quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Os keynesianos de quermesse (RC)

É impressionante! Há uma turma de economistas que sempre prega a mesma receita fracassada, mas que não só se recusa a aprender com os próprios erros, como usa a fase de ajustes necessários da crise que ajudou a criar para atacar os liberais. Eles estão sempre pedindo mais governo, mais intervenção, mais impostos, mais gastos públicos, mais crédito artificialmente barato. E quando a bomba inflacionista explode, eles fingem que não tiveram nada a ver com os problemas e passam a criticar os defensores dos ajustes ortodoxos.
Hoje mesmo tem um artigo de um desses “keynesianos de quermesse”, para usar a expressão de Alexandre Schwartsman, publicado na Folha. Atende pelo nome de Pedro Paulo Zahluth Bastos. Tinha que ser da Unicamp, claro! É tanta inversão, mas tanta inversão, que dá até preguiça de começar a refutar as bobagens, e olha que preguiçoso é algo que não sou, como os leitores podem atestar pela quantidade de textos diários. Vejam o que diz o professor:
No máximo, os constitucionalistas de hoje vestiram ontem a camisa da austeridade. Diziam que o corte do gasto público era necessário para reverter a desaceleração da economia e retomar a confiança do empresariado.
Estes, poupadores, colocariam o dinheiro para criar empregos, em vez de ficarem paralisados pela desconfiança em um governo que não economizava impostos recolhidos preferencialmente de pobres e remediados, no montante suficiente para pagar juros de títulos públicos apropriados pelos ricos.
Pouco importa que as receitas tributárias estivessem caindo, sintoma da contração em espiral do gasto privado. Keynes e o gasto público anticíclico são antiquados no Brasil, mesmo depois de 2008.
Superavit fiscal primário a qualquer custo: eis o lema dos austeros em 2014. Embora haja hoje quase um consenso internacional, mesmo em periódicos científicos ortodoxos, de que um governo não consegue poupar mais quando uma economia caminha para a recessão ou então a aprofunda, o governo reeleito fiou-se na falta de luz dos “austericidas” –os austeros suicidas– e seguiu seu conselho.
Ou seja, o problema é o sintoma, não sua causa! O homem condena a necessidade de o governo perdulário ter que apertar os cintos – algo que ainda nem fez – em vez de condenar a gastança anterior que nos trouxe até aqui. É sempre a mesma ladainha: os rentistas querem garantir seus juros altos e blá-blá-blá, ignorando que os juros são altos por causa do governo perdulário que essa gente defende. Não é incrível?
“Minha avó perguntaria: não seria o caso de mudar as injustiças do sistema tributário brasileiro? Nunca, bradam os constitucionalistas: viva a credibilidade, abaixo o seguro-desemprego, a CLT, as aposentadorias e, especialmente, o SUS”, conclui o professor da Unicamp. A avó dele deve estar satisfeita com os ótimos serviços prestados pelo nosso governo; com as leis trabalhistas da era Vargas, inspiradas na Carta del Lavoro de Mussolini, que tratam patrão como explorador; com nosso fantástico sistema universal de saúde; etc.
Em sua cabeça de “estado-afetivo”, ele quer apenas mais impostos sobre os “ricos”, ou seja, se o estado tirasse um pouco mais do que os já quase 40% que tira da iniciativa privada, tudo seria uma maravilha! E ele ainda fala em nome das leis econômicas, alguém que ridiculariza como “austericidas” aqueles economistas que entendem a lei mais básica da economia: o governo não pode gastar mais do que arrecada, ao menos não impunemente.
Ironicamente, há pouco depois do texto a coluna do próprio Alexandre Schwartsman, que derruba algumas dessas falácias dos que querem sempre endividar ainda mais o governo, até ele quebrar de vez a nação. Logo no título ele brinca com o mantra de Obama, dizendo “No, we can’t!”. Ou seja, os “keynesianos de quermesse” acham que podem tudo, de cima de suas fantasias, inclusive ignorar as leis econômicas. Mas guess what? Não podem. Escreve o ex-diretor do Banco Central:
As consequências de expansão desmesurada do gasto, descaso com a inflação, controles de preços e intervenções no domínio econômico foram aceleração inflacionária, deficit externos crescentes, desarranjo de setores importantes e aumento considerável da dívida pública, sem, é bom deixar claro, conseguir acelerar o crescimento. Além disso, há razões para crer que, entre as heranças da experiência desastrada do período, se encontra também a impossibilidade de políticas anticíclicas.
