segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Lula e as elites(PERCIVAL PUGGINA)

Todos sabemos. Lula tem um problema com as elites. É só ficar solto no palanque, sem texto para ler, e lá vem ele com seu xingamento às elites, para adequar o conteúdo do discurso ao modo vulgar de discursar.
Tudo muito postiço, como nos políticos que usam os pronomes e as concordâncias segundo o auditório. Mas o Lula que quer se descolar das elites é membro aplaudido do seleto grupo! Convive com a elite política e ocupou o topo de sua cadeia alimentar. Tem atuado de modo intenso e rentável como representante da elite das construtoras nacionais. Costuma posar para fotografias e fazer agrados a atletas de elite. Seu partido nasceu no ventre da elite acadêmica do país. Nela e por ela foi concebido e propagado nas salas de aula onde se forma nossa elite intelectual. Mais do que nenhum outro homem público em nossa história foi beneficiado pela ação orquestrada da elite cultural e artística que, quase em uníssono, atuou e continua atuando em seu favor. Como presidente, usou sua prerrogativa para indicar membros aos mais altos cargos das carreiras jurídicas do país, cuja elite, em boa parte, lhe deve favores. Também como presidente, seja de direito, seja de fato, abriu as torneiras dos bancos oficiais para despejar dinheiro bom e barato nas contas bancárias de nossas maiores corporações empresariais. Descobriu, há muito tempo, que bons vinhos, uísques, charutos e lagosta ao Thermidor são mais prazerosos do que vinho de garrafão, cachaça, mata-rato e buchada de bode.

Julgo suficientemente comprovado, com os incontestáveis registros acima, que Lula é peça - e peça importante - da elite nacional. Mas quando ele fala da elite, mesmo como enfeite de discurso, a quem tem ele em mente, como protótipo de seu desprezo? Em quem ele está pensando quando o dedo que deveria apontar para si mesmo se volta para algum canto obscuro e inespecífico na cena brasileira? Não é àquela elite que está muito próxima dele e bem mereceria a desaprovação. As repulsas de Lula recaem sobre uma pequena parcela da elite que não se verga às seduções da corte e não aplaude qualquer tolice pronunciada por quem tenha a caneta turbinada pelo poder.

Essa elite é o obstáculo ainda remanescente aos anseios por hegemonia absoluta sobre a vida brasileira. É aquela parcela da sociedade, de qualquer condição social, mas de elevado valor moral, que não se deixa comprar com favores. Bem menos numerosa do que conviria, ela percebe o grau de rebaixamento e depreciação a que chegou a política nacional e atribui as devidas responsabilidades ao principal comandante dessa política nos últimos 16 anos.





 


 



Fraude da CPI – Petistas e governo cometem um crime contra o Congresso, contra a democracia e contra o estado de direito; só o mensalão foi mais grave do que isso!(RA)


