sábado, 2 de novembro de 2013

Banânia = Grécia (contas nacionais) + Espanha (imóvel) + Venezuela (política). Ou: Balança comercial acumula pior déficit no ano desde 1998

A balança comercial brasileira acumula um déficit de 1,832 bilhão de dólares no ano, entre os meses de janeiro e outubro, ante um superávit de 17,350 bilhões de dólares em igual período de 2012. O déficit no acumulado do ano é o pior do Brasil em dez meses desde 1998, ano em que foi registrado déficit no período de 5,080 bilhões de dólares. No acumulado do ano, as exportações somam 200,472 bilhões de dólares e as importações, 202,304 bilhões de dólares. Os números foram divulgados nesta sexta-feira pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).
No dado mensal, a balança comercial também registrou déficit, de 224 milhões de dólares, o pior resultado para outubro desde 2000, quando foi verificado saldo negativo de 546 milhões de dólares. Segundo o governo, o saldo negativo foi resultado da diferença entre os 22,822 bilhões de dólares em exportações e as importações, no montante de 23,046 bilhões de dólares.
O resultado veio abaixo do esperado pelos especialistas consultados pela Reuters, com projeção de saldo positivo de 1,5 bilhão de dólares. O resultado negativo ocorre depois de dois meses de superávit. Em setembro, a balança comercial havia registrado saldo positivo de 2,147 bilhões de dólares.
Itens
Dados do MDIC mostram que as exportações de todas as categorias de produtos registraram queda nos dez primeiros meses do ano quando comparado ao resultado de igual período de 2012. Os produtos semimanufaturados apresentaram a maior retração, de 8%. O resultado se deve, segundo o governo, principalmente às quedas nas vendas de óleo de soja em bruto, semimanufaturados de ferro/aço e ferro fundido. No sentido oposto, cresceram as vendas de catodos de cobre, couros e peles e celulose.
A exportação de produtos básicos caiu 0,7%, puxada principalmente por algodão em bruto, petróleo em bruto, café em grão e carne suína. Cresceram as vendas de milho em grão, soja em grão, carne bovina e minério de ferro. A queda dos manufaturados foi de 0,1%, principalmente devido à retração nas vendas de aviões, óleos combustíveis e laminados planos. Nessa categoria, cresceram as vendas de plataforma para exportação de petróleo, automóveis de passageiros e hidrocarbonetos e derivados.
Mercados
A exportação para os Estados Unidos ficou 9,2% menor no período devido a motores e geradores elétricos, petróleo em bruto e máquinas para terraplenagem. Para a África, as vendas caíram 8,3% devido à venda menor de trigo em grão, arroz em grão e veículos de carga. Para o Oriente Médio, a queda foi de 7,5%, puxada pelos óxidos e hidróxidos de alumínio e óleo de soja em bruto. Para a Europa Ocidental, a retração foi de 6,2%.
Para América Latina e Caribe, exceto Mercosul, a queda foi de 6,2% e para a União Europeia, diminuição de 2,5%. Cresceram 4,8% as exportações para o Mercosul. Só para a Argentina, houve crescimento de 10,3%. Para a Ásia, o crescimento foi de 4,5%. Só para a China, o crescimento foi de 11,8%.
(com Estadão Conteúdo e Reuters)

O Pensador Coletivo (DEMÉTRIO MAGNOLI)

O Pensador Coletivo é uma máquina regida pela lógica da eficiência, não pela ética do intercâmbio de ideias