[…]
Agora, com inflação na casa de 9,5% (7,7% caso desconsideremos as tarifas públicas), não há espaço para reduzir a taxa de juros sem criar um problema mais sério à frente. Já o crescimento da dívida pública atingiu mais de 9% do PIB nos últimos 12 meses, sugerindo que sua dinâmica consegue ser pior do que a observada mesmo em economias com dívidas maiores. Isso fica transparente na evolução do prêmio de risco associado ao Brasil, que foi a 3,7% ao ano, contribuindo para aprofundar a recessão.
Nesse contexto, só alguém sem a menor noção de funcionamento da economia e da história recente do país poderia sugerir aumento do endividamento como a solução para nossos males. Se isso bastasse, não estaríamos na situação complicada em que nos encontramos. Há risco que até o governo tenha sentido o tamanho da encrenca, mas certamente não os keynesianos de quermesse.
Como o texto do professor da Unicamp comprova, esses economistas nunca aprendem. Querem sempre mais gastos públicos, mais dívida, mais crédito barato, tudo pago, claro, com os impostos dos “ricos”. O problema do Brasil não é ter economistas assim, pois mesmo países como os Estados Unidos os têm; o problema é que eles estão há décadas no comando do show, deformando alunos nas universidades, influenciando governos, e, como podemos ver, fingindo-se de sonsos quando suas lambanças destroem nossa economia. Salve-se quem puder!

A Escola de Virgínia e as falhas do governo (RC)

Muitos apontam as “falhas de mercado” e ganham até Prêmios Nobel com isso. Paul Krugman e Joseph Stieglitz vêm à mente. A realidade é imperfeita, e trocas voluntárias entre seres humanos imperfeitos jamais levarão a algum tipo de perfeição. A reação automática diante de um problema real do mercado é demandar a intervenção estatal: o governo vai resolver as tais falhas.
Mas será que isso ocorre mesmo? Será que, na prática, os governos conseguem resolver essas falhas de mercado? E as falhas do governo? A Public Choice School (também conhecida como Escola de Virgínia), fundada por James Buchanan e Gordon Tullock, colocou o foco nessa questão, ao transportar o estudo da economia para a política.
Sua principal premissa é bem simples e autoevidente, apesar de ser ignorada por vários cientistas políticos: o homo politicus não é diferente do homo economicus, que é o mesmo homo sapiens: alguém que busca maximizar seus próprios interesses de forma racional. Parte, portanto, do individualismo metodológico, combate a visão holística de estado, que fala em “interesse geral”, em “vontade popular”.
Adam Smith e Hayek já tinham notado que a principal vantagem do mercado é não depender de boas intenções para produzir resultados sociais eficientes e desejáveis. O foco está no processo, no mecanismo de incentivos: no livre mercado, mesmo um homem ruim pode ser levado a fazer o bem; na política, mesmo um homem bom pode ser levado a fazer o mal.
Economistas não estudam uma parte da realidade, mas sim a realidade a partir de uma estrutura econômica de análise. Transportar isso para o mundo político foi a grande contribuição da escola da Escolha Pública e das Falhas de Governo. Foi o fim do dualismo sem sentido: o homem é o mesmo, o que muda é a forma de lutar contra a escassez e competir por recursos.
Trata-se de uma visão bem mais realista da natureza humana. Afinal, não somos governados por anjos! A dicotomia boba – mercado como palco de interesses egoístas e política como palco de abnegação pelo “bem comum” – é refutada pela Escola de Virgínia. É preciso lidar com este paradoxo: muitos odeiam políticos de carne e osso, mas idoltram o estado como abstração, esquecendo que o estado é formado por aqueles políticos.