A presidente Dilma: mais uma vez, ela não sabia de nada, como sempre?
A presidente Dilma: mais uma vez, ela não sabia de nada, como sempre?
O PSDB pretende entrar com representações nas comissões de Ética do Senado e da própria Presidência da República contra a presidente Dilma Rousseff, funcionários da Petrobras, parlamentares, funcionários do Senado e da Secretaria de Relações Institucionais. Por quê? Fraude na CPI. Sim, leitores, vocês já devem ter lido a respeito. Reportagem de capa da VEJA desta semana demonstra que uma grande farsa foi armada na comissão destinada a investigar no Senado o prejuízo bilionário com a compra da refinaria de Pasadena. Trata-se de uma das maiores agressões jamais feitas contra o Poder Legislativo. Nessa matéria, a partir de agora, só o PT supera o PT. Um grande teatro foi armado para que não se investigasse nada. As perguntas elaboradas pelos parlamentares foram previamente passadas aos convocados, tudo sob a supervisão de funcionários graduados do governo e de políticos do alto escalão. Já entro em detalhes.
Já escrevi isto aqui algumas dezenas de vezes: é claro que o PT não inventou a corrupção e o malfeito na política. Já existiam antes dele; continuarão a existir depois. O partido inovou num aspecto: nunca antes na história deste país, como costuma dizer Lula, um partido tentou profissionalizar o crime político e fazer dele um método. Infelizmente, o PT trouxe essa novidade — e tomara que ela seja interrompida e não tenha continuadores. O que foi o mensalão? Cumpre lembrar: mais do que simples roubo de dinheiro público, mais do que peculato, mais do que corrupção ativa, mais do que corrupção passiva, mais do que formação de quadrilha, mais do que evasão de divisas, mais do que lavagem de dinheiro. O mensalão foi tudo isso para ser algo bem maior do que isso. Tratou-se de uma armação para criar um Congresso paralelo, movido pelo propinoduto, de sorte que o povo brasileiro tivesse solapado seu principal canal de expressão: o Poder Legislativo. Que passaria a se mover nas sombras. Esse, sim, foi o grande crime do mensalão. Mais do que o roubo, que já era muito grave, o que se viu foi o assalto ao estado de direito e ao estado brasileiro.
Muito bem: agora, VEJA revela mais um escândalo deplorável. Um vídeo de 20 minutos que veio a público traz uma reunião entre o chefe do escritório da Petrobras em Brasília, José Eduardo Sobral Barrocas, o advogado da empresa Bruno Ferreira e uma terceira personagem, ainda desconhecida. Gravado provavelmente com uma caneta-câmera, a reunião demonstra que as perguntas feitas pelos parlamentares na CPI foram previamente passadas ao grupo para que os depoentes pudessem ser “treinados”. Participaram da conspirata Paulo Argenta, assessor especial da Secretaria de Relações Institucionais; Marcos Rogério de Souza, assessor da liderança do governo no Senado; Carlos Hetzel, assessor da liderança do PT na Casa; o senador Delcídio Amaral (PT-MS); o senador José Pimentel (PT-CE), relator da CPI; Graça Foster, presidente da Petrobras, e José Eduardo Dutra, ex-presidente do PT e hoje um dos diretores da estatal
O alvo maior da preocupação era mesmo Nestor Cerveró, aquele que omitiu do Conselho de Administração da Petrobras duas cláusulas essenciais na compra da refinaria de Pasadena. Barrocas, o chefe do escritório da empresa em Brasília, quer saber se as perguntas já estão com Cerveró e deixa claro que expediente idêntico foi empregado nos depoimentos de Gabrielli e de Graça. Pimentel, o relator da CPI, recorre à presidente da empresa e a Dutra para fazer um “gabarito” com as perguntas e respostas.
O PT se assustou com os desdobramentos da CPI dos Correios, que está na raiz da condenação da cúpula do partido, que foi parar na cadeia. Decidiu, então, desmoralizar esse expediente, que, na prática, já depôs um presidente e mandou para casa os tais “anões do Orçamento”. Eis aí: esse é o partido que diz querer fazer uma reforma política para moralizar o Congresso.
Estamos diante de um dos maiores crimes jamais cometidos contra a República. Ah, sim, o que Dilma tem com isso? Paulo Argenta é braço-direito de Ricardo Berzoini, ministro das Relações Institucionais. Berzoini foi nomeado justamente para tentar, digamos, segurar o escândalo da Petrobras na unha. Não custa lembrar que era ele o presidente do PT quando veio à luz o tal escândalo dos aloprados. Ficou claro que sabia de tudo. Quem escolhe um Berzoini escolhe também um método, não é mesmo, presidente Dilma?