Você sabe o que é MAV? Inventada no 4º Congresso do PT, em 2011, a sigla significa Militância em Ambientes Virtuais. São núcleos de militantes treinados para operar na internet, em publicações e redes sociais, segundo orientações partidárias. A ordem é fabricar correntes volumosas de opinião articuladas em torno dos assuntos do momento. Um centro político define pautas, escolhe alvos e escreve uma coleção de frases básicas. Os militantes as difundem, com variações pequenas, multiplicando suas vozes pela produção em massa de pseudônimos. No fim do arco-íris, um Pensador Coletivo fala a mesma coisa em todos os lugares, fazendo-se passar por multidões de indivíduos anônimos. Você pode não saber o que é MAV, mas ele conversa com você todos os dias.
O Pensador Coletivo se preocupa imensamente com a crítica ao governo. Os sistemas políticos pluralistas estão sustentados pelo elogio da dissonância: a crítica é benéfica para o governo porque descortina problemas que não seriam enxergados num regime monolítico. O Pensador Coletivo não concorda com esse princípio democrático: seu imperativo é rebater a crítica imediatamente, evitando que o vírus da dúvida se espalhe pelo tecido social. Uma tática preferencial é acusar o crítico de estar a serviço de interesses de malévolos terceiros: um partido adversário, "a mídia", "a burguesia", os EUA ou tudo isso junto. É que, por sua própria natureza, o Pensador Coletivo não crê na hipótese de existência da opinião individual.
O Pensador Coletivo abomina argumentos específicos. Seu centro político não tem tempo para refletir sobre textos críticos e formular réplicas substanciais. Os militantes difusores não têm a sofisticação intelectual indispensável para refrasear sentenças complexas. Você está diante do Pensador Coletivo quando se depara com fórmulas genéricas exibidas como refutações de argumentos específicos. O uso dos termos "elitista", "preconceituoso" e "privatizante", assim como suas variantes, é um forte indício de que seu interlocutor não é um indivíduo, mas o Pensador Coletivo.
O Pensador Coletivo interpreta o debate público como uma guerra. "A guerra de guerrilha na internet é a informação e a contrainformação", explica o deputado André Vargas, um chefe do MAV. No seu mundo ideal, os dissidentes seriam enxotados da praça pública. Como, no mundo real, eles circulam por aí, a alternativa é pregar-lhes o rótulo de "inimigos do povo". Você provavelmente conversa com o Pensador Coletivo quando, no lugar de uma resposta argumentada, encontra qualificativos desairosos dirigidos contra o autor de uma crítica cujo conteúdo é ignorado. "Direitista", "reacionário" e "racista" são as ofensas do manual, mas existem outras. Um expediente comum é adicionar ao impropério a acusação de que o crítico "dissemina o ódio".
O Pensador Coletivo é uma máquina política regida pela lógica da eficiência, não pela ética do intercâmbio de ideias. Por isso, ele nunca se deixa intimidar pela exigência de consistência argumentativa. Suzana Singer seguiu a cartilha do Pensador Coletivo ao rotular o colunista Reinaldo Azevedo como um "rottweiler feroz" para, na sequência, solicitar candidamente um "bom nível de conversa". Nesse passo, trocou a função de ombudsman da Folha pela de Censora de Opinião. Contudo, ela não pertence ao MAV. Os procedimentos do Pensador Coletivo estão disponíveis nas latas de lixo de nossa vida pública: mimetizá-los é, apenas, uma questão de gosto.
Existem similares ao MAV em outros partidos? O conceito do Pensador Coletivo ajusta-se melhor às correntes políticas que se acreditam possuidoras da chave da porta do Futuro. Mas, na era da internet, e na hora de uma campanha eleitoral, o invento será copiado. Pense nisso pelo lado bom: identificar robôs de opinião é um joguinho que tem a sua graça.

Até os danosos efeitos da seca seriam mitigados se iniciativa privada prevalecesse Ou:"Não basta a seca, ainda há a politicagem"


Rosalba Carline e Henrique Alves: disputa que lesa a sociedade (Fotos: Leopoldo Silva :: Ailton de Freitas / O Globo)
Rosalba Carline e Henrique Alves: disputa que lesa a sociedade (Fotos: Leopoldo Silva :: Ailton de Freitas / O Globo)
Nota de Otávio Cabral, publicada em edição impressa de VEJA
INDÚSTRIA DA SECA
Uma disputa entre  a governadora  Rosalba Ciarlini  (DEM) e o  presidente da Câmara, Henrique Alves (PMDB), atrasa o início de uma obra para aliviar os efeitos da maior seca do Rio Grande do Norte  em trinta anos.
Dias atrás  Rosalba foi ao Ministério da  Integração Nacional pedir 3 milhões de reais para a construção, pelo Estado, de uma adutora em Jucurutu.
No dia  seguinte, o mesmo órgão recebeu Alves, que afirmou que a obra deveria  ser feita pelo governo federal, não pela  governadora de oposição.
Resultado: o  dinheiro para a adutora ainda não saiu.

Me diga com quem tu andas e tirei quem tu és. Ou:"Estatal chinesa sócia da Petrobras no campo de Libra — a maior reserva de pré-sal — sofre devassa por corrupção"