A ingenuidade faz com que essas pessoas entreguem ao estado o monopólio da função de integração social, como se somente ele fosse capaz de atender a tal bem público. Mas o ser humano é corruptível. Logo, o poder corrompe. O socialismo acaba defendendo uma “solidariedade compulsória” e, na prática, cria um governo de burocratas para burocratas, corrompidos pelo poder e criando privilégios para sua casta à custa dos demais.
Uma percentagem crescente dos gastos públicos consiste em transferir o rendimento dos politicamente desfavorecidos para os politicamente favorecidos. A “justiça social”, ao concentrar recursos e poder no estado, mina a solidariedade voluntária, cria dependência e enfraquece a sociedade civil. Mais governo = menos sociedade: paternalismo mina responsabilidade familiar, empresarial, cultural, e fomenta irresponsabilidade e dependência.
Assumir de forma implícita que para todo problema social a solução é a intervenção estatal é não só um equívoco, cujo ônus da prova deveria recair sobre o intervencionista, mas um discurso que interessa aos “amigos do rei”, aos burocratas em busca de poder. O processo político nem sempre (ou quse nunca) acaba beneficiando o coletivo, e sim uma parcela da população à custa do restante. Eis a realidade como ela é, não como gostaríamos que fosse.
A visão romântica de um estado benevolente, ao contrário da mais realista e cética que o enxerga como um “mal necessário”, costuma partir de uma postura insustentável: quando os intervencionistas pregam mais estado, assumem que a intervenção será realizada por seres clarividentes e abnegados. Esquecem que será colocada em prática por seres humanos imperfeitos, limitados, sujeitos às paixões humanas.
“Qualquer recomendação de natureza normativa deve ser avaliada sob uma análise do comportamento dos indivíduos com base em seus reais defeitos ou virtudes, assim como motivações”, escrevem André Azevedo Alves e José Manuel Moreira em O que é a Escolha Pública?, livro português que serve como excelente introdução ao pensamento da Escola de Virgínia. É preciso lembrar que o estado não age, apenas indivíduos agem!
Erro muito comum dos intervencionistas é o que chamamos de “falácia do Nirvana”, que consiste em usar uma utopia, uma fantasia imaginária qualquer, para combater uma realidade imperfeita. Como exemplos temos o pacifismo, o socialismo, o ambientalismo etc. O ataque ocorre da Torre de Marfim: é uma postura confortável (e também covarde) de quem não deseja realmente debater quais as melhores alternativas concretas para os fins desejáveis, e sim posar de “puro” contra tudo e todos que existem.
Isso leva ao monopólio das virtudes: somente quem defende mais estado quer acabar com a fome, a miséria, as injustiças etc. Somente o pacifista é contra a guerra e a violência. Somente o ambientalista é contra a poluição ou o “aquecimento global”. Condena-se o adversário ideológico com base em sua suposta falta de sensibilidade, por seus “interesses mesquinhos”. Mas assume duas personalidades radicalmente opostas para as pessoas: no processo de mercado, são guiadas pelo egoísmo; na política, misteriosamente seriam dominadas pelo interesse público. Faz sentido?
No fundo, a via política é apenas uma forma diferente de decisão coletiva a partir dos mesmos indivíduos. “Quem estuda o fenômeno político deve partir da mesma concepção realista da natureza humana que julga apropriado aplicar aos restantes domínios da ação em sociedade”, dizem os autores. A questão fundamental para quem deseja um debate honesto e sério, portanto, é: qual a melhor forma de alocar recursos escassos? Qual o melhor processo que garante tanto a liberdade individual como os resultados mais eficientes do ponto de vista social?
Surge o primeiro grande obstáculo dos coletivistas: como avaliar o “interesse geral” na prática, já que preferências são subjetivas? Outro dilema: a maioria tem o direito de impor sua visão contra as minorias? Qual método – o econômico (trocas voluntárias no mercado) ou o político (coerção democrática) – preserva mais as minorias?
Na democracia, o método é “winner takes all”: a decisão majoritária deve valer para todos, mesmo os que não votaram nela. No mercado, cada um é soberano: a escolha da maioria não precisa ser a sua. Na sua esfera particular de ação, você é livre para decidir o que quer. Se todos quiserem ser veganos, por exemplo, você ainda é livre para comprar ou produzir carne no mercado; se o processo for político, basta uma maioria simples de veganos para impor sua escolha a todos, proibindo a venda de carne.
