesmo? Tenham paciência! Mas se é para embarcar na polêmica dando algum relevo ao que não tem a menor importância, então vamos tratar do que interessa. Não escrevi porque estava tomando sol, entendem? Preciso elevar a minha vitamina D… Tenho, nos períodos de inverno, aquele branco meio cadavérico, mas não porque não goste de sol. É falta de tempo mesmo. Vi depois. Beijo gay? Desculpem a falta de jeito e talvez alguns fiquem chocados, mas beijo sem língua não vale.
O beijo entre Félix (Matheus Solano) e Nico (Thiago Fragoso) foi só um pouquinho mais ousado do que o trocado pelos atores Vida Alves e Walter Forster na novela “Sua Vida me Pertence”, de 1951, dez anos antes de eu nascer. E, santo Deus!, eu já tenho 52! Foi um beijo que não ousou dizer seu nome. Terno, sim, todo casinha, uma transa, assim, literalmente papai-e-papai — num mundo, aliás, em que, se notaram bem, mulher só servia como empregada: Félix, Nico, o pai rabugento e estropiado, os dois garotos e… a mulher de uniforme branco. Se houvesse um cachorrinho na casa, não seria uma cadelinha, pelo visto. E já trato da misoginia escancarada dessa novela.
Pra começo de conversa, não é o primeiro beijo gay em novela. Já houve um lésbico numa da Record, não? Segundo consta — e não vi mesmo —, há duas jovens se pegando no BBB, com beijos de boca destrancada, não é isso? Duas questões, então, se colocam:
– beijo gay de mulheres não vale? Não é revolucionário o bastante?
– beijo entre mulheres não provoca frisson político? Por que não?
Explico. Porque as mulheres, vejam vocês, ainda são, sim, discriminadas de várias formas no país e na política. A militância gay — e não venham torrar a minha paciência com mimimi — não gosta muito das lésbicas, como elas sabem e como eles sabem. Mais: o beijo lésbico não gera muita confusão porque, no fim das contas, boa parte da macharia “curte o lance” — não é mesmo? E as mulheres são oferecidas, a exemplo do que ocorre no BBB, à “espiação” (se me permitem, com “s” mesmo…) e à expiação. Ou por outra: o rala-e-rola entre as moças serve ao voyeurismo masculino; aquele feito por homens não costuma excitar a imaginação das mulheres — não há testemunhos a respeito que eu saiba; não interessa aos homens heterossexuais e é dirigido exclusivamente ao público gay — aos, em suma, homens, que seguem sendo protagonistas, porque homens, da militância gay.
No fim das contas, seja pela qualidade do beijo — aquela coisa de boca fechada, quase com nojinho —, seja pelo protagonismo político que a coisa ganhou, e dado que já houve beijo lésbico, bem mais quente —, foi, de verdade, um beijo ainda machista, de uma cultura idem. Porque, convenham, ninguém gosta tanto do universo masculino como os gays, certo?
Essas coisas são tramas do marketing, entendo. Foi um primeiro passo. Agora, aguarda-se algum tempo até a língua, quem sabe?, a depender da reação do público. Aqui e ali, no entanto, vejo gente dizendo: “Ah, mas foi bonito, né, gente? Não pareceu sacanagem”. Claro que não! Gays quando se beijam estão fazendo a revolução universal. Ah, tenham paciência!
A novela
Vi pouco a novela porque, como podem notar, estou sempre trabalhando naquele período. E não vai preconceito nenhum. Já acompanhei algumas com interesse. Gosto de Manoel Carlos, o que vem aí… Não sei como vai ser desta vez. Suas tramas costumam ter poucas peripécias e apelar quase nada ao “maravilhoso”. Passei a acompanhar alguns capítulos da novela de Walcyr Carrasco porque me falaram da atuação espetacular do ator Matheus Solano, que me pareceu, de fato, muito bom, com um tempo para a comédia e para a ironia de quem entende o seu ofício.
Dá para compreender por que sua personagem chamou tanto a atenção. Os demais eram de uma pobreza dramática e agrediam de tal sorte a verossimilhança que beiravam o patético. O pai homofóbico, representando por Antonio Fagundes (nada a ver com as qualidades do ator), era um caricatura grotesca. Aliás, tudo bem penado — chamem pela memória —, o único casal, digamos, convencional, próximo da esmagadora maioria dos brasileiros, eram Paloma e Bruno, tão excitantes como um pudim de isopor. No fim das contas, a equipe de Carrasco não tinha, de verdade, nada a escrever sobre os dois porque não consegue, em suma, ver transcendência nenhuma no amor de um homem e de uma… mulher.