Xi Jinping, já eleito presidente em novembro passado, dirigindo-se ao Congresso Nacional do Povo da China: combate à corrupção não era só conversa fiada (Foto: AFP / Getty Images)
Xi Jinping, já eleito presidente em novembro passado, dirigindo-se ao Congresso Nacional do Povo da China: combate à corrupção atingiu a CNPC, gigante petrolífera que fatura quase meio trilhão de dólares por ano e é sócia da Petrobras na exploração do campo de Libra, a maior reserva descoberta até hoje no pré-sal (Foto: AFP / Getty Images)
O assunto passou praticamente em branco no avassalador noticiário sobre o recente leilão para exploração do campo de Libra, a maior reserva de petróleo na camada de pré-sal descoberta até hoje. Mas o fato é que uma das empresas integrantes do consórcio vencedor, a gigantesca estatal chinesa China National Petroleum Corporation (CNPC), está sendo alvo da mão de ferro contra a corrupção que o novo presidente da China, Xi Jinping, anunciou ao tomar posse, há um ano.
Um colosso que fatura quase meio trilhão de dólares por ano e comanda uma rede de subsidiárias, a CNPC é um dos esteios da economia chinesa e virou alvo do presidente justamente pelo seu porte — e, claro, pelo que ocorria lá dentro.
Quem achava que a campanha de Xi tinha efeitos propagandísticos passageiros surpreendeu-se quando o presidente, depois de formalmente ouvido o órgão de controle e disciplina do Partido Comunista Chinês, mandou afastar da CNPC alguém que era mais do que um chefão da empresa, mas também uma figura em ascenção na complexa política chinesa — o vice-presidente da companhia,Wang Youngchun, assim como o vice-presidente da PetroChina, uma filial da CNPC, Ran Xinquan, e mais dois altos dirigentes – todos eles da mesma forma dinamitados dos cargos que ocupavam no Partido.
china national petroleum corporationA chacoalhada na empresa que detém 10% do consórcio vencedor do leilão de Libra já era esperada por conhecedores da política chinesa desde que, em um corta-cabeças anterior, caíra Jian Jieming, justamente diretor do órgão encarregado de supervisionar as enormes empresas públicas chinesas.
Como de hábito no fechado regime chinês, o governo não divulgou os motivos concretos dos afastamentos, embora os dirigentes já estivessem sob a acusação formal de ter cometido “graves violações de disciplina”, maneira eufemística que, na China, costuma ser utilizada para encobrir o embolsar de subornos ou outros atos de corrupção.
A ação de limpeza não se limitou à alta cúpula, mas também se estendeu de forma radical e fulminante empresa afora: nada menos do que 1.000 altos e médios executivos da gigante petroleira receberam ordens de entregar os passaportes à polícia e informar periodicamente seu paradeiro às autoridades. No final das investigações, centenas podem ir para a rua — e para a cadeia.
Um episódio dramático nesse processo – e também um sinal de que a coisa parece mesmo ser para valer – foi a morte de uma alta executiva de uma das principais fornecedoras da CNPC, a Sichuan Star Cable (cujo nome se manteve em sigilo): ela se suicidou atirando-se do alto de um edifício de Chengdu, a capital da província de Sichuan. O presidente da empresa e dois diretores deixaram de comparecer ao local de trabalho há três meses, coincidindo com o início das investigações sobe a CNPC.
A luxuosa sede da petroleira, em Pequim (Foto: dailyfusion.net)
A luxuosa sede da petroleira, em Pequim (Foto: dailyfusion.net)
Quando o presidente Xi Jinping assumiu o cargo, alguns especialistas em assuntos chineses previram “novos tempos”, em especial no combate ao câncer que se alastra pelas instituições do país e é uma das principais causas de insatisfação da sociedade – a corrupção de agentes públicos.
Ao anunciar que iria baixar o porrete, Xi lançou mão de uma das tradicionais metáforas utilizadas pelos líderes comunistas chineses, anunciando que, no Partido e no Estado, seriam investigados “tanto tigres como moscas”. Mas outros dirigentes já haviam feito, no passado, promessas do mesmo tipo, sem que grandes mudanças fossem observadas no cenário de roubalheira e outras irregularidades que campeiam no aparato estatal, e as previsões caíram na vala comum do ceticismo.
Xi Jinping, porém, já nas primeiras semanas – conforme registramos no blog – voltou a falar grosso, atacando “vadiagem e roubo” dentro do governo e extinguindo privilégios e mordomias em um dos sacrossantos e em geral intocáveis baluartes do regime chinês, o Exército.
Depois, causando grande impacto junto à opinião pública e repercutindo fortemente no exterior, veio o longo e ruidoso julgamento do popular e influente ex-líder Bo Xilai, ex-prefeito, ex-governador de província, ex-ministro, ex-chefe do Partido em Chongking – distrito no Sudoeste da China com 7 milhões de habitantes na capital e 34 milhões em sua área de influência – condenado à prisão perpétua por supostos corrupção e abuso de poder. Aos 57 anos, Bo por pouco escapou da pena de morte.
china jian jiemin
Jian Jiemin, dirigente do órgão fiscalizador: também expurgado e excluído do Partido Comunista (Foto: Agência Nova China)
Mas, na China como em qualquer parte, a luta contra a corrupção encerra também uma disputa pelo poder, ou a reafirmação de quem o exerce.
No caso, o novo presidente parece estar querendo minar a influência ainda mantida por Zhou Yongkang, ex-membro do poderoso Politburo (o pequeno núcleo de 25 principais dirigentes do Partido Comunista, sete dos quais — os integrantes do Comitê Permanente — detêm o poder real) e ex-chefe do chamado Comitê Central Político e Legislativo, organismo que disfarça, sob esta nomenclatura inocente, a tarefa de supervisionar os órgãos de segurança e as instituições policiais da China.
Zhou, o ex-czar da segurança na China, em rara foto ao lado do hoje condenado à prisão perpétua Bo Xilai (Foto: scmp.com)
Zhou, o ex-czar da segurança na China, em rara foto ao lado do hoje condenado à prisão perpétua Bo Xilai (Foto: scmp.com)
O ex-czar da segurança foi governador da província de Sichuan, de onde também é originária a maioria de seus protegidos que vêm caindo em desgraça. Há rumores de que Zhou, afastado de suas funções em novembro, está sob prisão domiciliar. Seu filho, Zhou Bin, também ocupante de cargo importante no Partido, foi preso há três meses em Chengdu.
Tal como os demais, o problema de Zhou parece ter sido sua proximidade com o hoje maldito Bo Xilai.