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Humor nos tempos modernos.Ou:"Dilma oferece Acre para Palestinos “fazerem um país”"(JoselitoMuller)

Dilma quer doar o Acre para palestinosA presidente Dilma Rousseff voltou a falar sobre o conflito entre Israel e o Hamas na tarde de hoje.
Dilma disse que, “se for o caso, é melhor que judeus e palestinos fiquem longe um do outro. Igual como se faz na escola primária quando dois coleguinhas brigam. Se os palestinos quiserem, posso doar o estado do Acre para eles fazerem um país.”
Dilma garantiu que se a proposta for aceita, o Acre, na condição de país, já seria incluído no Mercosul.
Ela disse também que “enquanto eles se organizam, poderíamos incluí-los no Bolsa Família e no Minha Casa Minha Vida”.
Nossa Redação tentou fazer contato com representantes do Hamas, mas não foi possível, pois não conseguimos o celular de ninguém.

A desconhecida história do embargo cubano (Nelson Rodríguez Chartrand)


embargo.jpgEis um tema que, ao longo de mais de meio século, é inseparável da vida do povo cubano, e que tem estado presente, por igual período de tempo, no cenário político e na opinião pública internacional: o embargo econômico imposto a Cuba pelo governo dos Estados Unidos.
Em minha opinião, o controvertido embargo tem sido apenas um jogo diabólico de conveniência entre os dois governos envolvidos neste embate, cujo resultado alcançado durante décadas tem sido um só: uma falta de respeito ao — e um desprezo abominável e abusivo pelo — povo cubano.
Por que digo isso?
Este jogo desumano começou em outubro de 1960, como resposta do governo americano às expropriações das propriedades de cidadãos e companhias americanas na ilha, levadas a cabo pelo ainda incipiente governo revolucionário cubano.
Já no ano de 1992, o embargo adquiriu caráter de lei e, em 1996, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a chamada Lei Helms-Burton, a qual proibiu os cidadãos americanos de realizar negócios dentro da ilha ou com o governo cubano — embora desde muito antes a justificativa para o embargo tenha sido a ausência de liberdades civis e as violações dos direitos humanos realizadas pelo regime cubano.
Ainda hoje, o povo de Cuba majoritariamente acredita que a causa de todas as suas penúrias é o bloqueio.  Eu também pensava assim, até ter presenciado algo que me fez pensar seriamente a respeito.
880x608xembargo2.jpg.pagespeed.ic.NlEL12skHV.jpg
Em 1997, eu trabalhava como assessor jurídico de uma empresa que atuava no ramo do comércio exterior, e qual foi a minha surpresa quando constatei que a empresa Alimport (Empresa Cubana Importadora de Alimentos), responsável pelo nosso comércio exterior, estava importando produtos agrícolas diretamente de produtores dos Estados Unidos. Estranho, não?
Ou seja, no ano de 1996 foi aprovada a Lei Helms-Burton e, um ano depois — quando já era notícia diária em Cuba e no resto do mundo a aprovação da dita lei —, pude constatar, repito, que se estava importando produtos agrícolas diretamente do Império Americano.
Isso, contudo, não era dito pelos meios de comunicação em massa do meu país.
Porém, há mais. No ano de 1999, o presidente Bill Clinton "endureceu o bloqueio", proibindo as filiais estrangeiras de companhias americanas de negociar com Cuba a valores maiores do que US$700 milhões anuais.  Entretanto, no ano 2000, o próprio Clinton autorizou a venda de certos produtos "humanitários" a Cuba.
O fato é que, paradoxalmente, não apenas os EUA têm estado entre os cinco principais sócios comerciais de Cuba, como também, se não bastasse, têm sido os principais fornecedores de produtos agrícolas para a ilha.  
Veja a tabela abaixo.
960x540x1236118_501374593283859_738279270_n.jpg.pagespeed.ic.DwypB40sSd.jpgFonte: Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento.
Não seria o maior embargo sofrido pelo povo cubano justamente aquele imposto pelo próprio governo cubano?
Muitos afirmam que o comércio entre Cuba e EUA está sujeito a regulações e que ocorre debaixo de certas condições.  Por exemplo, Cuba tem que pagar imediatamente, e à vista, todos os produtos que importa dos EUA, já que este não concede nenhum tipo de crédito financeiro ao governo de Cuba.