Outro problema prático que surge: seu voto, na democracia, vale muito pouco, é apenas um sobre milhares ou milhões. Quanto maior for a ágora, quanto mais gente participar do processo político, menor será seu incentivo para participar. É o que chamamos de “ignorância racional”: não compensa o esforço de se informar ou tentar influenciar o resultado. Ou seja, mesmo que decisões coletivas na política possam afetar intensamente sua vida, você não tem muito interesse ou poder de influência, pois seu voto é insignificante no total.
A contradição dos intervencionistas parece evidente: assumir que não devemos confiar nos indivíduos para governarem a si próprios, mas achar que estão na capacidade de governar os outros. Defender o sufrágio universal e o paternalismo estatal é contraditório, e resulta da arrogante visão elitista platônica de “reis-filósofos”, a crença no “déspota esclarecido” (que paradoxalmente será escolhido, na democracia, pela multidão pouco esclarecida).
Para piorar, o processo de escolha democrática não costuma levar os melhores ao poder, e sim os medianos, na melhor das hipóteses, quando não os piores, mais sedentos por poder, mais dispostos ao jogo sujo demagogo e populista, de oferecer privilégios aos grupos de interesse (leilão de benesses estatais, já que as vantanges ficam concentradas e os cursos dispersos). Vários pensadores mais realistas alertaram, antes de Buchanan e Tullock, para os riscos da visão romântica da política, como Maquiavel, Hobbes, David Hume, Adam Smith, Schumpeter, entre outros.
Antes de ser um grande senador ou presidente, o sujeito precisa ser eleito senador ou presidente. Isso coloca seu foco no curto prazo (as próximas eleições), no agrado aos grupos de interesse (mais atentos do que o povo disperso e com mais capacidade de bancar sua campanha). A grande falácia dos intervencionistas é crer que os políticos vão focar no “interesse nacional” a longo prazo enquanto os empresários só pensam em lucrar hoje. Ora, o valor presente do ativo leva ao foco distante dos proprietários de empresas, que desejam maximizar seu patrimônio.
Do ponto de vista do consumidor é parecido: ele tem mais incentivos de se informar no mercado, onde custo de má escolha recai sobre ele mesmo, do que na política, onde compartilha com todos o erro. Muitas vezes ele tem um incentivo ainda mais perverso na política: escolher medidas que lhe favorecem, enquanto jogam o custo para ombros alheios.
O problema dos intervencionistas é nunca se colocar do outro lado da mesa, do lado que sofre as consequências e custos da intervenção. Todo intervencionista se imagina como o próprio déspota esclarecido, e costuma enxergar a sociedade como um tabuleiro de xadrez, em que indivíduos dão lugar a peças sacrificáveis pelo objetivo “maior” que é, no caso, o “interesse do estado” (i.e., o seu próprio).
Entre as consequências práticas desse modelo estatizante, temos o “rent seeking” (grupos organizados usam o estado para criar barreiras à concorrência e se apropriar de lucros excedentes). A longo prazo, o principal efeito disso é desviar energia criativa da produção para o “investimento” em lobby político, em busca de privilégios, subsídios, barreiras protecionistas, reservas de mercado. Basta pensar no BNDES. Ocorre um desperdício de talentos: aquilo que não se vê, o custo de oportunidade. A geração de riqueza seria bem maior numa sociedade com menos “rent seeking” e mais concorrência livre.
O que fazer então, diante de todas essas falhas de governo? Não há mágica, uma panaceia, mas há algumas medidas prudentes:
  • Limitar o escopo da política: problema é a excessiva politização de nossas vidas;
  • Impor limites constitucionais ao governo, mesmo democrático (evitar a “ditadura da maioria”, que na verdade é de minorias organizadas);
  • Reduzir os gastos públicos, para mitigar o risco de captura por grupos de interesse;
  • Estabelecer um limite máximo de carga tributária no país;
  • Federalismo: descentralização de poder, aproximação do local de impacto das decisões, possibilidade de se votar com os pés, concorrência entre estados;
  • Sempre cobrar o ônus da prova de quem defende substituir a liberdade de mercado pela coerção estatal, e não o contrário;
  • Desconfiar sempre dos políticos, de suas reais intenções, pois o ceticismo é o único antídoto contra a ingenuidade da crença no estado benevolente, no déspota esclarecido, no governo de anjos;
  • Lembrar sempre que você pode estar do outro lado da mesa, de quem paga o preço do intervencionismo.