Por favor acabem com o Estado!!!!!!!!!!Ou:"O maior cargo da República (Lauro Jardim)"


Piada pronta
o ministro Gastão Vieira
Parece piada, mas saiu no Diário Oficial da União de quarta-feira passada.
Evaldo da Silva foi nomeado para exercer o cargo de “substituto eventual” do – agora, respire fundo, tome fôlego e prepare-se – Coordenador-Geral da Coordenação-Geral de Produção Associada e Desenvolvimento Local do Departamento de Qualificação e Certificação e de Produção Associada ao Turismo da Secretaria Nacional de Programas de Desenvolvimento do Turismo do Ministério do Turismo.
Evaldo, aliás, ficará apenas cinco dias no cargo.

Os embusteiros. Ou:"Eike Batista, Lula e Camus: a empáfia e a queda" (por R.Constantino)

Juntando o centenário de Albert Camus, a bancarrota oficial da maior empresa do grupo X, de Eike Batista, e ainda o retorno de Lula ao cenário político, fazendo bravatas e falando besteira de cima de sua típica arrogância, resolvi resgatar esse meu artigo publicado no GLOBO, que mistura justamente Camus, Eike Batista e Lula. Divirtam-se:
A queda
Eike Batista está para a economia como Lula está para a política. O “sucesso” de ambos, em suas respectivas áreas, tem a mesma origem. Trata-se de um fenômeno bem mais abrangente, que permitiu a ascensão meteórica de ambos como gurus: Eike virou o Midas dos negócios, enquanto Lula era o gênio da política. Tudo mentira.
Esse fenômeno pode ser resumido, basicamente, ao crescimento chinês somado ao baixo custo de capital nos países desenvolvidos. As reformas da era FHC, que criaram os pilares de uma macroeconomia mais sólida, também ajudaram. Mas o grosso veio de fora. Ventos externos impulsionaram nossa economia. Fomos uma cigarra que ganhou na loteria.
A demanda voraz da China por recursos naturais, que por sorte o Brasil tem em abundância, fez com que o valor de nossas exportações disparasse. Por outro lado, após a crise de 2008 os principais bancos centrais do mundo injetaram trilhões de liquidez nos mercados. Isso fez com que o custo do dinheiro ficasse muito reduzido, até negativo se descontada a inflação.
Desesperados por retorno financeiro, os investidores do mundo todo começaram a mergulhar em aventuras nos países em desenvolvimento. Algo análogo a alguém que está recebendo bebida grátis desde cedo na festa, e começa a relaxar seu critério de julgamento, passando a achar qualquer feiosa uma legítima “top model”.
Houve uma enxurrada de fluxo de capitais para países como o Brasil. A própria presidente Dilma chegou a reclamar do “tsunami monetário”. Os investidores estavam em lua de mel com o país, eufóricos com o gigante que finalmente havia acordado. Havia mesmo?
O fato é que essa loteria permitiu o surgimento dos fenômenos Eike Batista e Lula. Eike, um empresário ousado, convenceu-se de que era realmente fora de série, que tinha um poder miraculoso de multiplicar dólares em velocidade espantosa, colocando um X no nome da empresa e vendendo sonhos.
Lula, por sua vez, encantou-se com a adulação das massas, compradas pelas esmolas estatais, possíveis justamente porque jorravam recursos nos cofres públicos. A classe média também estava em êxtase, pois o câmbio se valorizava e o crédito se expandia. Imóveis valorizados, carros novos na garagem, e Miami acessível ao bolso.
O metalúrgico, que perdera três eleições seguidas, tornava-se, quase da noite para o dia, um “gênio da política”, um líder carismático espetacular, acima até mesmo do mensalão. Confiante desse poder, Lula escolheu um “poste” para ocupar seu lugar. E o “poste” venceu! Nada iria convencê-lo de que isso tudo era efeito de um fenômeno mais complexo do que ele compreendia.
Dilma passou por uma remodelagem completa dos marqueteiros, virou uma eficiente gestora por decreto, uma “faxineira ética”, intolerante com os “malfeitos”. Tudo piada de mau gosto, que ainda era engolida pelo público porque a economia não tinha entrado na fase da ressaca. O inverno chegou.
O crescimento chinês desacelerou, e há riscos de um mergulho mais profundo à frente. A economia americana se recuperou parcialmente, e isso fez com que o custo do capital subisse um pouco. Os ventos externos pararam de soprar. Os problemas plantados pela enorme incompetência de um governo intervencionista, arrogante e perdulário começaram a aparecer.
A maré baixou, e ficou visível que o Brasil nadava nu. O BNDES emprestou rios de dinheiro a taxas subsidiadas para os “campeões nacionais”, entre eles o próprio Eike Batista. O Banco Central foi negligente com a inflação, que furou o topo da meta e permaneceu elevada, apesar do fraco crescimento econômico. Os investidores começaram a temer as intervenções arbitrárias de um governo prepotente, e adiaram planos de investimento.
A liquidez começou a secar. O fluxo se inverteu. E o povo começou a ficar muito impaciente. Eike Batista se viu sem acesso a novos recursos para manter seu castelo de cartas. As empresas do grupo X despencaram de valor, sendo quase dizimadas enquanto as dívidas, estas sim, pareciam se multiplicar. A palavra calote passou a ser mencionada. O BNDES pode perder bilhões do nosso dinheiro.
Já a presidente Dilma, criatura de Lula, mergulhou em seu inferno astral. Sua popularidade desabou, os investidores travaram diante de tantas incertezas, e todos parecem cansados de tamanha incompetência.
Eike e Lula deveriam ler Camus: “Brincamos de imortais, mas, ao fim de algumas semanas, já nem sequer sabemos se poderemos nos arrastar até o dia seguinte”.