Misoginia 1 - Pillar: corna profissional termina nos braços do motorista que era bandido
Misoginia 1 – Pillar: corna profissional termina nos braços do motorista que era bandido
Misoginia 2 - Ela também tinha razões para ser má, mas a "piranha" terminou eletrocutada
Misoginia 2 – Ela também tinha razões para ser má, mas a “piranha” terminou eletrocutada
Os demais casais heterossexuais que se firmaram tinham sempre uma nota de rodapé de “diferença”: a ricaça mais velha pega o motorista fortão; o médico recém-formado, uma enfermeira coroa; um alto executivo escolhe uma ex-chacrete exuberante da periferia; uma periguete pobre e maluca se interessa por um desocupado profissional que depois vira funkeiro ou sei lá o quê; até a mãe de família, mulher do dono de um boteco, se revela uma ex de um diretor de hospital, sai de casa para viver o romance, volta para o marido bronco, do nada, sem revelar nem por que foi nem por que voltou…
Mas nenhum casal representou, digamos, a heterossexualidade que se mostrava doentia e decadente como César, o pai homofóbico (severamente punido; quem mandou?), e Aline, aquela que, vá lá, inicialmente, tinha motivos para se vingar, mas foi além da conta — uma psicopata talvez. Para ela e para ele, não houve remissão, não! De jeito nenhum! César é severamente punido por seu amor à moda antiga — e, até onde se sabe, ele foi um bom marido para a jovem mulher, sinceramente apaixonado. Termina seus dias dependente do filho que tanto desprezou.
Misoginia 3 - Sempre garota de programa, só é salva pelo mordomo
Misoginia 3 – Sempre garota de programa, só é salva pelo mordomo
Deem um bom motivo para a mudança da “bicha má”. Essa história de que Félix foi salvo pelo público é conversa mole. Errado! Walcyr Carrasco conduziu a história para fazer da personagem a verdadeira vítima — vítima do pai homofóbico. Ele só jogou uma criança numa caçamba, internou a irmã num hospício, tramou o sequestro da sobrinha, chantageou pessoas e até tentou matá-las porque “pápi porderoso” não lhe dizia um “eu te amo”. Que o tenha feito ao som de Mahler, numa citação completamente despropositada do filme “Morte em Veneza”, de Visconti, só serve para esconder o ridículo numa gramática aparentemente grandiosa, profunda, humana.
Já as mulheres… Pobres mulheres! Uma das protagonistas era uma corneada profissional e acaba se consolando nos braços do motorista filósofo, um ex-bandido. A mulher da bicha continuou, na prática, garota de programa — só no último capítulo ela se redime, para cair nos braços do… mordomo! Walcyr Carrasco parece ser fascinado pela ideia dos amores, digamos, ancilares. Não por acaso, Aline era, originalmente, secretária de César.
Sempre que a palavra “bicha” foi empregada em tom pejorativo, ou foi na boca de César — criado para causar repulsa — ou do próprio Félix. Ou, em suma, era “coisa de bichas” (e elas podem se xingar entre si que ninguém tem nada com isso; se, um dia aprovarem a tal lei anti-homofobia, isso não renderá processo) ou de gente detestável. Já a tal Aline, coitada, foi xingada de “piranha” na novela pelas pessoas as mais beatas — incluindo a personagem do excelente Ary Fontoura, cujo nome não lembro. Curioso: Aline morre eletrocutada, sem perdão; Félix encerra a novela, de mãos dadas com o pápi, ao som de Mahler, dizendo “eu te amo”. O que deu o clique na cabeça do malvado? Ter ido vender hot-dog na periferia? Ocorre, meus queridos, que Félix era essencialmente bom; o pai é que tinha feito dele um monstro.
E, claro!, não poderia deixar de falar de Amarílis, aquela que tinha vocação para destruir o romance de gays e lhes roubar a criancinha, impedindo-os de formar aquela Família Doriana mostrada antes do beijo gay sem língua. Psicopata? Mulher má? Personagem frequente na vida de casais gays? Sei lá eu. O fato é que aquela que transformou seu útero numa espécie de gaveta, mala ou estufa deveria, a gente ficou sabendo, se conformar com o seu papel de gerar crianças para o casal de machos.
Beijo gay? Não tem a menor importância e, reitero, do jeito como foi dado, foi mais machista do que propriamente revolucionário. Só demagogos de quinta fingem de escandalizar com isso. Relevante nessa novela — e cumpre verificar se será uma tendência na Globo — é o desdém pela chamada “heteronormatividade”, o elogio das famílias as mais exóticas — desde que não seja a ainda convencional — e, insisto, a misoginia, o desprestígio escandaloso a que foram submetidas as mulheres, quase sem exceção.
Até um terrorista palestino encontrou seu lugar no mundo dos justos. César, o “homofóbico”, termina seus dias babando e chorando; Aline, a “piranha”, foi eletrocutada. Amarílis, a “cobra”, acaba sozinha. Ah, sim: o diretor administrativo de um hospital contrata o diretor clínico, que acabara de conhecer, e já é convidado para um uísque, entendem? Fossem homem e mulher heterossexuais, estaria caraterizado um caso de assédio… Sendo como é, não.
Mas o Brasil parou, segundo o Fantástico, para aplaudir “o primeiro beijo gay”, ainda que a novela tenha sido uma chanchada heterofóbica e, acima de tudo, misógina. Vem aí “Em Família”, de Manoel Carlos. Se houver heterossexuais andando sobre duas patas, logo vai aparecer alguém para apontar um perigoso retrocesso.
Homofóbico no chão: cego, com derrame, dependente de Félix. Demorou, mas Cesar aprendeu a lição. Ao som de Mahler!
Homofóbico no chão: cego, com derrame, dependente de Félix. Demorou, mas César aprendeu a lição. Ao som de Mahler!