Para finalizar esse já longo ensaio, que serviu como base para a minha aula de ontem do curso online Bases da Economia, cito Michael Oakeshott: “Para algumas pessoas, o governo é concebido como um vasto reservatório de poder que as inspira a sonhar com o uso que poderia ser feito dele. Têm projetos favoritos, de dimensão variada, e entendem que a aventura de governar os homens consiste em capturar esta fonte de poder, aumentá-lo se necessário, e usá-lo para impor os seus projetos favoritos aos restantes cidadãos”.







terça-feira, 8 de setembro de 2015

O sucesso no socialismo (João César de Melo)


O colapso social e econômico da Venezuela evidencia não apenas o poder de destruição do intervencionismo estatal, mas também a forma como regimes socialistas medem o sucesso de seus projetos. Evidência que se torna absurda quando a comparamos com um dos principais fundamentos do capitalismo: A satisfação do cliente.
Como forma de se detectar qual item poderia ser melhorado no cardápio, muitos donos de restaurantes checam o que seus fregueses deixam nos pratos ou simplesmente vão até eles perguntar se gostaram da comida. Para o dono de um restaurante, seu gosto particular, o conceito no preparo dos pratos e a historinha por trás de cada ingrediente são menos importantes do que a satisfação dos fregueses, pois é apenas isso que fará com que cada um deles recomende o restaurante aos amigos. É satisfazendo os outros que donos de restaurantes pagam aluguel, funcionários, fornecedores e impostos para só depois ver se obtém lucro. É assim que se alcança o sucesso no capitalismo. No socialismo, ao contrário, o sucesso independe da satisfação do freguês, do cliente ou do cidadão que é obrigado a pagar os impostos. Em tese e em prática, o socialismo tenta impor a satisfação das pessoas; e a insatisfação delas é vista como manifestação burguesa e reacionária.
Lenin, em 1920, publicou um livro chamado Esquerdismo, A Doença Infantil do Comunismo, no qual dedica-se a enaltecer a revolução que liderou baseando-se apenas na superação dos inimigos, sem fazer qualquer menção à melhoria de vida da população. Se tivesse mencionado alguma, teria mentido, pois a revolução de 1917 apenas substituiu a corrupção, a exploração e a violência czarista pela corrupção, pela exploração e pela violência comunista, imensuravelmente superiores.
Lenin não fez menção ao seu povo simplesmente porque não o enxergava como seres humanos com necessidades humanas, mas sim como milhões de peões num tabuleiro de xadrez ideológico. À Lenin, só importava a vitória sobre osoportunistas, como chamava os socialistas menos à esquerda – mencheviques, kautskistas, sociais-democratas, sociais-chauvinistas etc. A Lenin, assim como para os demais líderes comunistas que surgiram ao longo do último século, o que importava era o prazer de enxergar suas ideias sendo impostas a todos, como se elas oferecessem, em si mesmas, benefícios à população.
O comunismo sustentou-se por décadas patrocinando incontáveis eventos e publicações que difundiam seu sucesso medido a partir da satisfação de seus líderes, enquanto dezenas de milhões de cidadãos comuns morriam de fome, de doenças, de frio ou assassinados pelas forças de preservação de suas ideias.
As levas de imigrantes que chegam à Europa todos os dias deveriam fazer o mundo se lembrar que, em pleno século XXI, existem dois países, Cuba e Coreia do Norte, que proíbem seus cidadãos de buscarem uma vida melhor noutros lugares; e tão vergonhoso quanto é sabermos que muitos líderes e militantes socialistas do Brasil insistem em dizer que apesar das restrições de liberdade em Cuba, são boas as ideias que sustentam o regime – a liberdade, sob a ótica socialista, é um princípio negociável.