A desigualdade e o egoísmo estimulam o desenvolvimento (Mises)


3007.jpgA desigualdade de renda e de riqueza é uma característica inerente a uma economia de mercado. A eliminação desta desigualdade destruiria completamente qualquer economia de mercado.
O que as pessoas que propõem a igualdade têm em mente é sempre um aumento do seu próprio poder de consumir. Ao apoiar o princípio da igualdade como um postulado político, ninguém pensa em repartir sua renda com os que têm menos.  Quando os assalariados falam de igualdade, estão querendo dizer que os lucros dos patrões deveriam ser distribuídos entre eles.  Não estão propondo uma redução de sua própria renda em benefício dos 95% da população da terra cuja renda é menor do que a sua.
Em uma sociedade de mercado, a desigualdade de renda representa um papel bem diferente daquele que ela representa em uma sociedade feudal ou em outros tipos de sociedades não capitalistas. Entretanto, no curso da evolução histórica, essa desigualdade pré-capitalista foi de enorme importância.
Comparemos a história da China com a da Inglaterra.  A China chegou a desenvolver uma civilização de alto nível. Dois mil anos atrás, estava muito mais adiantada do que a Inglaterra.  Mas, no fim do século XIX, a Inglaterra era um país rico e civilizado, ao passo que a China era um país pobre.  Seu estágio de civilização era praticamente o mesmo que já havia alcançado alguns séculos atrás; era uma civilização estagnada.
Os esforços feitos pela China para implementar os princípios de igualdade de renda foram muito maiores do que os feitos pela Inglaterra.  A terra foi dividida e subdividida. Não havia proletários sem terras.  Já na Inglaterra do século XVIII, a quantidade de proletários sem terra era muito numerosa.  Durante muito tempo, as práticas restritivas das atividades não agrícolas, consagradas pelas ideologias tradicionais, retardaram o surgimento da moderna atividade empresarial.  Porém, quando a filosofia do laissez-faire, ao destruir completamente as falácias do restricionismo, abriu o caminho para o capitalismo, a evolução do sistema industrial pôde processar-se num ritmo acelerado porque a força de trabalho necessária já estava disponível.
O que gerou a "era da máquina" não foi, conforme imaginava Werner Sombart, uma obsessão especial pelo enriquecimento, surgida misteriosamente do dia para a noite e que se apossou das mentes de algumas pessoas, transformando-as em "homens capitalistas".  Sempre existiram pessoas ávidas para obter lucros ao melhor ajustarem a produção à satisfação das necessidades do público.  Mas essas pessoas eram paralisadas pela ideologia que estigmatizava o desejo de lucrar como sendo imoral e que erigia barreiras com o propósito de impedi-lo.
A substituição das doutrinas favoráveis ao sistema tradicional de restrições pelo laissez-faire removeu esses obstáculos ao progresso material e deu lugar a uma nova era.
A filosofia liberal combatia o tradicional sistema de castas porque sua preservação era incompatível com o funcionamento da economia de mercado.  Defendia a abolição dos privilégios para poder liberar aqueles que, graças à sua engenhosidade, sabiam como produzir de forma mais barata uma maior quantidade de produtos de melhor qualidade.  Utilitaristas e economistas, neste particular, estavam de acordo com as ideias dos que combatiam os privilégios de classe em nome de um alegado direito natural e da teoria da igualdade de todos os homens.  Ambos os grupos defendiam o princípio da igualdade de todos perante a lei.  Mas esta coincidência de pontos de vista em alguns aspectos não eliminou as diferenças fundamentais entre essas duas correntes de pensamento.
Para a escola do direito natural, todos os homens são biologicamente iguais e, portanto, possuem o inalienável direito a uma parcela igual de todas as coisas.  A primeira afirmativa contraria frontalmente os fatos.  A segunda, se interpretada consistentemente, conduz a absurdos tais que os seus defensores acabam abandonando completamente a lógica e passam a considerar certas instituições, por mais discriminatórias e iníquas que sejam, como perfeitamente compatíveis com a inalienável igualdade de todos os homens.  Os eminentes cidadãos da Virgínia, cujas idéias inspiraram a Revolução Americana, admitiram que fosse preservada a escravidão negra.  O sistema de governo mais despótico que a história jamais conheceu, o bolchevismo, se apresenta como a própria encarnação do princípio de igualdade e liberdade entre todos os homens.
Os defensores da igualdade perante a lei tinham plena consciência da inata desigualdade entre os homens e de que é precisamente essa desigualdade que dá origem à cooperação social e à civilização.  Para eles, o princípio da igualdade perante a lei não foi concebido com o propósito de corrigir os fatos inexoráveis do universo ou para fazer desaparecer a desigualdade natural.  Era, muito pelo contrário, uma maneira de assegurar à humanidade inteira o máximo de benefícios que os homens podem extrair dessa desigualdade.  Portanto, nenhuma instituição criada pelo homem deveria impedir alguém de atingir aquela posição na qual pudesse melhor servir a seus concidadãos.  Para os liberais, o problema da desigualdade era visto pelo ângulo social e utilitário, e não segundo um alegado direito inalienável dos indivíduos.  A igualdade perante a lei, diziam eles, é boa porque serve melhor aos interesses de todos.  Permite, principalmente, que os consumidores decidam quem deve dirigir as atividades produtoras.  Elimina, assim, as causas de conflitos violentos, o que assegura o estabelecimento de uma ordem social mais satisfatória.
