O momento do supremo horror e da suprema humilhação: o segundo homem mais poderoso do regime comunista da Coreia do Norte é retirado por soldados de seu lugar na primeira fila do Comitê Central e levado para ser fuzilado (Foto: Reuters)
Texto publicado em edição impressa de VEJA
Por Vilma Grizynski
O que sente um poderoso no momento em que despenca do topo da pirâmide e sabe que tudo está perdido?
A cena extraordinária em que o segundo homem mais importante do regime da Coreia do Norte, Jang Song-thaek, é retirado por dois militares de seu lugar bem na primeira fileira do Comitê Central do Partido Comunista e levado para a antessala do pelotão de fuzilamento pode ser lida menos pela reação do expurgado, tio por afinidade do ditador hereditário Kim Jong-un, e mais pelo rosto congelado daqueles à sua volta.
[O mesmo Kim Jong-un que foi homenageado com um "Parabéns a Você" pelo ex-jogador de basquete norte-americano Dennis Rodman.Leiam aqui.]
Todos querem olhar, mas não podem demonstrar interesse excessivo.
As cabeças giram quase que em ângulos semelhantes ─ só o medalhado à frente faz a rotação completa.
“Pior do que um cachorro”
O ex-poderoso vivia “mergulhado em irregularidades e corrupção, tinha relações impróprias com várias mulheres, comia e bebia em salões privados e restaurantes de luxo”, alegou o regime.
Depois de fuzilado, foi apresentado como triplamente traidor e “escória humana desprezível, pior do que um cachorro”.
Em outro clássico do totalitarismo, na obrigatória confissão Jang diz que “ia dar um golpe usando oficiais do Exército ligados a mim” e esperava mais adesões.
Como em outros capítulos infames da história mundial dos expurgos, o recado, portanto, é dirigido ao público interno. Tal como um Nero mandando o mentor Sêneca ao suicídio, o jovem Kim Jong-un se sente suficientemente poderoso para reinar por conta própria?
Ou está tão fraco que precisa usar de uma brutalidade inédita até para os padrões norte-coreanos? Em qualquer hipótese, inimigos, amigos e suspeitos em geral sabem que não terão direito nem ao “obrigado, senhor” que Robespierre, o grande guilhotinador da Revolução Francesa, disse a um homem que lhe deu um lenço para enxugar o sangue do rosto antes de perder, ele próprio, a cabeça
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