Um pouco mais ao sul, o povo venezuelano a cada dia é mais privado de comida, de liberdade, de paz e de futuro enquanto o governo bolivariano continua vangloriando-se que seu projeto é maravilhoso, que tirou milhões de pessoas da pobreza e que devolveu ao povo as riquezas do país − a vitória do socialismo sobre o capitalismo. O que acontece nas ruas, nas casas e nas vidas das pessoas não interessa à Nicolas Maduro nem a qualquer outro líder socialista. O que importa é o projeto, são as ideias sendo colocadas em prática e a vitória sobre o inimigo, custe o custar.
Não por coincidência, o Partido dos Trabalhadores também se sustenta no poder exaltando as ideias, não o resultado da aplicação dessas ideias. Exaltam os montantes de recursos destinados aos programas sociais e o número de beneficiados de cada um deles a despeito da realidade de que a educação, a saúde, a segurança e o transporte público continuam péssimos. Segundo Dilma Youssef, as “dificuldades” atuais são apenas transtornos da vida assim como um dia de chuva, logo tudo será resolvido por meio da insistência em ideias que nunca dão certo.
No livro citado, Lenin deixa claro que um governo comunista deve ter capitalistas e esquerdistas − socialistas menos radicais – como inimigos iguais, portanto, devem ser combatidos de maneira igual, o que expõem seu nível de psicopatia política e também a razão do PT empenhar tantos esforços para destruir o PSDB até quando ele não está no poder.
Saber como Lenin pensava e agia continuará sendo importante enquanto nossademocracia abrigar partidos que o tem como uma das principais referências de tomada e de preservação do poder −instrumento de combate, como já disse Florestan Fernandes. Comparando as clássicas publicações comunistas com os atuais programas, artigos e declarações de partidos socialistas como PT, PSOL, PCdoB, PCO e PSTU, vemos a mesma linguagem, o uso das mesmas retóricas, a identificação dos mesmos vilões e dos mesmos métodos de manipulação social e cultural em favor pura e simplesmente da exaltação do espírito revolucionário daqueles que nunca ofereceram nada ao mundo além de discursos empolgantes, colapsos econômicos e escravidão. O socialismo ainda se baliza pelas ideias daqueles que só se mantiveram no poder por meio do terror.
Um século depois de Lenin, ainda temos que nos preocupar com um movimento que se resume a conquistar o poder absoluto para sustentar ideias absolutas.

MARXISTA, FABIANO E PROGRESSISTA, LOGO UM ESQUERDISTA. OU:"FHC, o grande morde e assopra do petismo" (Reaçonaria)

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu uma entrevista ao Estadão. Nela, deu vazão para as obviedades de sempre: manteve as cautelas e o mesmo discurso ambíguo de quem pode “manter a coerência” seja qual for o desfecho.
Como se trata de FHC, nosso “príncipe da sociologia”, algumas declarações não causam surpresa. É o nosso grande morde e assopra do petismo. O intelectual progressista que adoraria ter sido fundador do PT, mas que acabou fazendo política com a turma do Franco Montoro.
Trechos da entrevista:
Defesa e reabilitação política de Lula
“O Lula tem idade para poder aspirar voltar ao poder, voltar a governar.”
Não existem motivos para o impeachment de Dilma
“Dilma provavelmente não acha que está num beco sem saída, e eu também acho que ela ainda não está (…) Não está clara responsabilidade moral de quem está dirigindo nos malfeitos.”
A vontade popular pelo impeachment de Dilma é apenas “periférica”
Entendo que a população queira tirar a Dilma. Tudo bem, mas é um sentimento periférico, mas e depois? E as instituições? Qual é a base para se tirar? Não pode.
Defesa do PT
“eu não acho que seja saudável esse antipetismo irracional. Nem é o que eu faço. Acho que tem que fazer uma análise, mas não criar ‘o PT é o demônio’. Não, errou aqui ou ali, no meu julgamento. O PT tem um germe de hegemonia que eu acho que é ruim: ‘eu mando, você obedece’. E a democracia não é isso: eu mando hoje e amanhã eu obedeço.”