Foi o triunfo dessa filosofia liberal que produziu todos os fenômenos que, em seu conjunto, são denominados de civilização ocidental moderna.  Entretanto, essa nova ideologia só poderia triunfar em um ambiente onde o ideal de igualdade de renda fosse ainda muito fraco.
Se os ingleses do século XVIII estivessem encantados com a quimera da igualdade de renda, a filosofia do laissez-faire não lhes teria despertado o interesse, assim como ainda hoje não o faz entre os chineses ou os maometanos.  Nesse sentido, o historiador deve reconhecer que a herança ideológica do feudalismo e do sistema senhorial muito contribuiu para o advento da civilização moderna, por mais diferente que esta seja daquela.
Os filósofos do século XVIII, que não lograram compreender os princípios da nova teoria utilitária, continuaram perorando acerca da superioridade da China e dos países islâmicos.  Certamente conheciam muito pouco sobre a estrutura social do mundo oriental.  O que achavam louvável nas vagas informações de que dispunham era a ausência de uma aristocracia hereditária e de grandes latifúndios.  Pelo que imaginavam, esses povos teriam conseguido implantar os princípios igualitários com mais êxito do que as suas próprias nações.
Mais tarde, no século XIX, essas teses foram redescobertas pelos nacionalistas dos vários países.  A mais em voga era o pan-eslavismo, cujos defensores exaltavam a superioridade do mir[1] e do artel[2] russos e dozadruga[3] iugoslavo.  A crescente confusão semântica acabou convertendo o significado de termos políticos no seu oposto; o epíteto democrático passou a ser prodigamente utilizado. Os povos muçulmanos, que nunca conheceram outra forma de governo que não fosse o mais completo absolutismo, passaram a ser chamados de democráticos.  Os nacionalistas indianos se vangloriam ao falar da tradicional democracia hindu.
Os economistas e os historiadores são indiferentes a este tipo de efusão emocional.  Ao descreverem as civilizações asiáticas como civilizações inferiores, não estão expressando um julgamento de valor.  Meramente consignam o fato de que esses povos não souberam estabelecer as condições ideológicas e institucionais que, no Ocidente, produziram a civilização capitalista, cuja superioridade os asiáticos hoje implicitamente reconhecem ao clamarem pelo menos por seus implementos terapêuticos e tecnológicos e por sua parafernália.  O reconhecimento do fato de que, no passado, a cultura de muitos povos asiáticos era mais avançada do que a dos seus contemporâneos ocidentais implica procurar saber as causas que impediram o progresso no Oriente.  No caso da civilização hindu, a resposta é óbvia: o férreo controle do inflexível sistema de castas tolheu a iniciativa individual e cortou pela raiz qualquer possibilidade de desvio dos padrões tradicionais.  Mas a China e os países muçulmanos, exceção feita à escravidão de um relativamente pequeno número de pessoas, não estavam sujeitos a um regime de castas.  Eram governados por autocratas.  Mas os súditos eram iguais sob o jugo do autocrata. Até mesmo os escravos e os eunucos não eram impedidos de exercer funções elevadas.  É a essa igualdade sob o déspota que as pessoas se referem quando hoje mencionam os supostos costumes democráticos desses povos orientais.
Esses povos e seus governantes estavam comprometidos com uma noção de igualdade econômica que, embora vaga e mal definida, era muito clara em um aspecto: o de condenar peremptoriamente qualquer indivíduo privado que acumulasse uma grande fortuna.
Os governantes consideravam aqueles súditos que fossem ricos como uma ameaça à sua supremacia política. Todas as pessoas, governantes e governados, estavam convencidas de que não era possível acumular muitos recursos sem que isto privasse outras pessoas daquilo que, de direito, lhes pertencia — portanto, o patrimônio dos poucos ricos era a causa da pobreza de muitos.  A situação de comerciantes prósperos em todos os países orientais era extremamente precária.  Ficavam à mercê dos funcionários públicos. Mesmo propinas generosas não conseguiam evitar o confisco de seus bens.  A população regozijava sempre que uma pessoa próspera era vitimada pela inveja e pelo ódio dos governantes.
Essa mentalidade anticrematística obstruiu o progresso da civilização no Oriente e manteve as massas à beira da morte por inanição.  Uma vez que a acumulação de capital estava impedida, não poderia haver progresso tecnológico.  O capitalismo chegou ao Oriente como uma ideologia importada, imposta por exércitos e navios estrangeiros sob a forma ou de domínio colonial ou de jurisdição extraterritorial.  Esses métodos violentos certamente não eram os mais adequados para mudar a mentalidade tradicionalista dos orientais.  Mas o reconhecimento deste fato não invalida a constatação de que foi a aversão à acumulação de capital o que condenou centenas de milhões de asiáticos à pobreza e à fome.