Há algo de errado nisso?
Bom, dado que cada um tem o direito de proteger seus interesses, e dado que Cuba, pelas circunstâncias, justificadas ou não, é má pagadora, tal exigência é compreensível.  Eu mesmo tenho experiência com isso: lidei com muitas reclamações por parte de empresas estrangeiras, tendo que responder por questão de mora nos pagamentos.
Não é interessante o fato de que Cuba sofra embargo de um país que, por sua vez, tem sido seu principal exportador de produtos agrícolas e, em nível mundial, seu quinto maior exportador?
comercial-internacional.png
Números divulgados pelo Banco Mundial. Maiores informações aqui.
Não entendo, realmente.
De qualquer forma, o embargo existe e, ainda que não seja tão cruel como pintam, nenhum governo tem o direito de boicotar ou de atrapalhar de nenhuma forma a economia de outro país.
Contudo, se analisarmos as causas apontadas e as consequências deste conflito, veremos, de um lado, o governo dos Estados Unidos bloqueando a economia de Cuba com a justificativa de obrigar o governo cubano a reconhecer as liberdades individuais e a respeitar os direitos humanos de seu povo; e, de outro, o governo de Cuba culpando o embargo por todas as suas penúrias e calamidades, exaltando ferrenhamente sua imagem de defensor das liberdades individuais e dos direitos humanos.
Essa acusação feita aos americanos pelo governo cubano não deixa de ser irônica.  Pois, como bem disse Diogo Costa, "Antes de 1959, o problema de Cuba era a presença de relações econômicas com os Estados Unidos.  Depois o problema se tornou a ausência de relações econômicas com os Estados Unidos."
E prossegue:
O embargo americano é obsceno, mas não é a raiz da pobreza cubana.  De fato,[...] os cubanos podem comprar produtos americanos pelo México.  Podem comprar carros do Japão, eletrodomésticos da Alemanha, brinquedos da China ou até cosméticos do Brasil.
Por que não compram?  Porque não têm com o que comprar.  Não é um problema contábil ou monetário — o governo cubano emite moeda sem lastro nem vergonha.  O que falta é oferta.  Cuba oferece poucas coisas de valor para o resto do mundo.  Cuba é pobre porque o trabalho dos cubanos não é produtivo.
A má notícia para os comunistas é que produtividade é coisa de empresário capitalista.  Literalmente.  É o capital que deixa o trabalho mais produtivo.  E é pelo empreendedorismo que uma sociedade descobre e realiza o melhor emprego para o capital e o trabalho.
Mesmo quando o governo cubano permite um pouco de empreendedorismo, ele restringe a entrada de capital. Desde que assumiu o poder em 2007, Raúl Castro já fez a concessão de quase 170.000 lotes de terra não cultivada para agricultores privados.  Só que faltam ferramentas e máquinas para trabalhar a terra.  A importação de bens de capital é restrita pelo governo.  Faltam caminhões para transportar alimentos.  Os poucos que existem estão velhos e passam grande parte do tempo sendo consertados. Em 2009, centenas de toneladas de tomate apodreceram por falta de transporte.
No fim, independentemente dos critérios com que se analise este tema, se há algo que não se pode questionar é o fato de que o único prejudicado nesta briga tem sido o próprio povo cubano: o de verdade, e não a minoria governante.
Embargos servem apenas para fortalecer regimes totalitários e para aumentar o sofrimento da população oprimida, que, além da ditadura, ainda fica privada de poder adquirir bens que aliviariam um pouco do seu sofrimento.

Basta comparar Cuba à China. Em ambos os casos, os regimes seguem firmes e fortes, mas os chineses ao menos têm acesso a produtos estrangeiros, o que ajudou a aliviar enormemente sua privação.

Sobrepor um embargo comercial a uma ditadura é algo desumano.
É o povo cubano quem sofre com a miséria e com a escassez, e é o que sofre também com as faltas de liberdades individuais e com a violação dos direitos humanos mais elementares, enquanto os políticos dos dois lados seguem envolvidos neste jogo diabólico.
Até quando?