Atualização:
Mais tarde, no mesmo dia, saiu uma entrevista de FHC em O Globo em que o ex-presidente declarou a seguinte pérola:
“Os petistas aceitaram a democracia, mas uma democracia sob hegemonia, não aceitando o outro, só quando o outro se submete.”

Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso
Ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, “Prisoner of PT”

FHC, MARXISTA FABIANO.OU:"Entre Reagan e Carter, FHC escolhe o “progressista”, mas ainda há quem diga que nosso ex-presidente é de direita!"

Reagan x Carter: apenas alguém muito de esquerda escolheria o último
Reagan x Carter: apenas alguém muito de esquerda escolheria o último
Outro dia mesmo FHC disse que o ministro Joaquim Levy era mais liberal do que ele, como se isso fosse algo difícil. Levy, que vem recebendo – e merecendo – inúmeras críticas dos verdadeiros liberais, pois liberal algum que se preza defenderia aumento de impostos num país como o nosso, não deve estar com muito prestígio na Universidade de Chicago, onde fez seu doutorado, já que a escola de Milton Friedman jamais compactuaria com as medidas do governo Dilma e seu “ajuste fiscal”.
Mas eis que agora Fernando Henrique escreve um artigo no GLOBO enaltecendo a “liderança moral” de Jimmy Carter, talvez o segundo presidente mais medíocre dos Estados Unidos nas últimas décadas (o primeiro, claro, é Obama). Lamento o câncer de Carter, e toda a minha solidariedade ao ser humano que merece nosso respeito. Mas não é por sua doença que vamos ignorar seu legado negativo tanto para os americanos como para o mundo. Diz FH:
Durante a campanha presidencial americana de 1980, aliados de Ronald Reagan acusaram Carter de ter comprometido as relações de Washington com Brasil e outros governos autoritários em nome da defesa dos direitos humanos. Carter se manteve fiel a seus princípios, como sempre. Ele perdeu seu pleito por reeleição. No entanto, pode-se dizer que a perda dos Estados Unidos foi ganho nosso. Os bons trabalhos realizados por Carter na região — e no mundo — estavam apenas começando.
Perda para os americanos? Terem colocado no poder Ronald Reagan em vez de dar mais quatro anos ao fracassado Jimmy Carter, que levou seu país à estagflação? Os “bons resultados” dos trabalhos realizados por Carter estavam apenas começando? Quais? A escalada do populismo latino-americano? Fora do nosso continente, a chegada ao poder dos aiatolás malucos no Irã? Carter é o ícone daqueles que colocam a retórica acima dos resultados concretos, as “lindas intenções” à frente do realismo frio. É o típico guru da esquerda caviar!
Sua “liderança moral”, após a saída do governo, foi chancelar pleitos “democráticos” claramente falsificados, distorcidos pelo abuso da máquina estatal, como na Venezuela de Hugo Chávez. Carter emprestou seu “prestígio” para regimes nefastos, foi, na melhor das hipóteses, um inocente útil da esquerda radical, e na pior delas seu cúmplice consciente. Ou seja, se não desejamos colocar seu caráter em xeque, a única alternativa é considerá-lo um banana, um bobo manipulável.
Quem valoriza mais os resultados obtidos do que as nobres intenções propagadas, não pode colocar Carter à frente de Reagan. Foi o presidente liberal-conservador que conseguiu colocar a União Soviética de joelhos, contribuir para a derrubada do Muro de Berlim, levar mais prosperidade para o mundo todo que abraçou sua visão de mercado e de privatizações, inclusive no Brasil de FHC. Se dependesse de Carter, teríamos “inspeções” nas eleições que manteriam populistas e demagogos no poder, espalhando apenas miséria e corrupção.
Ao tomar partido e escolher Carter, chegando a lamentar sua derrota para Reagan, FHC demonstra, uma vez mais, não passar de um “progressista” que pode até ser mais civilizado, educado e razoável do que seus pares radicais, mas que nem por isso deixa de ser de esquerda. Que alguém assim seja “acusado” de ser “neoliberal” e de direita diz muito sobre o atraso intelectual do Brasil, um país que acha que o PSDB representa para os brasileiros o que Reagan representa para os americanos.