A noção de igualdade que os nossos atuais defensores do estado assistencialista têm em mente é uma réplica da ideia asiática de igualdade.  Embora seja vaga sobre todos os aspectos, é bem nítida ao condenar as grandes fortunas.  Opõe-se às grandes empresas e aos grandes patrimônios.  Preconiza várias medidas para tolher o crescimento de empresas privadas e para impor mais igualdade por meio de taxação confiscatória de rendas e de propriedades.  E apela para a inveja das massas menos avisadas.
As consequências econômicas imediatas das políticas confiscatórias já foram examinadas alhures.  É óbvio que, no longo prazo, tais políticas resultam necessariamente não só numa redução da acumulação de capital, como também no consumo do capital que havia sido previamente acumulado.  Não só impedem a criação de maior prosperidade material como até mesmo revertem essa tendência, dando origem a uma pobreza cada vez maior. Se estes ideais asiáticos triunfassem, o Oriente e o Ocidente acabariam por se igualar no mesmo nível de miséria.
Os defensores do estado provedor não pretendem ser apenas os defensores dos interesses da sociedade geral contra os interesses egoístas das empresas ávidas por lucros; eles também afirmam estarem cuidando dos interesses permanentes e seculares da nação, se opondo aos interesses de curto prazo dos empreendedores e capitalistas, que só se preocupam com o próprio lucro, sem nunca se importar com o futuro da sociedade.  Esta segunda pretensão é evidentemente incompatível com a preferência que tais pessoas dão a políticas de curto prazo em detrimento das considerações de longo prazo.  Mas a consistência lógica não é uma das virtudes dos defensores do estado assistencialista.  Não levemos em conta, portanto, esta contradição em suas proposições e examinêmo-las sem considerar sua inconsistência.
A poupança, a acumulação de capital e o investimento retiram recursos que seriam usados no consumo corrente para empregá-los na melhoria das condições futuras.  O poupador renuncia a um aumento da satisfação imediata a fim de melhorar o seu próprio bem-estar e o de sua família no futuro.  Suas intenções certamente são egoístas no sentido popular do termo.  Mas os efeitos de sua conduta egoísta favorecem os interesses permanentes da sociedade como um todo, bem como os de todos os seus membros.  Seu comportamento produz todos aqueles fenômenos que até mesmo os mais fanáticos defensores do estado assistencialista rotulam de "desenvolvimento econômico" e "progresso social".
Para haver acréscimo de poupança e acumulação de capital, ou mesmo para que o capital atual seja simplesmente preservado, é preciso que haja redução no consumo de hoje a fim de que possa haver maior oferta de bens amanhã. Há necessidade de uma abstinência, de uma renúncia a satisfações que poderiam ser desfrutadas imediatamente.  A economia de mercado cria um contexto no qual essa abstinência é praticada numa certa medida, e no qual o capital acumulado daí decorrente é investido para produzir aquilo que melhor satisfaz as necessidades mais urgentes dos consumidores.
As fábulas de Papai Noel dos defensores do estado provedor se caracterizam pela total incapacidade de compreender o papel representado pelo capital.  Precisamente por isso, não se pode aceitar a designação de "economia do bem-estar" autoatribuída a esta doutrina.  Quem não leva em consideração a escassez de bens de capital disponível não é um economista; é um fabulista.  Não lida com a realidade, mas com um fabuloso mundo de abundância.  Todas as generosidades verbais dos defensores do estado provedor baseiam-se, implicitamente, na pressuposição de que existe uma abundância de bens de capital.  Se fosse assim, certamente seria fácil remediar todos os males, dar a cada um "segundo suas necessidades" e fazer com que todo mundo fosse perfeitamente feliz.
Os defensores do estado provedor costumam afirmar que a motivação dos indivíduos é o egoísmo, ao passo que o governo atua com a intenção de servir a todos. Admitamos, pelo bem do debate, que os indivíduos sejam demoníacos e os governantes angelicais.  Mas o que conta na vida real — apesar da opinião contrária de Kant — não são as boas intenções, mas os resultados.  O que torna possível a evolução da sociedade é precisamente o fato de que a cooperação pacífica sob o signo da divisão do trabalho, a longo prazo, atende melhor aos interesses egoístas de todos os indivíduos.  A superioridade da sociedade de mercado consiste no fato de que o seu funcionamento confirma esse princípio.
Essa realidade, totalmente palpável e comprovada, já é o bastante para refutar o clichê paternalista que procura contrastar, de um lado, o egoísmo dos indivíduos de mentalidade estreita, preocupados exclusivamente com os prazeres do momento e sem nenhuma consideração com o bem-estar dos seus concidadãos e com os interesses permanentes da sociedade, e, do outro, o governo benevolente e clarividente, infatigável na sua dedicação para promover o bem-estar duradouro de toda a sociedade.
Os defensores do estado provedor vêem no governo uma materialização da Divina Providência que, sábia e imperceptivelmente, conduz a humanidade a estágios mais elevados e mais perfeitos de um inexorável processo evolutivo; eles não são capazes de perceber a complexidade do problema e suas ramificações.
O cerne de toda essa questão sobre a acumulação de capital consiste exatamente na forma como o egoísmo produz os seus efeitos.  Em um sistema em que haja desigualdade, o egoísmo impele o homem a poupar e a procurar investir sua poupança de maneira a melhor atender às necessidades mais urgentes dos consumidores. Em um sistema igualitário, essa motivação desaparece.  A redução do consumo em um futuro imediato é uma abstinência facilmente percebida, contrária aos interesses egoístas do indivíduo.  Já a maior disponibilidade futura que se espera obter em decorrência dessa abstinência imediata é menos perceptível ao homem de inteligência média.
O problema de manter o nível de capital existente e de aumentá-lo é insolúvel num sistema socialista no qual não se pode recorrer ao cálculo econômico.  Uma sociedade socialista não dispõe de método para verificar se o capital existente está aumentando ou diminuindo.  Mas, no sistema intervencionista atual, a situação não é tão grave.  Neste caso, ainda é possível compreender o que está ocorrendo.  Se em tal país prevalece um regime democrático, os problemas de preservação e de acumulação de capital adicional tornam-se o tema central dos antagonismos políticos. Não faltarão demagogos a propor que se dedique ao consumo mais do que o partido no poder ou os outros partidos estejam dispostos a aceitar.  Estarão sempre dispostos a afirmar que "na atual emergência" não se pode pensar em acumular capital e que, pelo contrário, justifica-se plenamente o consumo de uma parte do capital já existente.  Os vários partidos competirão entre si nas promessas feitas aos eleitores no sentido de aumentar os gastos públicos e de, ao mesmo tempo, reduzir os impostos que não onerem exclusivamente os ricos.  No tempo do laissez-faire, as pessoas consideravam o governo como uma instituição cujo funcionamento implicava despesas que deveriam ser custeadas pelos impostos arrecadados dos cidadãos.
No orçamento de cada indivíduo, o estado era um item da despesa.  Hoje, a maioria dos cidadãos considera o governo como uma entidade que distribui benefícios.  Os assalariados e os agricultores esperam receber do erário público mais do que contribuem para a sua receita.  Consideram o estado como uma fonte de benefícios e não como um coletor de impostos.
Essas crenças populares foram racionalizadas e elevadas à categoria de uma doutrina quase econômica por Lord Keynes e seus discípulos.  Gastos públicos e déficits orçamentários são apenas sinônimos de consumo de capital.  Se as despesas correntes, por mais benéficas que sejam consideradas, são financiadas ou por meio de impostos — principalmente pelo confisco daquela parte das maiores rendas que teria sido utilizada para investimento —, ou por aumento da dívida pública, o estado se converte no grande consumidor do capital existente.  O fato de que um país ainda apresente um excedente anual de acumulação de capital em relação ao correspondente consumo de capital não invalida a afirmativa de que o conjunto das políticas financeiras do governo federal, dos estados e dos municípios provoca um crescente consumo de capital.
No final, o que determina o curso da política econômica de uma nação são sempre as ideias econômicas aceitas pela opinião pública.  Nenhum governo, seja democrático ou ditatorial, pode libertar-se da influência da ideologia dominante na sociedade. Os que defendem uma limitação das prerrogativas parlamentares em matéria de orçamento e de impostos, ou mesmo a substituição de um governo representativo por um governo autoritário, estão iludidos pela imagem quimérica de um perfeito chefe de estado.
Esse homem, tão benevolente quanto sábio, se dedicaria sinceramente à promoção do bem-estar duradouro de seus súditos.  Na realidade, entretanto, esse caudilho seria um homem mortal como todos os outros, e estaria, acima de tudo, preocupado com a perpetuação de seu poder e o de sua família, de seus amigos e do seu partido.  Quando necessário, recorrerá a medidas impopulares apenas para atender a esses objetivos.  Não investe nem acumula capital; apenas constrói fortalezas e equipa exércitos.
Os tão famosos planos das ditaduras soviética e nazista consistiam em restringir o consumo corrente em favor dos "investimentos". Os nazistas nunca ocultaram que todos esses investimentos eram uma preparação para a guerra de agressão que pretendiam deflagrar.  Os soviéticos foram, de início, mais discretos; mais tarde, proclamaram orgulhosamente que todo o seu planejamento estava dominado por considerações de poderio militar.  A história não registra nenhum caso de acumulação de capital economicamente produtivo que tenha sido realizado pelo governo.  O capital investido na construção de estradas, ferrovias e outras obras públicas úteis foi sempre obtido pela poupança individual dos cidadãos ou por empréstimo.
Mas a maior parte dos fundos arrecadados através da dívida pública foi gasta em despesas correntes.  O que os indivíduos haviam poupado foi dissipado pelo governo.  Mesmo aqueles que consideram a desigualdade de renda e de riqueza uma coisa deplorável não podem negar que ela favorece a acumulação de novos capitais.  E é somente o capital adicional que pode produzir progresso tecnológico, aumento de salários e um melhor padrão de vida.